sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Barcelona



Somos todos Charlie (e devemos ser), somos todos Paris (e devemos ser), somos todos Nice, Bruxelas, Barcelona e Madrid (e devemos ser), mas… (temos de admitir) não nos expressamos da mesma forma, nem com a mesma indignação nem… com a mesma dor quando os atentados (ainda que mais frequentes e mais sanguinários) ocorrem em países situados fora do perímetro da dita cultura ocidental: Turquia, Síria, Iraque, Serra Leoa, Libéria, Afeganistão, Índia…
Temos ainda um longo e doloroso caminho a percorrer. É um caminho interior, até às profundezas da alma de cada de nós. É uma cruzada contra todas as nossas corrosivas indiferenças. Temos de conseguir levar a nossa dor para lá das fronteiras do “podia ter sido eu”. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

The bad wolf came back



Só para dizer que acabou a pasmaceira. O blogger mais independente, mais subversivo, mais revolucionário, mais eclético, mais criativo, mais surpreendente, mais provocador, mais viril, mais apaixonante, mais desconcertante, enfim, mais genial (e mais modesto também) reabriu o seu estabelecimento, após uma curta semanita e pico a “ramblar”. Perosucede que tengo pocas ganas de escribir. Ainda assim, cuidem-se os editores da blogosfera docente, porque é por eles que vou começar a malhar. Têm andado a portar-se mal, dizendo coisas sem interesse, rendendo-se ao poder instituído, ao capitalismo, ao egoísmo, ao narcisismo… e até abrindo lojas de baba e reiki bué choninhas. Ai ai ai ai ai!!!

domingo, 6 de agosto de 2017

O lobo vai de férias



O GIF, como é habitual aqui na serra Eramá, foi pensado para a música de fundo. Neste caso, a canção “In the Summertime”, dos Mungo Jerry.

O lobo vai de férias. Uma semanita, para descomprimir e beber outros ares.
Portem-se bem (se puderem)!

sábado, 5 de agosto de 2017

Sou professor contratarado e… feliz!



Bom dia! Eu sou o Ernesto Alegria, nasci em Currais do Meio há quarenta e tal anos, casei há quinze dias e, sinceramente, prefiro ficar anónimo neste artigo, porque… nunca se sabe, não é verdade? Eles estão por todo o lado. Mais vale prevenir do que remediar. Mas… adiante, que se faz tarde.
Comecei a deduzir que seria masoquista, por volta dos dezassete ou dezoito anos, não sei precisar muito bem, quando levei um valente coice do burro do Zé Farrapo. Não, não apanhei choque nenhum. Até gostei! Depois, confirmei que o era (e sou) realmente, quando apanhei o Amâncio, o meu melhor amigo, na praia, a espalhar bronzeador no corpo impoluto da minha namorada, a Adosinda, filha do Toninho Aldra, o merceeiro de Currais. E gostei, pois claro! Então pus-me a pensar e disse cá para os meus botões: «Ernesto, se tu gostaste daquilo e ainda gostaste mais disto, é porque tu és um valente masoquista!» Fiquei muito feliz com esta constatação, que veio no momento mais propício da minha vida: estava na idade de escolher a profissão.
Fui para casa, deitei-me nas lajes da eira e entreguei-me a algumas horas de profunda e sólida meditação. Busca daqui, questiona dali, infere A e deduz B… até que cheguei a uma conclusão que me deixou deveras extasiado: a profissão de professor vestia que nem uma luva nas minhas expectativas de vida. Ter uma carreira em que é possível conciliar o trabalho com o prazer era uma espécie de cereja no cimo do bolo. Só a ideia, tão lúcida e tão iminentemente real, já me conferiu, naquele preciso instante, um certo grau de êxtase. Como não cabia em mim de ansiedade, tratei, logo que pude, de me candidatar a um curso de formação de professores. Dado que sempre fui bom em números, tornei-me professor de Português. Longe estava eu de imaginar que a realidade iria dar uma valente coça aos saborosos frutos da minha prodigiosa imaginação agridoce!
Sou professor contratado há duas dúzias de anos. No início, não achei piada nenhuma ter de andar com a carapaça às costas para todo o lado, porque gostava de sofrer no mesmo sítio durante mais tempo. A monotonia da rotina confere ao prazer masoquista recortes de requinte que só quem experimenta pode valorizar. Contudo, com o tempo, fui-me habituando e até passei a gostar, a gostar mais ainda. Hoje, já não quero outra coisa: sofrer em cidades e vilas diferentes, em escolas diferentes, com diretores diferentes, com colegas e alunos diferentes, nunca se sabendo realmente o que nos espera… É intenso, permanente… “adrenalizante”… É como sofrer tudo de todas as maneiras e ficar a chorar por mais. Professor efetivo? Nem me falem! Do quadro de agrupamento? Vade retro! Parece coisa de bacanal sem dor! O que quero mesmo é ficar assim, nesta constante indefinição, nesta constante ansiedade até à reforma e mais além, para lá dos setentas.
Como disse, dois parágrafos acima, a minha profissão tem-me dado muito mais do que eu, nos meus melhores devaneios, poderia desejar. A dada altura, congelaram a progressão na carreira. Ainda por cima, a crise económica não se fez rogada. Nem queiram imaginar as carradas de prazer que tal facto acrescentou à minha já tão gostosa vida! Devia chamar-lhe “prazimento”, uma vez que só funciona com sofrimento. Mais tarde, descongelam a coisa. Confesso: receei perder alguns bons condimentos do meu quotidiano, mas estava redondamente enganado. A ministra de então alterou os escalões e eu fui por aí abaixo. «Boa, mana!», disse eu, cá para mim, no mais íntimo das minhas vísceras. Os meus colegas andavam furiosos, mas eu, no meu recato interior, rebolava-me de prazer. Além disso, nunca exercitei tanto a matemática, a fazer contas e mais contas ao dinheiro. Era um clímax atrás do outro! Não tinha mãos a medir! E quando eu pensava que já tinha chegado ao sétimo céu, eis que se revela o oitavo: puseram-me a trabalhar mais tempo com o mesmo salário, a dar aulas que não eram letivas, a fazer tarefas de secretaria e de pessoal auxiliar, a guardar putos na cantina… Doses e doses de “prazimento” sem fim! Se dúvidas ainda tivesse quanto à escolha profissional que fizera, elas teriam sido então completamente cilindradas. Nunca me canso de agradecer ao Amâncio aquelas mãos sagradas a percorrerem o curvilíneo lombo da minha Adosindinha!
Finalmente, com o decorrer dos anos, subi na carreira: fui promovido ao nono céu. Os alunos não estudam um corno, deitam todo o tipo de porcarias para o chão da sala, dizem palavrões em todo o lado, e até à minha frente, chamam-me nomes, falam uns com os outros enquanto eu falo para o boneco; os encarregados de educação protestam por tudo e por nada; alguns até batem mesmo (ainda há coisa de dois meses, um me deu uns bons sopapos só porque tirei o telemóvel ao filho); os diretores fazem de mim gato-sapato (e eu adoro!); os coordenadores não ligam nenhuma ao que eu digo (e eu até já falo só para sentir o seu prazeroso desprezo); no fim do ano, como sou setor de Português, desautorizam-me, votando as minhas notas para passaram os alunos que se borrifaram na minha cara (eu até já lhes dou para baixo na avaliação só para poder saborear minuciosamente cada uma dessas democráticas humilhações); depois, os putos cujas notas foram alavancadas portam-se mal no exame e o diretor chama-me à pedra, baixa-me as calças e dá-me tau-tau, por causa da discrepância entre a avaliação interna e a externa (e eu vou às nuvens, pois claro!). AAAAAAAAAAAAAH!
Enfim, não podia ter escolhido melhor profissão. Nunca chegarei ao topo da carreira, nem quero chegar! Nunca serei respeitado, nem quero ser! Reforma?! Quanto mais tarde e mais depauperada, melhor! E se algum dia (vira para lá as fuças, ó Diabo) tiver de pertencer a um quadro, pois que seja o da mona lisa, ou então de um município qualquer. Sou um masoquista convicto e inconsolável! Quero mais e mais e mais e mais… Foi por isso que, há quinze dias, casei com a Adosinda. E adivinhem lá quem foi o padrinho! O Amâncio, pois claro, que agora é diretor da escola TEIP onde eu “sofrensinei” este ano.
Sou professor contratarado e… feliz!

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Grau zero da pedagogia



Ao longo de um, dois ou três anos, um professor vais construindo um discurso coerente, motivador, propiciador do reconhecimento do valor do trabalho diário e do desenvolvimento do sentido de responsabilidade. Os alunos entendem-no, aceitam-no e incorporam-no, porque o consideram claro e congruente com as ações e decisões quotidianas do professor. Consequentemente, os momentos de autoavaliação tornam-se simples e pacíficos. Depois, chega o conselho de turma do último ano do ciclo e, em poucos minutos, todo esse património é delapidado.
Outrora, o expediente da votação de notas em conselho de turma era uma rara exceção, e acionava-se por uma questão de justiça, para que um determinado aluno não fosse prejudicado por fatores não dependentes da sua ação ou inação. Hoje, porém, é muito diferente: as notas são votadas a eito, sem qualquer critério ou fundamento pedagógico, apenas porque há que cumprir as metas “contratualizadas”, porque há que atingir, a todo o custo, o sucesso estatístico pleno, sem qualquer consideração pelo profissionalismo dos colegas, sem qualquer respeito pelo trabalho desenvolvido, sem a devida consciência das repercussões de tais atos administrativos no dia a dia quer dos professores quer dos alunos.
O que é que uma escola ensina aos alunos quando — por influência de quem manda e alienação de quem cumpre — decide rasgar o tecido pedagógico que um professor, meticulosamente, pacientemente e coerentemente, andou a construir ao longo de todo um penoso percurso? O que é que uma escola ensina quando decide, por vias travessas, fazer transitar alunos que, em coerência com todos os critérios definidos e com todos os valores veiculados e aceites, sabiam que não mereciam? Essa escola incute-lhes valores de sentido oposto aos que proclama (currículo oculto, mas poderoso): o desinteresse, a falta de ambição, resignação, a acomodação, a falta de respeito (pelos colegas, pelos professores e pela escola), o absentismo e… a indisciplina. Ensina não apenas os que transitam nestas condições, mas também os restantes, que assim são incentivados a fazerem o mesmo, porque, no final… a pauta não faz justiça ao trabalho de ninguém. Em suma, a escola que procede desta forma não recupera uns e desmotiva outros.
Relativamente aos professores, o que resta dizer é muito triste! Mais de uma década de bombardeamento profissional conduziu o corpo docente a este estado amorfo, alienado, desprovido de consciência crítica, de idoneidade e autoridade pedagógica, de ética, de sentido de defesa intransigente dos interesses imediatos e mediatos dos seus alunos. Nem sei se prefiro acreditar que tal acontece mais por inconsciência ou por demissão. O Diabo que venha e escolha. A verdade é que são muitos os que, cansados de retaliações, se resignaram ou mudaram mesmo de fé. Querem é paz, ainda que de consciência amordaçada. E como, frequentemente, estão em maioria nos conselhos de turma, vão perseguindo e cilindrando o trabalho, a autoridade e a dignidade profissional de quem não se rendeu a este negro vórtice de facilitismo economicista. Já nem sequer se exige um fundamento credível, uma justificação detalhada. É porque sim, porque o sucesso estatístico é o novo dogma avaliativo de todo o trabalho desenvolvido numa escola, e ninguém quer ficar mal na Suprema Avaliação Externa.
Os fins parecem justificar os meios. O sucesso pleno (máxima poupança) tem se ser alcançado a todo o custo. Se tiver de ser através do grau zero da pedagogia e sobre os cadáveres dos professores, paciência! Valores mais baixos se levantam.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Os milagres da senhora DT e do CT, por maioria



Noutros tempos, não muito distantes, quando um conselho de turma decidia votar a nota de um professor (expediente raro e só usado em situações mesmo muito especiais), caía o Carmo e a Trindade. O visado sentia que a sua autoridade e o seu profissionalismo (por vezes, o respeito) tinham sido beliscados. E lá teria as suas razões! Hoje em dia, votar notas não só se tornou moda como já entrou na mais normalíssima das rotinas. Eu diria mesmo que se tornou viral e viciante, a tal ponto que até há professores que votam contra a sua própria nota. Mas o sucesso pleno, tudo justifica, ao sucesso pleno tudo se perdoa. A febre é tanta, que já atingiu outros planetas do sistema solar.
A história que vou contar, não se passou em Portugal, nem na Europa, nem no planeta Terra, aconteceu em Neptuno. Em Neptuno, o sistema educativo é muito parecido com o nosso (refiro-me a Portugal). Acho mesmo que é nesse planeta que os nossos políticos mais visionários se inspiram para sacarem as suas reformas mirabolantes.
Acontece que num belo dia, no final do ano letivo de Neptuno, a DT que ia presidir ao primeiro conselho de turma de um ano terminal, quando atravessava o longo corredor que conduzia à sala de reuniões, foi picada por uma abelha asniática (espécie autóctone), cujo ataque é indolor, mas alucinogénio. As vítimas passam a ouvir e a seguir vozes que fremem constantemente no cérebro. Ora… o corredor foi suficiente para a nossa heroína ouvir tudo o que precisava: “Lembra-te de que é o primeiro conselho de turma. O que acontecer aí fará jurisprudência sobre os restantes. Vota a eito, que o desfecho é perfeito. Não deixes nenhum pupilo para trás. E nada temas, que a mão do Grande Irmão proteger-te-á.”
Passemos a fita à frente. Trsjjjjsjsjsjsjjsjjsjsjsjsjsjjsjs…. O conselho de turma já está nos finalmentes.
— Ora, caros colegas, nem vale a pena estarmos aqui a dirimir argumentos, pois todos sabemos que estes cachopos, apesar de gostarem de botânica, estudaram quase todas as árvores mas não estudaram um carvalho, o que é grave porque se trata da espécie dominante no nosso planeta. Por isso, vamos diretos ao assunto, porque não os queremos novamente aqui para o ano, não é verdade? Então é assim: temos três alunos com quatro negativas e dois com três, sendo que, em todos os casos menos num, as disciplinas de P e de M estão envolvidas. Os primeiros… nada feito, pois teríamos de votar duas notas o que é… indigesto. A não ser que algum colega queira, de livre vontade, subir a sua nota para três.
— Eu subo a nota do Brêtebe — disse, imediatamente o PCN (professor de CN) — e nunsa fala mainisso!
— Eu suvo o nível do Préjece — atacou a PI (professora de I).
— Ora, assim sendo, agora só temos um aluno com quatro. É o Blábláblá, coitado! É fraquinho, todos sabemos, mas estudou a zoologia quase toda, só não estudou um corno e aponta de outro. Vamos traumatizá-lo com uma retenção?
— Eu estou d’acordo co'a DT — acudiu a PFQ (professora de FQ). — Apesar de ter dois à minha disciplina, nota que não altero, porque ele é mesmo muito fraquinho, se for proposta a botação, eu digo já que boto a fabor da alteração.
— Mas o Blábláblá tem quatro negativas, colega! Mesmo que votássemos a tua nota, ele ainda ficava com três, com P e M, que significa chumbo certo no exame.
— Euê estou dispostoê a subirê a minha notaê — apostou o PM (professor de M).
— Então… só precisamos de votar a nota de FQ. Vamos a isso. Levantem lá as mãos… A nota foi alterada com apenas um voto contra: o do PP (professor de P). Assim… já está passado, pois nunca na vida tira 1 no exame de P. Vamos então aos casos dos alunos Juquejuque e Tiroliro. Não adianta votarmos as notas de G, no primeiro caso, nem de F no segundo, porque, se vão a exame com nega a P e M, estão feitos. Por outro lado, não vale a pena votar a nota de M, porque eles são meninos para tirarem 1 no exame e… lá vai tudo quanto a Maria votou. Assim sendo…
— Só nos resta uma saída: boutar a nouta de P — concluiu perspicazmente o PCN. Bamos a isso depressa qu’ou, a seguir, tenho outro conseilho de truma.
Nesse momento, antes que a DT passasse ao ataque, o PP tomou a palavra e explicou por A mais B todas as razões que justificavam a justeza do nível atribuído aos catraios e as implicações que tais votações tinham na credibilidade e na autoridade dos professores…
— Tudo bem, colega, mas já ninguém liga a isso! Agora é assim que se faz. É assim em todo o lado!
— Ó colega, a avaliação não deve de ser encarada  como castigo. Sabe muito bem que a Lei diz que a transição é a regra. A retenção só deve ser usada muito muito muito raramente. Quase nunca, por assim dizer.
— Se nós não botarmos isto, o pedagógico manda pa trás. E mesmo qu'isto passasse no pedagógico, daba logo motibo a um recurso. E todos nós sabemos o qu'a DREN (Direção Regional de Educação de Neptuno) faz aos recursos. Às tantas ainda aparecem por cá os Dalton, os irmãos Metralha, o Labo Mau, o Lord Farquaad, o Diabo da Tasmânia…
— Pois é!!! E depois inda temos que boltar a reunir o CT, mesmo que já estéjamos noutro planeta. Bamos mas é botar a nota e prontos.
— O professor de PP quer dizer algo mais? — quis saber a DT.
— Sim, quero dizer que o céu lá fora está azul e que aqui está um calor que não se aguenta!
— Muito bem! Assim sendo, vamos lá levantar os bracinhos… O Brêtebe já está, com um voto contra. Novamente… O Préjece também está arrumado, com um voto contra. Agora para o Juquejuque… O Juquejuque já passou, com o mesmo voto contra. Agora o Tiroliro… O Tiroliro também já passou, com o habitual voto do contra. Podem até tirar 2 no exame de P que já ninguém os impede de se matricularem no Déci Moano.
— Missão cumprida. Parabéns!!! — Segredou-lhe a abelhinha asniática, com voz de mel.
A DT inchou, inchou, inchou tanto, que… saiu pela janela e ascendeu aos castelinhos brancos das nuvens. Os sobrantes… foram quase todos felizes para o próximo dominó.

Contra Bentos & Marés



Mais logo, conto-vos (à ma manière) a história de uma DT que ficou possessa depois de ter sido picada por uma abelha asniática (perdoem o neologismo).

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Postezinho irritante



Descobri que irrito bué de gente quando digo, à praça toda, que amo os meus alunos. E “prontes”, o meu lado infantil veio à tona.
A pedido de muitas famílias que não puderam estar presentes, dedico a todos os irritadiços este very nice “postezinho” amorositante (amoroso + irritante).
Não me vão agora fazer a desfeita de gostar, pois não?
PS – A despropósito, o meu artigo de ontem bateu todos os recordes aqui na serrania Eramá: mais de seis mil visualizações nas primeiras 24 horas. Ainda há hope!

domingo, 30 de julho de 2017

Todos os professores serão QM


Tarsila do Amaral, “Os operários”, 1933

Na última década, apesar da intensa e constante atividade crítica desenvolvida na blogosfera, a classe docente só tem perdido direitos, autoridade, respeito, autonomia, capacidade reivindicativa… enfim, VOZ. Concomitantemente, tem somado cargas de trabalho, atividades não docentes e expropriações sucessivas das suas áreas pedagógicas mais íntimas. Há, de facto, um “plano” para transformar os professores em meros executores de ordens e atividades, em meros aplicadores de conhecimentos e competências.
Neste acelerado processo de imbecilização e silenciamento da classe docente, tem ganho crescente relevo a voz dos diretores (ou, para ser mais rigoroso, daquele que diz que os representa, através da ANDAEP) e dos pais e encarregados de educação (ou melhor, daqueles que dizem que os representam, através da CONFAP). Não sei se é por ignorância ou por encomenda, a verdade é que, ultimamente, sempre que fala o Senhor Andaep a comunicação social toma-o como representante da opinião/vontade dos professores, como aconteceu com o bitaite dos dois semestres (uma hipálage ética e profissional, que consiste em atribuir ao ”objeto” qualidades de quem o possui). Os professores?! A ANDAEP (ou melhor, Filinto Lima) agora fala pelos professores?! Talvez ainda nem sequer represente a voz da maioria dos diretores e já o tomam como representante dos professores? Depois, entrevistam uma ou duas caras larocas e… toma lá mais uma sinédoque (tomar uma ínfima parte pelo todo silencioso e alheado): “os encarregados de educação querem isto, estão de acordo com aquilo”.  Até dos manuais fala um e outros sem que se faça ouvir uma única voz de quem com eles trabalha. É obra de vampiros, não é, Zeca?
Humor à parte, a realidade afigura-se miseravelmente triste para os professores. Já não têm voz praticamente nenhuma no quotidiano escolar e estão a assistir à emersão de outras figuras que, no palco reivindicativo, comunicacional e político, lhes estão a usurpar o espaço e a dignidade. A comunicação social, qual arauto acéfalo e subserviente, acrescenta decibéis a esta decadente sequela. E é neste quadro de devastação que, paulatina e discretamente, se vai instalando a logística da municipalização. Para os professores (logo, para os alunos) não podia surgir em pior conjuntura. Por vezes, até chego a pensar que certos mimos só exibem determinados temas na praça do pelourinho para nos desviarem do que se passa na porta do cavalo.
O Estado jamais abrirá mão do controlo científico, axiológico e político da escola. A tendência e os sinais dados apontam precisamente para o inverso (a desconcentração funcional deixa a tutela política mais livre para outros controlos). Portanto, para os municípios (ou regiões) sobrará sempre, e só, a gestão dos recursos materiais e humanos (com um ou outro arbítrio pedagógico, para brincar). Numa primeira fase (sonsa) os recursos materiais assumir-se-ão como quase exclusivos e perpétuos. Os professores, cândida e obedientemente, acreditarão e deixarão comprar. Numa fase posterior, tão subtil e manhosa como a mamã, os professores serão paulatinamente adicionados ao carrinho de compras dos municípios. É isto que o rosto dos tempos e o modus operandi político nos permitem prever.
A escassíssima capacidade reivindicativa de uma classe afónica dissipar-se-á completamente. Se, no presente, já temos outros a opinar e a decidir por nós, então, quando esses dias chegarem… O que agora está concentrado praticamente num só interlocutor decisório (o Ministério da Educação) fragmentar-se-á, diluindo e silenciando a nossa já miserável capacidade reivindicativa. Com o tempo, cada caso será um caso particular de um determinado município, o que, inevitavelmente, conduzirá ao alheamento e à indiferença geral. Os professores sentir-se-ão cada vez mais isolados, mais compartimentados, mais indefesos, mais incapacitados de reagir coletivamente, enquanto corpo. Os próprios sindicatos terão muito mais dificuldades na sua ação. A precaridade e a subalternidade dos professores roçará a indigência.
Catastrofista? Quando, em 2008, fiz uma leitura desta índole, os meus colegas de escola riram-se na minha cara e chamaram-me pessimista. Todavia, a realidade trouxe-nos tudo mais cedo e pior do que eu previa. Nesse tempo vindouro, os professores saberão o que é pertencer ao QM (Quadro de Município).

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Toda a verdade sobre a minha decisão de mudar de escola


Resolvi publicar, na íntegra, a carta que escrevi aos meus colegas de escola para lhes relatar pormenorizadamente tudo o que acontecera na sequência das iniciativas por mim tomadas a propósito do já famigerado episódio do casal que invadiu uma sala, onde decorria uma aula de 5.º ano, para agredir barbaramente a professora. Como sabem, foram estes tristes acontecimentos que ergueram a minha vontade intransigente de mudar de escola.
O caso só tem interesse por ser revelador do domínio profissional, intelectual, cívico e pedagógico que muitos diretores exercem sobre os ex-colegas, mantendo o corpo docente debaixo de uma nuvem de medo, de intimidação e de castração das iniciativas e das liberdades individuais. Os professores, em muitas escolas (para não dizer na esmagadora maioria) estão subjugados às superiores vontades do chefe. Mas, tal como este episódio bem demonstra, têm muita culpa em toda a alienação reinante. E uma classe que assim se entrega, se rende e se demite, por muito que trabalhe, não sei se pode esperar ser respeitada, sobretudo porque não é uma classe profissional qualquer, é a classe que forma o futuro que queremos ser.
Nesta situação concreta, vivida na primeira pessoa, a diretora não gostou que os professores tivessem tomado uma iniciativa sem a consultarem primeiro (sem lhe pedirem autorização), e interpretou-a como um desafio à sua autoridade. Na verdade, o que eu fiz (às claras, diante de toda a gente) foi protegê-la, uma vez que, depois de tomar conhecimento da ação de protesto, apenas lhe competia informar os encarregados de educação de que os docentes, no quadro do seu direito e da sua liberdade, aceitando as consequências de tal ato, tinham decidido comparecer na escola no dia X, mas que não iriam cumprir o serviço letivo, como forma de protesto relativamente ao sucedido. A direção nem sequer tinha necessidade de dizer se aprovava ou reprovava tal iniciativa. Informava, para que a comunidade escolar pudesse tomar decisões. Mas o seu desgosto não se ficou por aqui: receou que tal ação trouxesse má fama à escola e (isto sou eu a supor) que a minha iniciativa, em ano eleitoral, tivesse outras motivações. Se o pensou, fê-lo indevidamente, pois tinha consigo a minha “carta de apresentação”, escrita há precisamente dois anos, na qual lhe disse, de forma clara e inequívoca, que jamais repetirei a experiência de dirigir uma escola.
AQUI ESTÁ, POIS, TODA A VERDADE SOBRE AS RAZÕES QUE ME “OBRIGARAM” A MUDAR DE ESCOLA.  
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Estimados colegas,
Face à missiva de que apenas ontem tomei conhecimento — quer da existência quer do teor — sinto-me obrigado a importunar-vos, uma vez mais, para que possais fazer um juízo correto relativamente ao que se tem passado, desde o dia 07 de dezembro. Sem o conhecimento cabal de tudo o que é relevante, não podereis julgar nem as minhas atitudes nem a expressão do meu rosto, nos dias decorridos entre a assinatura do abaixo-assinado e o dia de ontem.

CRONOLOGIA DOS ACONTECIMENTOS
1- Na quarta-feira, dia 07 de dezembro (dia da agressão à nossa colega), às quinze horas, quando chegava à escola, encontrei-me, no parque de estacionamento, com o nosso colega XXXXXXX XXXXX, Presidente do Conselho Geral, e com a sua esposa, também nossa colega. Em resposta a uma sugestão de comentário sobre os enfeites de Natal, apresentei a ambos a ideia da falta coletiva e do cancelamento das atividades natalícias. Ambos me manifestaram o seu acordo. O colega XXXXXXX XXXXX sugeriu mesmo que fosse eu a redigir o texto, e até me disse que nem precisava de ser eu o primeiro subscritor. A colega XXXXXXX XXXXX lembrou que o dia era propício para encetar essa ação, pois, dali a duas horas, haveria reunião de todos os grupos disciplinares.
2- Nesse mesmo dia, após o intervalo das dezassete horas, iniciei — de modo aberto, frontal e transparente — a divulgação da iniciativa. Numa das salas em que entrei, estava o senhor Presidente do Conselho Geral, em reunião de grupo disciplinar. No vasto conjunto de colegas com quem falei, apenas duas professoras contratadas me manifestaram a possibilidade de não aderirem à “greve de zelo”, por questões contratuais, dada a importância que pode ter um simples dia para efeitos de concurso. Apesar de não ter escondido de ninguém a possibilidade real de uma falta injustificada (menos provável, se a adesão fosse em massa), todos me deram alento para continuar e todos os grupos concordaram que fosse eu a redigir o documento.
3- No dia 08 de dezembro, feriado nacional, a Diretora da escola escreveu aos professores, para os pôr ao corrente das diligências que estava a tomar. Não recebi nem tive conhecimento deste e-mail. Ao fim da manhã, tal como havia prometido a todos os colegas, enviei a proposta de abaixo-assinado e aguardei, até ao fim do dia, sugestões de alteração/correção. Apenas recebi um e-mail da nossa colega XXXXXXX XXXXX, a dizer-me que, de acordo com o combinado, tinha enviado o documento a todos os coordenadores e à Diretora. Disse-lhe que fizera muito bem.
4- No dia 09 de dezembro, sexta-feira, já não sei se no final do turno da manhã, se no início do turno da tarde (tantos foram os colegas com quem falei), encontrei-me, casualmente, a sós, na sala de professores, com a colega XXXXXXX XXXXX, que me disse que não assinaria o documento, pois tinha sido sensível ao conteúdo da missiva que a Diretora, no dia anterior, tinha enviado a todos os professores. Fiquei estupefacto, não pelo livre posicionamento da colega, como é óbvio, mas por não ter recebido a mensagem. De imediato, constatei que essa lacuna não era pontual, que já se existia desde praticamente o início do ano letivo. Certamente, uma falha processual (que todos os seres humanos, involuntariamente, cometem). A colega prometeu averiguar a anomalia e corrigi-la imediatamente, caso a sua existência fosse confirmada.
5- Após o intervalo das quinze horas, desloquei-me à Direção para entregar o documento, que tinha sido assinado por 41 docentes, embora já com duas desistências (duas assinaturas rasuradas). Estavam, portanto, um dia após o envio da missiva da Senhora Diretora, 39 professores dispostos a concretizar o exposto no abaixo-assinado: comparecerem na escola, mas não cumprirem o serviço letivo. Como a Dr.ª XXXXXXX XXXXX não estava, entreguei o documento ao seu adjunto, o Dr. XXXXXXX XXXXX, que me recebeu de forma muito simpática e fraterna. Perguntou-me se estávamos conscientes da possibilidade de uma falta injustificada. Respondi-lhe afirmativamente e acrescentei que a Direção, se tal viesse a verificar-se, estaria apenas a cumprir a sua obrigação. Ninguém poderia ficar melindrado.
6- Às dezasseis e trinta, uma vez que a primeira versão do abaixo-assinado tinha sofrido algumas alterações (ainda que ligeiríssimas e apenas na forma, não no conteúdo), não coincidindo, por isso, com o documento efetivamente subscrito, enviei um novo PDF à colega XXXXXXX XXXXX, pedindo-lhe que o reenviasse, tal como fizera no dia anterior, a todos os coordenadores, para estes o fazerem chegar a todos os docentes. Disse-me que não o faria, que não participaria mais em tal processo e que o fizesse eu mesmo.
7- Pouco depois das seis e meia da tarde, ainda de sexta-feira (18. 42 h), a colega XXXXXXX XXXXX, cumprindo o prometido, reenviou-me os e-mails que a Dr.ª XXXXXXX XXXXX dirigira, no dia anterior, a todo o corpo docente e aos representantes dos encarregados de educação. Disse-me que o meu contacto tinha sido acrescentado ao grupo e que o problema estaria, em princípio, resolvido. Caso notasse alguma falha, que a contactasse.
8- Nesse mesmo dia, ao início do serão (21.25 h) a Diretora enviou novo e-mail aos professores. Apesar das diligências feitas, três horas antes, pela colega XXXXXXX XXXXX , não recebi essa missiva.
9- Durante o fim de semana (dias 10 e 11 de dezembro), recebi vários e-mails de professores que entenderam dever dar-me uma palavra sobre a sua desistência da ação. Todos afirmaram terem sido sensíveis às palavras que a Diretora dirigira ao corpo docente, especialmente às medidas que estava a tomar. Pensei sempre que se tratava do conteúdo do e-mail que a colega XXXXXXX XXXXX me reenviara, na sexta-feira, ao fim da tarde.
10- No sábado, tomei conhecimento, porque uma colega o mencionou no seu e-mail, de que também o Sr. Presidente do Conselho Geral havia escrito aos professores da nossa escola. Não a todos, uma vez que eu não recebi tal missiva. Admito que o tenha enviado apenas aos coordenadores ou que o meu endereço, por lapso, também não esteja no seu grupo de contactos.
11- No domingo, dia 11 de dezembro, resolvi pesquisar, pelas assinaturas, o endereço eletrónico institucional dos subscritores, e enviei-lhes o documento por eles assinado (como era meu dever). Limitei-me a explicar a razão pela qual lhes enviava a versão final do abaixo-assinado e a dizer-lhes que, no dia seguinte, estaria na escola para cumprir o que havia sido acordado.
12- Na segunda-feira, dia 12 de dezembro, cumpri escrupulosamente o que consta no abaixo-assinado. Apenas a colega XXXXXXX XXXXX me acompanhou no protesto, evitando, com a sua determinação, que eu ficasse absolutamente só. Não esquecerei jamais o gesto desta minha conterrânea.
13- Durante toda a semana, como um anjinho, a todos mostrei rosto sorridente, sem sombra de recriminação (nem exteriorizada nem sentida). Por certo, muitos me terão interpretado mal, julgando que eu não me tinha sentido absolutamente nada melindrado com o teor do segundo e-mail da Senhora Diretora, que, habilmente, falou do «derrubar de uma grande escola que tantos, durante tanto tempo e com tanto esforço conseguiram edificar»; que, habilmente, referiu a «alegria de quem procura o escândalo», que não deve ser «alimentada pelo prejuízo do bom nome XXXX XXXX».
Não, colegas, se eu tivesse tido conhecimento desta missiva, embora continuasse a não vos censurar, não vos teria oferecido um rosto tão jovial.
14- Só ontem, sexta-feira, dia 16 de dezembro, a meio da manhã, em conversa fortuita com uma colega, fiquei a saber que havia sido enviado um segundo e-mail. Genuinamente admirada pelo facto de eu não o ter recebido, prometeu enviar-mo durante a tarde. Foi o que fez, tendo também tido a generosidade de me enviar a missiva do Senhor Presidente do Conselho Geral. Li os dois textos enquanto fazia tudo para encontrar o carteiro que deixara, durante a manhã, um aviso para eu ir aos CTT levantar uma carta registada, enviada pela Escola EB 2/3 XXXX XXXXX. Era, soube depois, a notificação da minha falta (justamente) injustificada. Fiquei revoltado, não com a injustificação da falta, como é óbvio, mas com a literatura que, momentos antes, acabara de ler.
Sou um professor vulgaríssimo, um simples professor que, no quadro das suas limitações, faz diariamente o seu melhor. Não desempenho (nem quero desempenhar) nenhum cargo na escola, do mais modesto ao de maior responsabilidade. Não tenho, tanto quanto julgo saber, esse poder de derrubar o que, a muitos, demorou tantos anos a construir. Excetuando as minhas humanas incompetências, não vislumbro em mim tamanho poder deletério. Ainda assim, admito que a minha presença — pelo meu caráter, pela minha forma de estar e de ser, pela minha frontalidade, pela força das minhas convicções e pela intransigência dos meus princípios — possa perturbar o são e frutuoso equilíbrio em que a escola tem vivido. Por isso mesmo vos comunico que, após o próximo concurso interno de colocação de professores (que está para breve), deixarei a Escola XXXX XXXX.
Quando a notícia da minha saída for conhecida, repetir-se-á, uma vez mais, a cadeia difamatória injusta: antes mesmo de eu me apresentar na nova escola, já alguns dos meus futuros colegas julgarão conhecer-me, porque o mesmo tipo de gente que, num passado próximo, tratou de semear receios, preconceitos, distâncias, friezas e más vontades, vai continuar a estender-me a passadeira negra. Eu continuarei a ser o mesmo, aquele que vós (agora) conheceis: autêntico e solidário. Permanecerei discreto até ao dia em que uma crise se abater sobre alguém. Nessa altura, erguer-me-ei como um lobo e darei o corpo às balas. Depois, ficarei novamente só, e terei de beber, novamente, todos os cálices de fogo. E terei, uma vez mais, de ir embora, por se me tornar o chão insuportável. É este o fado dos homens como eu, mas também é este (não sei se feliz ou se infelizmente) o miolo que faz a textura de quem escreve ou sonha ser escritor.
Na verdade, foi em mim que os encarregados de educação vieram bater.
Com todo o meu respeito,
Luís Costa

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Gato malhado do ensino



Apesar de ser um tipo solidário, capaz de pôr os interesses do coletivo — das pessoas que amo, ou simplesmente de um/uma colega que, subitamente, precise de ajuda — acima dos meus, sinto-me muitas vezes como aquele gajo que um certo tipo de paternalismo define como má companhia. Já na minha juventude era assim.
Quando era mancebo, dado a namoricos (enfim, um trabalho árduo a que eu nunca virei a cara), os pais das moçoilas sempre me detestaram (não sei porquê). Como sempre fui bom aluno, pacato, cordato… só via explicação para tal atitude no relevante defeito de ser pobre, uma vez que de bonitezas/feiuras eles nada percebiam. Mas… o que é facto é que, invariavelmente, com uma unanimidade digna de uma boa ditadura, não iam com a minha cara. Como amigo da família, tudo bem, mas quando passava à condição de namorado da filha… Não sei que bicho lhes mordia! Ficavam possessos! Passei as passas do Algarve com alguns presunçosos pais de moças bonitas. Dois casos foram autênticas novelas que fizeram, durante anos, as delícias do antigo Facebook rural. 
Atualmente, em contexto radicalmente diferente (profissional), continuo a sentir-me aquele gajo que os papás e as mamãs das escolas veem como má companhia, já não por ser pobre (mau fora!), nem sequer de espírito, mas por ser má influência para o professorado acomodado e obediente. Ou porque alguém, direta ou indiretamente, lhes dá a entender que não sou visto com bons olhos ou porque as pessoas percebem que não lhes sairá a lotaria escolar, se forem vistas muitas vezes comigo, a verdade é que sou, para quase todos os efeitos, como uma autêntica doninha fedorenta. Com o tempo, sou eu mesmo que me afasto das pessoas, para não lhes arranjar problemas. Sei que ninguém ameaça ninguém com maus horários, com servicinhos impróprios para consumo, com turmas de elite, com más vontades e tolerância zero… mas estou convencido de que, no subconsciente da malta, esse bloqueio é ativado (e algo semelhante acontece na blogosfera, não tenho dúvidas).
Há, porém, uma diferença colossal entre as moçoilas do meu passado (que Deus as faça felizes!) e os moçoilos e moçoilas com quem trabalho no presente. As primeiras eram detentoras de uma visão muito diferente da dos papás (porque tinham caráter e bom gosto), e não se deixavam demover nem com ameaças de deserdação; os segundos… já nem sei muito bem o que pensam. A verdade é que, no dizer, vão concordando comigo, mas no fazer... é que são elas! Só fazem o que o papá  (ou a mamã) quer.  
Profissionalmente, já me convenci de que vou ficar encalhado ad eternum, até no escalão em que me encontro.  Sou uma espécie de gato malhado, ou melhor, de lobo malhado do ensino. Tal como no passado... que se lixe!

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Realidades adulteradas


1. Logo que António Costa voltou de férias e se reuniu com os chefes militares, o país ficou a saber que o furto de material bélico em Tancos não foi grave. A António Costa, sagaz que é, bastou pedir ao Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, ao Chefe do Estado-Maior do Exército, ao ministro da Defesa e ao ministro dos Negócios Estrangeiros, precipitados que foram, que lessem o duplicado da guia de transporte, deixado pelos ladrões na Porta d’Armas do aquartelamento de Tancos, para poderem concluir que tudo estava fora de prazo e nem para palitar dentes servia. Dir-se-á que António Costa substituiu a metáfora das vacas voadoras pela metáfora dos moluscos contorcionistas, isto é, o optimismo irritante pelo realismo conveniente. Um senão, que não é pequeno: para se redimir e tornar o roubo poucochinho, Costa rasteirou Marcelo. Marcelo, que nos disse que a coisa era grande antes de ele, Costa, tempestade passada, reaparecer para nos dizer que a coisa era pequena. Marcelo, que foi a Tancos quando ele, Costa, estava a banhos. Marcelo, que respondeu quando ele, Costa, desapareceu. Marcelo, que não é António José Seguro, como Costa sabe.
2. O Conselho Nacional de Educação selecionou 25 dos 713 agrupamentos escolares existentes para produzir um estudo que, em tese geral, deixa a ideia de que agrupar escolas foi uma boa política. Sob a epígrafe Organização escolar: os agrupamentos, a publicação que divulga o estudo tem aspectos curiosos. A dado passo, reduz as críticas feitas ao tamanho dos agrupamentos à condição de “mitos”, já que agrupamentos com mais de 3000 alunos apenas existem 26, número que, lê-se, significa 4% do universo em análise. Com este modo de colocar o problema, passa-se, via capciosa indução subliminar, a ideia de que são reluzentes todos os agrupamentos abaixo dos 3000 alunos. Sucede que são muitos os que pensam (e eu pertenço ao grupo) que arrebanhar sob a mesma direcção escolas fisicamente distantes, com alunos de faixas etárias dos quatro aos dezoito anos, tenham no conjunto mais ou menos que 3000 alunos, foi e é um crime pedagógico, usurpador da dimensão personalística que toda a escola e todo o ensino devem ter.
Outra curiosidade, para ser generoso no atributo, é que o estudo considera, como acabo de referir, que 4% dos agrupamentos tornam mitológica uma crítica. Mas valida-se a si próprio como estudo, quando assenta exactamente numa amostra de igual dimensão, isto é, 4%. Linhas acima, 4% é insuficiente. Linhas abaixo, 4% é suficiente.
Não permite o espaço alinhar argumentos, que já usei em artigos precedentes, nem invocar com detalhe acontecimentos que contradizem o que o estudo concluiu. Mas entendamo-nos e não adulteremos a realidade do dia-a-dia das escolas: os agrupamentos, e com eles o modelo de gestão unipessoal, foram e são instrumentos de centralização e controlo político, da responsabilidade do PS e do PSD. Aumentaram a indisciplina, promoveram a proletarização dos professores, afastaram tenebrosamente a pedagogia do arco da decisão que importa e ajudaram a pôr números onde deviam estar pessoas e simples estatística onde devia estar complexa avaliação educacional.
3. Terminados os exames nacionais, será que os seus resultados permitem extrair conclusões sobre o que o sistema de ensino acrescentou ou não ao conhecimento dos alunos? Dificilmente. Inclino-me para admitir que os avanços e recuos, estatisticamente invocados, se devem antes à variação do grau de dificuldade das respectivas provas. Tanto no 9.º como no 12.º ano, as pequenas oscilações verificadas não permitirão, sensatamente, ter leitura diferente. A propósito, será bom recordar que, há um par de anos, numa conferência em Coimbra, o próprio presidente do Conselho Científico do IAVE afirmou que o ministério “encomendava” o resultado dos exames com o intuito de manter a estabilidade de uns anos para os outros e que as equipas que concebem as provas conseguem produzi-las para as notas que queiram. A propósito, seria bom não esquecer que houve este ano fraude grave, escandalosamente inconsequente até agora.
In Público, 26/07/2017

Sonhos, visões e faisões



Continuo a pedir encarecidas desculpas pelos eventuais transtornos que estou a causar a quem já tinha investido num fato negro (os mais chegados), numa gravata de luto, numa coroa de flores, num epitáfio com sainete fúnebre, num requiem qualquer… Guardem para mais tarde, por favor, que eu (infelizmente) não vou ficar cá para semente.

O Justino vai deixar o CNE sem ver o seu sonho concretizado (o fim d'arre tenções). Mas, tal como Moisés, não fica muito longe da sua promised land, pois já estamos nos arrabaldes. O mesmo (embora um pouquito pior) acontecerá, dizem as tábuas, com o Lima, cujo sonho — anulativo com dois semestres — está agendado para o Dia de S. Nunca, depois do jantar e antes de ir para a cama.


Diz aquele que fala por todos os diretores — que tudo sabem sobre o que pensam e querem os professores — que com um longo semestre pela frente (e outro por trás, como é óbvio) os alunos têm mais tempo para recuperarem os atrasos evidenciados na primeira pauta. Non capisce niente! Então?!  Toda a gente sabe — a sociedade inteira, inteirinha — que os alunos recuperam de forma absolutamente incrível em apenas um mês e meio (ou dois, vá lá c’os diabos!). Basta comparar as notas do segundo período com as do terceiro. É cá cada milagre!!! Para quê, portanto, tornar tão fastidiosa a prodigiosa recuperação que os catraios conseguem fazer? Querem desmotivá-los, é?
Pois… tenho cá para mim (saber empírico, só de experiência feito) que os diretores são a grande mola impulsionadora do sucesso. Não vale a pele mexer em mais nada, basta mantê-los, que eles sabem bem como fazer as coisas. Aliás, a ideia dos dois semestres (embora peregrinamente extraterrestre) talvez seja motivada por essa árdua atividade milagreira. Espremer professores não é a pera doce que quase tolos imaginam! Dá muito trabalho e mais chatices ainda!

Eu só concordo com a ideia dos dois semestres, se for non stop, sem férias nem interrupções letivas. Vá lá… ainda aceito os fins de semana, para arrumar a casa e... sabe-se lá o quê!

terça-feira, 25 de julho de 2017

Resolvi não falecer



Ainda há no meu alforge alguns uivos por soltar, e quero soltá-los com rosto e com assinatura. Por outro lado, mantenho aquela sensação (megalómana talvez) de que, sem mim, esta coisa disforme a que sói chamar-se “luta dos professores” (não riam) fica demasiado mole, demasiado frouxa, sensaborona, nem carne nem peixe, nem preto nem branco… E também se dá a estranha coincidência de, na minha ausência (cacofonia voluntária) me acontecerem coisas terríveis, sucedendo algo muito similar à Escola Pública. É verdade (pelo menos a primeira parte)!
Quando desativei o Bravio, o servidor da minha escola começou a discriminar-me. Removeu-me do grupo que recebeu um e-mail muito importante da diretora, cujo objetivo era demover os professores de uma ação de solidário protesto que eu organizara. “Corrigido” o erro, eis que… nesse mesmo dia, horas depois, o raio do servidor voltou a ignorar-me, não me enviando outro e-mail dirigido a todos os que tinham subscrito o abaixo-assinado e no qual eu era visado, ainda que de forma subtil (aconteceu o mesmo com idêntica missiva enviada pelo presidente do conselho geral). Na passada sexta-feira (a mais de um mês do fim do vínculo), precisamente no dia em que me apresentei na escola onde fui colocado, o raio do servidor decidiu (assim, sem mais nem menos), desativar a minha conta de correio institucional. Perdi tudo o que lá tinha, e também fiquei impossibilitado de enviar aos meus colegas, de forma digna, alguns documentos importantes. Tive de andar a pesquisar no meu telemóvel e a pedir favores. Será que o servidor soube que eu fora bem recebido e que me sentira em casa? Será que teve ciúmes? Admito, mas escusava de escacar a louça toda, porra!
A nível nacional... quase a mesma coisa. Alguns bloggers (pegando em bandeiras que me são caras) desataram a falar do medo dos professores e do modo como são facilmente levados, enganados… O que é estranho, muito estranho, é falarem do medo a medo. Assim não se vai a lado nenhum. É preciso determinação, clareza, afirmação, posicionamento inequívoco, caros colegas: “Sou a favor disto!”; “Sou contra aquilo!”… Tibieza e bipolaridade a mais e ousadia e risco a menos. É por isso, só por isso, que outras classes profissionais vão ganhando e nós somos comidos, papados e gozados. Somos a vaca mansa do regime. Aos desistentes que estão nas escolas (a vastíssima maioria) dirigem-se as palavras hesitantes de quem prega. Ninguém liga aos professores, ninguém lhes pede opinião, nem mesmo em assuntos intimamente relacionados com a prática didática. Porquê? Porque no nosso lugar, dentro de nós, já não mora ninguém! Desistimos de ser quem somos para sermos quem os interesses instalados querem que sejamos. É lógico que não nos ouçam nem nos respeitem.
Como se isto não bastasse, certas figuras (negras, digo eu) voltaram à seara. É o caso óbvio do pai dos diretores, novamente acolitado pelos pais dos pais. Quer o ano letivo dividido em dois semestres. Ah ah ah! Enfim, é a visão administrativa, meramente administrativa, pauperrimamente administrativa… própria de quem está de fora. Não admira, pois, que outros forasteiros o apoiem (refiro-me a todos os que não trabalham dentro daquele cubinho mágico). O Lima está tão vidrado nesta nefasta fantasia, que até se esqueceu de que, ainda há dias, propôs ao Ministério do século XXI que não inventasse e que acabasse com os experimentalismos. Só ele é que pode. Mal por mal, prefiro que seja o Ministério a inventar!!! Os seus francoatiradores não têm a pontaria nada afinada.
Enfim, caros colegas (e não só), vim para apresentar reclamação por certas exéquias do meu suposto funeral.  As notícias da minha morte eram manifestamente exageradas.

Algo está para acontecer no ERAMÁ




Logo, começo a explicar. 
Não trarei a paz na bainha!

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Carta aberta aos meus alunos do 7.º F



Estimados alunos,
Tal como previa (e como era meu desejo), deixarei de ser professor do quadro da André Soares no final de agosto. Sobre os motivos, não direi nem mais uma palavra, pois estou certo de que os conheceis. Tenho também a convicção de que sabeis que, numa situação de normalidade, jamais vos deixaria “a meio” do caminho (se não fosse esse o vosso desejo) e que tudo faria para vos levar ao melhor porto. Mas… enfim, a vida é assim mesmo: tem circunstâncias que são superiores à nossa vontade e princípios que, depois de adotados e entronizados, reinam em nós, fortalecendo o nosso caráter. Têm, por vezes, um custo elevado, mas são sempre dignificantes e honrosamente diferenciadores.
Sabeis que, por vós, levo o coração (re)partido, pois sois, de mim, a parte que fica. Ainda hesitei, em tempo útil, mas… para além de um eventual recuo me fazer perder o crédito da palavra dada e publicamente afirmada, seria um ato de pretensioso egoísmo: como se admitisse que, sem mim, os vossos amanhãs tivessem de ser escuros. Grande tolice! Na verdade, depois de mim, virá (de certeza) alguém mais competente do que eu, talvez mais jovem do que eu, que saberá cativar-vos e ensinar-vos melhor do que eu. Essa é — dou-vos a minha palavra de honra — a parte que me deixa mais tranquilo. A parte restante, como facilmente depreendereis, é coisa minha: da minha saudade, do afeto, da consciência profissional…
Mas… falemos de coisas mais “substantivas”(em jeito de balanço): o que levo e o que espero ter deixado.
Levo comigo um extraordinário grupo de alunos num tesouro de memórias: a vossa educação, os vossos olhares limpos e transparentes; a vossa entrega, a constante vontade de superação, de fazer sempre melhor, de alcançar os melhores resultados; a vossa necessidade (tão estimulante!) de querer saber os porquês de tudo; as aulas de apresentação dos trabalhos (quase sempre acima das expectativas); a aula em que apareci trajado de palhaço e que acabou por decorrer com “toda” a normalidade, graças ao vosso respeito; o final de aula em que “vesti” a pele de escritor; a derradeira aula, de dramatização (que só aconteceu porque vós fizestes mesmo questão); as aulas de sexta-feira à tarde (“fora da caixa”) e a excelente disposição que aí reinava, apesar do tema ser a gramática; as vossas auras flamejantes, no dia em que me informastes que uma professora tinha acabado de ser barbaramente agredida… Tantas lembranças!
Aprendi muito convosco, fiz muitos materiais pedagógicos para poder corresponder ao vosso estímulo… tornei-me melhor professor. E diverti-me muito na vossa companhia. Alguns momentos de irritação? Talvez — um aqui, outro ali — mas, como a minha capacidade de retenção de recordações já não dá para tudo, vou guardando o melhor (que ocupa imenso espaço).
Quanto ao que espero ter deixado, os conhecimentos ocupam o derradeiro lugar. Não faltará quem vos ensine melhor do que eu. Convosco, é fácil lecionar. Por isso, espero merecer um lugar digno na vossa memória pelo exemplo dos meus atos: pela pontualidade, pela assiduidade, pela entrega à profissão, pela disponibilidade total para os alunos, pelo rigor na preparação das aulas, pela humildade, pelo afeto, pela solidariedade incondicional (quando foi necessário), pela verticalidade, pela integridade… Se deixei pelo menos uma destas sementes em cada um de vós, então… sou um professor realizado. Deixei o melhor que o ensino tem. O resto… está nos manuais.
Quanto ao próximo ano letivo, não preciso de vos dizer absolutamente nada, pois sei que continuareis a dar o vosso melhor, que é efetivamente excelente.
Termino com o obrigatório pedido de desculpas, por divergir do trilho com a peregrinação em curso. Não é bom mudar frequentemente de professor. Todavia, estou convicto de que sabereis compreender e aceitar as minhas razões.
Até sempre, inesquecíveis alunos!
Professor Luís Costa

PS – Esta missava será o último artigo do meu blogue — Eramá — de cuja existência (doravante efémera) só hoje vos dou conhecimento.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Primeira despedida



Cumprindo o que aqui disse há dias, em linha reta, o encerramento do Eramá (e tudo o que ele representa) está agendado para muito breve. Amanhã publicarei o meu último escrito — dedicado aos meus alunos do 7.º F (os restantes eram de 9.º) — de quem vou ter muitas saudades. Quero que sejam para eles as últimas palpitações deste meu estandarte de palavras, que ficarão por aqui a serenar durante três dias, até as tochas se extinguirem. Faço questão que sejam eles os primeiros a lê-las.
Para ti, leitor, é com agradecimento que visto esta despedida. Foi um prazer saber que te desassosseguei, que te acicatei, que te alertei, que te fiz pensar… e que te fiz rir também (e é tão poderoso o riso!). Não será fácil esta ausência, porque tenho de manter uma luta diária contra os meus genes, que me pedem constantemente o contrário da acomodação. Mas… enfim, é uma peleja que trará um pouco mais de paz ao mundo.  
Até sempre!

domingo, 16 de julho de 2017

Dias de fervorosa fé


Estamos nas vésperas da Roda da Sorte para os docentes (andará amanhã ou na terça-feira, segundo dizem os adivinhos acreditados). Portanto, hoje é dia religioso para muita gente.
Enquanto a quase totalidade dos opositores ao concurso está a rezar ao seu santo de eleição para ficar na Escola A ou na escola B, ou não muito longe de casa ou…  no território nacional, os meus opositores (todos docentes) estão divididos, mas convergentes na sua fé, e rezam por mim (não preciso, portanto, de rezar nem de maçar santos que não tenho). Serão (julgo eu) tantos os que rezam para que eu me “amande” dali para fora como aqueles que rezam para que eu não vá parar ao seu quieto paraíso:”Avé Maria, cheia de graça, levai este senhor convosco…!”; “Pai Nosso, que estais no Céu, sacrificado seja este nome… não venha a voz ao nosso reino…”. Vamos lá ver quem tem o santo mais poderoso. Espero, contudo, que não vençam os poucos que rezam à Comadre Morte e ao Mafarrico (os que me odeiam e os que me amam excessivamente)!
Perceberam agora, confortáveis apreciadores dos meus ditos, por que motivo vou ali e já venho? Acabou-se o prazer de estar a comer uvas doces e frescas, enquanto o miserável gladiador, estupidamente, rebola por nós no tórrido círculo da arena! 

sábado, 15 de julho de 2017

Subitamente


Subitamente, percebemos que as palavras acabadas de dizer eram as últimas. Todas as outras — as que esperavam nas intenções e nas promessas —, apesar dos viçosos estames que traziam, eram absolutamente supérfluas, infecundas e inúteis, porque estão… ou fechados… ou secos... ou pútridos os gineceus.
Subitamente, percebemos que é ao silêncio que devemos entregar todas as palavras por dizer; que é no seu ventre imaculado, nos seus leitos de negrura e solidão, que a eloquência germinará até se fazer pura luz. Afinal, basta contemplar o céu em noite escura e limpa para percebermos que todo o universo é assim.
Subitamente… fica um vazio prematuro, porque as palavras por dizer se ausentaram, por terem percebido, subitamente, que eram a derradeira esperança da razão. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Goodbye, Luís Costa!


A decisão está tomada: vou mudar de vida!
Uma década de luta, demasiadas bofetadas, demasiados pontapés, demasiadas mordidelas daqueles a quem quis dar a mão, demasiadas parcialidades, demasiadas perseguições… cuspidelas, escarradelas e algumas facadas no lado esquerdo das costas, com perfuração profunda. Só não me desgrenham os cabelos porque… não é possível. Para quê? Sim, já parti e regressei muitas vezes (e poucos acreditarão que tal não volte a acontecer), mas… um dia…  
Sei que há bloggers da Educação muito mais úteis ao professorado do que eu, mas poucos poderão dizer que são mais ousados, que combatem mais o medo, que encaram o monstro tão de frente. Não são tão quixotescos nem tão estúpidos! É por isso que sofro muito mais retaliações, granjeio muito mais inimizades, muito mais incompatibilidades… É por isso que me estou a transformar num nómada, enquanto outros, muito mais politicamente corretos, conseguem viver um quotidiano muito mais confortável e cordato.
O que mais me dói — bem lá nas profundezas da alma — são as dentadas daqueles por quem mais me dei, por quem mais me expus, por quem saí do meu castelo seguro e confortável, arriscando tudo, sem necessidade absolutamente nenhuma, sem interesse absolutamente nenhum, sem nenhum desejo de protagonismo, sem nenhum calculismo… apenas por solidariedade, apenas pelo sentido de justiça… por puro amor à classe, ao ensino, a uma das mais nobres missões do Estado. E como dou a cara e atuo só, absolutamente só — lá vem a metáfora do lobo solitário — sou um alvo muito fácil. Ostentar medalhas de parcialidade contra mim, impertinência contra mim, de maldade contra mim, de ostracismo contra mim… dá pontos na caderneta de certas simpatias, atrai certas sinergias e talvez algum bónus.
Se o concurso interno responder favoravelmente à minha (contraditória) vontade de sair da escola onde leciono, aproveitarei, de imediato, essa nau para me fazer a esse “prometido” mar pacífico (uma espécie de Ano Novo, nada mais). Vou às catacumbas, arrumo a armadura e penduro a espada. Se tal não acontecer, ainda haverá 0,1% de possibilidades de continuar por aqui mais um mês e pico (só por não haver premência).
Em qualquer caso, jamais deixarei de ser quem sou, embora deixe, em parte, de ser como sou. Serei a mesmíssima pessoa, mas não me levantarei para dar o peito por ninguém. Até aqui, cansei-me muitas vezes (o que abre a porta a um eventual regresso, após o descanso), mas agora estou efetivamente morto para altruísmos suicidas. No entanto, aqui fica uma certeza (importantíssima): jamais erguerei um dedo contra os meus colegas, nem mesmo contra aqueles que me mordem quando os beijo. É também isso que quero dizer quando digo que não deixarei de ser quem sou.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Verdadeiros contratos de autonomia


Os experimentalismos, os modernismos, os vanguardismos, os “finlandismos” e muitos outros “ismos” são tantos e surgem com uma frequência tão frenética e tão vertiginosa (alucinante, mesmo), que já se justifica a existência de uma reserva pedagógica, para salvaguardar determinados métodos, determinadas experiências, determinadas exigências, determinadas posturas, determinados estilos, determinadas verticalidades, que estão em seríssimo risco de extinção. É que… se a coisa der para o torto (na vida real), convém ter alguns espécimes em viveiro.
Em conformidade com o conteúdo do primeiro parágrafo, vou fazer uma proposta revolucionária a… quem de direito. Aproveitando uma figura que já existe, que é muito cool e está na moda — os contratos de autonomia —, proponho o alargamento deste conceito às escolas que queiram continuar a exigir respeito pelos espaços e pelas pessoas, a só passar quem realmente está preparado, a salvaguardar a autonomia pedagógica dos professores, a levar a sério as faltas de presença e as faltas disciplinares, a votar mais para eleger representantes e menos para alterar notas… Enfim, se é de autonomia que se trata, respeitemos também o próprio conceito. Não acredito em autonomias condicionadas a um catálogo de uma só cor e duas ou três nuances. Seria uma espécie de projeto-piloto ao contrário, mas com idêntico sentido revolucionário.