segunda-feira, 27 de março de 2017

O último dia de aulas em lilipute

Recupero mais uma aventura da trilogia de lilipute, um clássico do Dardomeu, o meu primeiro blogue (2008). Apesar de não ter atualidade absolutamente nenhuma (vejam só como eu delirava!) decidi republicá-lo. Nem sei lá muito bem porquê! Enfim!

Como já sabemos, em lilipute tudo é minúsculo, sobretudo as pessoas. Aí, faz-se o culto de tudo o que é pequenez e baixeza, tal como em qualquer outro lugar se pugna pelos valores relacionados com grandeza e elevação. Pode dizer-se que lilipute é uma espécie de Portugal dos Pequenitos em miniatura, mas genuína e belamente atrofiado. Na escola, onde tudo é escrito em minúsculas, venera-se o dogma “tudo o que não é pequeno não é perfeito”, idolatra-se as figuras dos sete anões, cujo busto está minuciosamente esculpido nas rochas de uma pequena cordilheira, e proíbe-se a leitura das Viagens de Gulliver, de Pantagruel e outros livros que façam a apologia do “grotesco”, ou seja, tudo o que não é baixo nem pequeno.
O último dia de aulas em lilipute é uma animação, um verdadeiro exemplo de participação comunitária nas atividades escolares. Logo pela manhãzinha, pais e alunos, desportivamente trajados em tons de rosa e azul-marinho às riscas, vão chegando para o pequeno dia. À entrada, são recebidos pelo presidente da sua associação, que, do baixo da varanda, lhes dá as boas-vindas, com uma dedicatória especial aos muitos que visitam a escola pela primeira vez, para se sentirem integrados. Depois, em jeito de romagem, são conduzidos pelo guia até às salas de aula, com ar satânico estampado no rosto, para… avaliarem os setores, uma casta específica de liliputianos condenados ao ensino, devido a delitos relacionados com a defesa e transmissão de valores absolutamente condenáveis; uma corja de estropícios preguiçosos e incompetentes que não sabem fazer mais nada e que o estado tem de alimentar, apesar da sua reconhecida inutilidade. Mas, no último dia de aulas, purgam os corações dos liliputianos, contribuindo para a catarse coletiva e individual, numa espécie de Entrudo pedagógico-social. Por isso, e só por isso, lhes é perdoado o que recebem imerecidamente: fabulosas migalhas. Perdoa-se-lhes o mal que fazem pelo bem que sabem.
Mas… façamos silêncio, que a saga está mesmo a começar!
— Senhores e senhoras, como a maior parte de vocêses não conheceis os senhores setores, aqui o colega d’associação bai fazer-les um apanhado dos maiores defeitos e d’algumas colidades de todos.
— Ó home, ande lá co'isso, qu’eu tenho um andaime pra montar!
— E eu tenho uma obra em balofoscu c’o estuque a puxar!
— E eu inda tenho qu’ir buscar o meu chico à ofecina pra irmos ca relote das bifanas pá festa de roskiput.
— Bom, mas compreendem qu’isto tem que ser feito com pondração, pois está em causa o feturo dos filhos de lilipute!
— O qu’é isso do pão da são ou lá o que é?
— Ó amigo, em putmática é um setor ou uma setora?
— Olhe, é aquela gaija do fiat azul. Eh pá, ela correu metade dos putos a negas!
— Do iate azul? Correu a canalha a negas? Atão toma lá que já bebes!
— A minha cachopa diz muito mal do de liliputês. É ijigente qu’até chateia... antipático com’ó… e chumbou a filha do surreira!
— Atão bamos açapar-le p’ra baixo, qu’é p’aprender.
— Toma la nega, seu…!
Após a avaliação, subordinada ao lema “avaliar é diminuir”, os docentes são divididos em três grupos e dá-se início às atividades de encerramento do ano letivo, no pavilhão gimnodesportivo da escola, em verdadeiro clima de euforia e histeria coletiva. Os setores com negativa participam numa corrida de 200 metros à volta do recinto, carregando encarregados de educação às costas. Após várias eliminatórias e muita chibatada, apenas os três primeiros são dispensados das provas seguintes, recolhendo à biblioteca, onde iniciam, imediatamente, a planificação do próximo ano letivo, sem direito a férias. Segue-se a prova dos “sofríveis”, na qual participam os que obtiveram notas medianas e também os não qualificados na prova anterior. Estes, depois de serem colocados de cócoras e de se lhes pintar um alvo branco nas calças ou na saia, bem no centro do traseiro, são sujeitos a um kit de resistência: bombardeamento de tomates — muito abundantes nessa época do ano — chuva de farinha de milho e ovada, que é uma revoada de ovos de pato semelhante às séries de foguetes no fecho das romarias. Apenas os três mais resistentes têm direito a férias, se não tiverem sido repescados, pois, nesse caso, são também recambiados para a biblioteca. Os restantes, considerados física e pedagogicamente inaptos, darão apoio nos corredores e na cantina durante um ano letivo seguinte. Os professores bem classificados podem sentar-se nas bancadas, ao lado dos encarregados de educação, ou optar pela participação nas provas lúdicas, espicaçando os colegas e atirando ao alvo. 
São manhãs hilariantes e bem passadas, que terminam com um bom repasto no recinto exterior, porque nunca há lugar na cantina para tantos convivas. São autênticas bodas dionisíacas decoradas pelos professores de educação visual, abrilhantadas pelas acrobacias dos setores de educação física, embaladas pelos ritmos tropicais dos profes de música, — grupos disciplinares incólumes —, condimentadas pelas passarelas barrocas dos mestres de história e geografia de Lilipute, por uma excelsa declamação de poesia, com o cunho dos docentes de liliputês, sobretudo estrofes dos liliputíadas — uma comédia burlesca que satiriza todo o mundo exógeno — e minúsculas notas de rodapé, o género literário de maior erudição, apenas ao alcance dos realmente pequenos. Nas fartas mesas, nunca falta o vinho tinto de casta rasteira, o cabritinho assado e o presunto, com o especial patrocínio dos setores de putmática, que empenham nesse marketing todo o seu subsídio de férias. E, nessa amena e saudável convivência, vive-se um autêntico e vernáculo dia de apoteose pedagógica, numa escola de sucesso eminentemente inclusiva.
É nestas pequenas coisas que emergem os grandes líderes e os regimes superiores. É assim que nascem as sociedades evoluídas, as que não têm abandono nem insucesso escolar, as que dão novos mundos ao mundo. É destes pequenos nadas que crescem os grandes homens da mais genuína estatura liliputiana. É com esta argúcia que se abre o ensino à participação comunitária e se constrói uma escola de excelência numa ilha de excelência. É assim que, sob a aparente pequenez dos fenómenos, lilipute revela uma essência paradoxalmente profunda, onde tudo minusculamente se agiganta.

domingo, 26 de março de 2017

Abaixo-assassinado II



Alguns pontos prévios: não foi a professora agredida pela encarregada de educação que acompanhou o promotor da ação na “greve de zelo”; essa docente retomou o serviço após o feriado e pediu que a iniciativa não fosse concretizada; a diretora sabe, por escrito, desde que o professor foi colocado na escola, que ele jamais desempenhará cargos de direção; na sequência do que vai ser contado, o “instigador” decidiu inscrever-se no próximo concurso de mobilidade interna.
Não há heróis nem cobardes nesta história, apenas pessoas comuns, professores de uma escola — uns macerados pela resistência, outros massacrados pela obediência —, com virtudes e fraquezas, como seres humanos que são. A narrativa só tem interesse porque é paradigmática, representativa das lideranças e do estado de espírito reinante nas nossas escolas. Poderia ter ocorrido em qualquer escola pública do país.
Na sexta-feira, dia 9 de dezembro, no turno da tarde, já quase na hora de entregar o abaixo-assinado na direção, o professor “agitador” soube que a diretora enviara, na véspera, um e-mail a todos os docentes. A surpresa foi enorme, pois nada recebera. Todavia, o problema foi imediatamente identificado — falha na constituição do grupo do Gmail — e resolvido. Pouco tempo depois, o endereço foi readicionado ao grupo e a missiva chegou ao destinatário. Nela se expressava pesar pelo sucedido e se prometia tomar medidas para, na medida do possível, impedir tais ocorrências no futuro. Correto! No entanto, apesar da informação veiculada e das múltiplas ações de sensibilização concretizadas ao longo desse dia, por diversos protagonistas, docentes e não docentes, trinta e nove professores tinham assinado o documento, prometendo levar a cabo a jornada de indignação.
Durante o fim de semana, sem espanto, as desistências começaram a cair, uma a uma, na caixa de correio eletrónico. Embora nem todos os desistentes o tenham feito, os que o fizeram (por respeito a quem liderou o processo) diziam terem sido sensíveis aos argumentos da diretora, tendo alguns remetido também para as palavras do presidente do conselho geral, o que não era muito compreensível, uma vez que após a leitura do referido e-mail, enviado durante o feriado de 8 de dezembro, todos tinham reafirmado, por escrito, a sua posição inicial.
Já a semana seguinte quase morria quando o promotor da ação soube, de modo absolutamente fortuito, que outro e-mail havia sido enviado a todos os signatários, na sexta-feira, depois da entrega do documento na direção. Estranhamente — muito estranhamente — voltara a ficar de fora. Soube ainda que o presidente do conselho geral (a primeira a pessoa a quem a ideia fora apresentada, tendo manifestado apoio imediato e sugerido ao docente a redação do abaixo-assinado), arrependido, também tinha levado a cabo semelhante iniciativa.
Mais tarde, em casa, ávido de conhecer os decisivos argumentos que tinham conseguido demover tantas e tão boas almas, abriu a milagrosa missiva, que uma alma caridosa lhe reenviara. Falava, entre outras coisas, da alegria de quem procurava o escândalo, que poderia ser alimentada à custa do bom nome da escola; falava ainda do derrubar de uma instituição que muitos, durante muito tempo e com muito esforço, tinham conseguido edificar; falava… enfim dos evidentes e desastrosos malefícios daquela ação aparentemente inofensiva e solidária.
No peito do atónito leitor, subitamente, todas as estrelas se extinguiam, todas as pontes ruíam, todo aquele mundo se fazia noite, noite de solidão e de silêncio pesado e frio. Era o átrio do seu fim naquele lugar, que já considerava seu. Na verdade, o seu incerto futuro — talvez o seu eterno retorno — (re)começava fatalmente ali, naquele instante deleteriamente revelador. E o travo de dor não vinha apenas do miolo das palavras lidas, vinha sobretudo do acolhimento que elas tinham merecido no peito e no intelecto de tanta gente. Afinal, não tinham sido sensíveis ao pesar nem às medidas primeiramente anunciadas, mas… ao conteúdo da segunda comunicação, que lhes fizera compreender o mal que, involuntariamente, talvez ingenuamente, estavam a causar à escola. E esse mal tinha um progenitor, um progenitor que, tacitamente, consciente ou inconscientemente, todos tinham reconhecido.
É perfeitamente suportável o fel de certas frases, sobretudo quando são fatos que não nos servem. Já o mesmo não acontece quando um coletivo, de forma tão silenciosamente eloquente, se expressa. A escola ver-se-á livre de um lobo. Talvez o misericordioso Destino se junte à causa da paz no mundo e lhe envie uma pacífica ovelha.
Termina assim a longa carta que escreveu, nesse mesmo dia, aos colegas:
«Quando a notícia da minha saída for conhecida, repetir-se-á, uma vez mais, a cadeia difamatória injusta: antes mesmo de eu me apresentar na nova escola, já alguns dos meus futuros colegas julgarão conhecer-me, porque o mesmo tipo de gente que, num passado próximo, tratou de semear receios, preconceitos, distâncias, friezas e más vontades, vai continuar a estender-me a passadeira negra. Eu continuarei a ser o mesmo, aquele que vós (agora) conheceis. Permanecerei discreto até ao dia em que uma crise se abater sobre alguém. Nessa altura, erguer-me-ei como um lobo e darei o corpo às balas. Depois, ficarei novamente só, e terei de beber, novamente, todos os cálices de fogo. E terei, uma vez mais, de ir embora, por se me tornar o chão insuportável. É este o fado dos homens como eu, mas também é este (não sei se feliz ou se infelizmente) o miolo que faz a textura de quem escreve ou sonha ser escritor.
Na verdade, foi em mim que os encarregados de educação vieram bater.»

quarta-feira, 22 de março de 2017

Trutas, binho berde...

... e uma banana bem repimpada!

Os desaires do Ministério da Educação - Santana Castilho


1. As alterações que o sistema de ensino sofreu nos últimos anos oscilaram entre concepções anglo-saxónicas, de raiz empirista, e ideias construtivistas, de inspiração piagetiana. Estas, hipervalorizando as chamadas ciências da educação. Aquelas, hipervalorizando o conhecimento. O equilíbrio entre estes dois extremos não foi a escolha do secretário de Estado João Costa.
Ao Expresso, João Costa foi claro quando afirmou que nalgumas áreas era impossível trabalhar, por falta de horas disponíveis. E disse que a Educação Física, a História e a Geografia eram disciplinas “descalças” de tempo. Quando lhe perguntaram se Português e Matemática perderiam horas, João Costa respondeu que “algumas terão de perder, claro”. Em declarações ao Correio da Manhã, reafirmou a necessidade de tirar de um lado para pôr no outro. Nem de outro modo poderia ser para permitir, como anunciou, que as escolas decidissem 25% do currículo e nele se incluísse a Área de Projecto e a Educação para a Cidadania, sem aumentar a carga semanal global. Do mesmo passo, repetiu várias vezes que as alterações curriculares se aplicariam já no próximo ano e em todas as escolas.
Agora, António Costa, com receio das repercussões que a leviandade provocasse nas eleições autárquicas, e Marcelo, com o paternalismo que o Governo aceita, meteram o secretário de Estado na ordem e desenharam a retirada: não há cortes e a coisa circunscreve-se a 50 escolas voluntárias. A falta de confiança no Ministério da Educação ficou patente. Repetiu-se o calduço do pai Marcelo que, no ano-lectivo passado, levou os garotos da 5 de Outubro a recuarem em matéria de avaliação no ensino básico. Numa palavra, escreveu-se direito por linhas tortas.
A reforma em causa era apressada e demasiado marcada por uma determinada ideologia. Orquestrou o apoio dos amigos (vide a cena amadora do apoio a João Costa, via uma sua adjunta, exposta no Correio da Manhã), mas não cuidou do apoio dos professores e da sociedade, muito menos de prever o impacto que teria na complexidade de todo o sistema de ensino.
A responsabilidade da ética política em que uma reforma educacional deve assentar exige que se procure um consenso partidário. As mudanças desta envergadura devem ter uma duração garantida para produzirem efeitos, devem acomodar processos de transição ponderada e prever uma campanha de comunicação pública, que explique razões (fundamentadas em diagnósticos sólidos, que não em palpites de ministros que foram aos jogos olímpicos), necessidades (assentes em evidências) e objectivos (expressos em linguagem perceptível, que não em “eduquês” de má memória).
2. O novo normativo sobre concursos retoma, com um pouco de cosmética, a visão do anterior governo do PSD/CDS-PP. A entrada nos quadros continua condicionada pela “norma-travão” e pela chamada vinculação “extraordinária”, que não pelo direito conferido por sucessivas contratações. Recorde-se, a propósito, que o PS votou recentemente, ao lado do PSD e CDS-PP, a inviabilização de um projecto de lei do PCP, que previa a obrigatoriedade de incluir em concurso nacional, por lista graduada universal, todos os lugares, com horário completo, que resultassem de necessidades manifestadas pelas escolas durante três anos consecutivos.
No próximo concurso de mobilidade interna teremos professores do quadro de primeira e professores do quadro de segunda. Mais uma vez, a lista universal de graduação é desprezada, agora por um processo de intenções que interpreta, e penaliza, de forma totalitária, decisões anteriores de permanência em quadros de zona pedagógica. Por tudo isto, resulta de um cinismo atroz o “parlapiê” do preâmbulo do Decreto-Lei nº 28/2017, que, significativamente, não colhe a aprovação de nenhum sindicato de professores. Como o anterior, nesta matéria, o Governo encarou a negociação sindical como mero formalismo legal e ficou claro que, quando as incidências orçamentais relevam, as suas prioridades não se afastam do que Crato serviu.
in Público, 22/03/2017

terça-feira, 21 de março de 2017

Vórtice reformista



Quando, ao acordar, esta manhã, ouvi as notícias na rádio (sobre o elevado número de reformas educativas), num primeiro impulso, decidi não passar para o computador as ideias que, sobre este assunto, alinhavei ontem à noite. Iria parecer que me estava a pendurar em terceiros, coisa que não faz parte dos meus genes.
Agora, contudo, já com algumas horas de permeio, livre dos preconceitos matinais, resolvi avançar com que tinha a dizer. Faço-o também porque tenho provas de que já ontem estava a preparar este post. Se verificarem as propriedades da imagem (está na moda), constatarão que assim foi, a pensar na tarde de hoje. Vamos, pois, ao que interessa.
A Escola está cansada de reformas. Tal como um corpo sujeito a constantes intervenções cirúrgicas, a tanto abrir e fechar, a tanto cortar e coser, a Escola está saturada, exaurida, intolerante. O mais provável é que esta paranoia reformista, esta ilusão de todos quererem descobrir o graal da educação, produza a indiferença coletiva, a inércia, a resistência à mudança. Parem, por favor! PAREM!!! Parem e pensem! Deem-nos paz, deem-nos tempo, deixem-nos esgotar as reformas, tirar delas (boas ou menos boas) todo o tutano, todas as lições, todas as experiências (as boas e as más, pois também com estas aprendemos muito).
Há algo muito simples que os nossos governantes ainda não entenderam (ou não querem entender). Seja qual for o currículo, sejam quais forem os programas, é preciso TEMPO para produzirem os melhores resultados. Tempo para quê? Para os professores conhecerem e compreenderem profundamente os caminhos e os destinos, para criarem as suas rotinas, para produzirem e otimizarem os seus recursos pedagógicos, para implementarem, avaliarem, reformularem, reimplementarem e reavaliarem as práticas… pois só assim se testa e se rentabiliza verdadeiramente um projeto educativo e curricular. Contudo, o que acontece é precisa e revoltantemente o contrário: a Escola é virada do avesso ao ritmo das legislaturas. Quando os docentes podem, finalmente,  tirar verdadeiro partido das experiências realizadas… tudo muda! Tudo muda, como se fosse um castigo, um castigo como o de Sísifo.
Nenhuma reforma educativa devia durar menos do que uma década. Por muito que o mundo mude, não há necessidade de fazer tantas, tão profundas e tão frequentes alterações. Pelo contrário, são muito mais profícuas a serenidade, a estabilidade, a sábia experiência resultante das práticas consolidadas… A PAZ. O que não impede que pequenos ajustamentos, pontuais, possam ser feitos. Pequenos ajustamentos, não arrastões reformistas.
Mas isto só acontece porque aqueles que não estão diariamente nas escolas nem as conhecem verdadeiramente (políticos e certos ideólogos supraescolares) são os iluminados mentores das reformas educativas: todos acham que têm a tábua dos mandamentos educativos, acham que sabem mais do que os professores (reduzidos, por eles, à mísera condição de implementadores, do “replica e cala-te”), não ouvem os professores nem confiam nos professores. Contudo, foi graças à arte, à sageza, à paciência, à entrega e ao denodo dos tão maltratados professores que muitas reformas (e outras tantas aberrações) ganharam algum sentido e produziram resultados. 

domingo, 19 de março de 2017

Abaixo-assassinado



Quarta-feira, última aula da manhã.
O professor, dando corpo ao seu hábito, já estava na sala quando tocou. Pouco depois, os alunos começaram a chegar, em pequenos grupos, como sempre. Contudo, daquela vez, havia neles como que um grito que quebrava a típica rotina: vinham agitados, esbracejavam, falavam alto, demoravam a sentar-se…
Num primeiro impulso, o docente quase ergueu o seu autoritário vozeirão, mas logo o instinto lhe ordenou que o refreasse. Algo muito anómalo estava a municiar aquela estranha indisciplina dos catraios. Indagou.
— Então o setor não sabe o que aconteceu? Os pais de um aluno do sexto ano foram à sala de aula e a mãe dele bateu na professora! Agarrou-a pelos cabelos, abanou-lhe a cabeça muitas vezes e feriu-a na cara com uma esferográfica!
O professor teve de se compartimentar para manter o controlo: enquanto a figura externa tentava, o mais friamente possível, serenar os catraios e salvar a aula, a alma, já no cume da serra, descarregava, num uivo de revolta, toda a raiva que subitamente a inundara.
O almoço não comido foi substituído por um tufão de lembranças: muitos milhares de palavras inutilmente dadas ao vento, muitos alertas vãos, eternos retornos, risos amarelos de escárnio e ironia… E tudo tão fatalmente consumado! Todavia, era urgente reagir!
Como naquela tarde todos os grupos disciplinares reuniam, o incorrigível acendedor de candeeiros decidiu ir, de sala em sala, dar alma às almas em quieto e temeroso desassossego. A reação não podia ter sido aparentemente melhor.
— Fazes tu o abaixo-assinado?
Era óbvia a resposta. Ele já o tinha configurado na memória. Rezava assim:

«Excelentíssima Senhora Diretora,
Na pretérita quarta-feira, dia 7 de dezembro, uma professora desta escola foi violentamente agredida, diante dos seus alunos, por uma encarregada de educação, que, ao arrepio das mais elementares normas do respeito e do Direito, irrompeu pelos espaços pedagógicos restritos à comunidade escolar, para consumar o seu repugnante propósito.
Na verdade, a extensão e a gravidade do ato não se confinam à agressão física e psicológica a uma docente desta instituição. Em bom rigor, todo o corpo docente e não docente foi violentamente agredido e humilhado: na sua autoridade, na sua integridade profissional, na sua imagem de referência perante as nossas crianças, no sentimento de segurança, na imprescindível relação de confiança com a comunidade que, de forma tão generosa, tem servido e continuará a servir. Em bom rigor, todos os alunos foram violentados: aqueles que ouviram, repetidamente, a narração destes factos deploráveis, os que assistiram a parte desta inadmissível ocorrência e, com especial contundência, aqueles que presenciaram, de muito perto, toda a brutalidade exercida sobre a sua professora. Em bom rigor, também todos os pais e encarregados de educação acabaram por ser agredidos, pois — estamos convictos — não são estes os valores que querem transmitir aos seus filhos e educandos, não é esta a escola que querem para eles nem é este o caminho que esperam vê-los seguir.
Por tudo isto, Senhora Diretora, os docentes abaixo assinados entendem ser seu dever moral traduzir em atos o indizível: a dor e o luto que têm na alma. Assim, em sinal de veemente repúdio de atos desta índole, que não mancham somente quem os pratica nem ferem apenas quem os sofre diretamente, na próxima segunda-feira, dia 12 de dezembro comparecerão e permanecerão na escola, no seu horário de trabalho, mas não cumprirão o serviço letivo previsto. É imperioso e urgente que toda a comunidade partilhe esta dor, que reflita sobre o que aconteceu e se demarque, definitivamente, destes degradantes exemplos, porque a Escola é, por natureza, inverso da barbárie. Sugerem ainda a Vossa Excelência o cancelamento de todas as atividades de Natal e a remoção de todos os enfeites alusivos à quadra, pois também o espírito natalício, deste ano, foi irremediavelmente enegrecido.»

Como na quinta-feira foi feriado — Dia da Imaculada Conceição — o documento só foi dado a assinar no dia seguinte. Da esmagadora adesão inicial, sobraram apenas quarenta e um signatários, que ao longo do dia se converteram em apenas trinta e nove assinaturas, visto que duas foram arrependidamente rasuradas. Eram, pois, trinta e nove os mestres dispostos a deixar bem vincada a sua indignação perante o sucedido.
No dia D, apenas o promotor da ação e uma colega sua mantiveram a posição assumida. Os restantes… foram cumprir a sua mormalíssima e imaculada rotina.   Os líricos… ali ficaram, na sala de professores, matinal e vespertinamente, desfolhando conversas, à espera da fatídica falta injustificada, que tanto medo causara aos restantes educadores dos homens e mulheres de amanhã.
No morrer do dia, o subversor regressou ao seu fojo com um pouco mais de chumbo misantropo no coração. Pousou a pasta e foi ao terraço beber alturas. A Lua já redondava no vão negro. Olhou-a nos olhos, à procura de uma resposta. Pouco depois, cismando nela, o rosto alongou-se-lhe num proeminente focinho peludo, as orelhas triangularam-se para o céu, os membros desceram ao chão e transformaram-se em patas, a cauda hirsuta completou a metamorfose. Pareceu-lhe então que o solitário corpo celeste o chamava. Correu até ao cimo da montanha mais alta, subiu ao penedo maior e… uivou incessantemente para o astro inerte, que continuou o seu indiferente rumo, no noturno silêncio dezembrino.
Só a manhã o ouviu. Clementemente, veio pôr termo ao seu furor. Trazia nas mãos rosadas uma calorosa chávena de luz. Era um novo dia.




PS – As razões do "recuo" ficam para o próximo “fascículo”.

O pai que ficou

A pensar no dia que hoje se celebra, decidi ofertar-vos um excerto do meu primeiro romance, Flor de Burel, que dedico a quem só nas memórias e no coração pode abraçar o pai. Mais logo, ao serão, o prometido texto domingueiro.



O pai que ficou
«Após a sua morte, a omnipresença de Simão na vida do filho tornou-se uma constante. Desde a negação completa, nos primeiros dias após o funeral, até aos frequentes sonhos com o pai, o crescimento de David foi sempre acompanhado de um processo místico de reinvenção, de incorporação daquela figura progenitora, que o deixou na candura dos seus tenros nove anos de idade. Amélia sempre procurou tudo fazer para suprir essa perda e, de certo modo, conseguiu-o. Mas foi sobretudo no final da adolescência, quando os primeiros sinais da adultícia se fizeram notar no corpo e no espírito do rapaz, que ele mais sentiu a falta da referência paterna. Quão frutífera teria sido a sua presença para o levar ao café, para o inserir na roda de amigos, para lhe transmitir, por palavras e acções, o seu saber-fazer, o seu modo de estar e de ser! Como teria adorado ouvir o pai falar dos seus amores, das mulheres que conhecera, das suas viagens ao Porto, a Lisboa, aos Estados-Unidos… David nunca soube ultrapassar uma certa timidez social, uma certa dificuldade em fazer novos amigos. Manteve os seus colegas de escola, os seus vizinhos, até que a vida os empurrou para longe, separando-os como sementes voadoras que o vento leva para nenhures. Em Braga, para além das muitas relações que conseguiu consolidar a nível profissional, a sua vida privada resumia-se quase exclusivamente aos convívios caseiros com a família do seu colega de gabinete ― de cuja filha era padrinho ― e a uma completa, uma quase monástica entrega à casa, ao nicho familiar, que se tornara numa missão com tanto de consciente como de inconsciente: uma obsessão.
A memória do pai sempre se resumiu, para David, aos confortáveis sonos, sentado sobre as suas pernas trementes, embalado pelo som do trauteio de uma música monótona; à sua voz gutural, facilmente irascível, acompanhada de um bem audível ranger de dentes, quando alguém lhe tocava no menino; à doença que o empurrou para a cadeira, para a dependência, para as longas horas diante do aparelho de rádio, de olhos lavados e alma afogada. Mas, com o peso de alguns Invernos, a presença de Simão começou a materializar-se na calvície do filho, na guturalização da sua voz, na rectidão do seu carácter, na sua irritabilidade fácil ― prometendo mundos e fundos, mas nunca recorrendo à violência ―, no vício de tremelicar a perna, no ranger dos dentes… Fisicamente, David puxara mais ao avô: o mesmo nariz, o mesmo perfil judeu, o mesmo bigode, a mesma expressão facial quando franzia a sobrancelha. Sem disso ter plena consciência, o engenheiro, após o nascimento dos seus filhos, gerou em si um complexo imbróglio sentimental que o tempo acabou por esclarecer sem, no entanto, conseguir sanar: inundou-os com a sua presença, com o seu apoio exagerado, com a sua protecção, com um amor quase a raiar o doentio. Inconscientemente, ele era cada um dos seus três filhos e o seu próprio pai, compensando-se por aquela prematura partida, por toda uma vida de ausência. Quando dava aos filhos, David recebia do pai e era como se a sua infância ― ponto a ponto, nó a nó ― se fosse retecendo, preenchendo de alguém que morrera com o seu nome nos lábios, com um abraço cingido no seu último pensamento, com uma saudade imensa que amarrara a esta vida, antes de partir. Era a reificação de um ente que, em sonhos, vinha regularmente visitá-lo, como naquela hora crepuscular, no silêncio da montanha, onde só se ouvia o místico rumorejar das águas límpidas da nascente do Alto Fontão.»
Flávio Monte, Flor de Burel, Editora Nova Educação, 2009

sexta-feira, 17 de março de 2017

Ganda palhaço!


No dia 24 de fevereiro (sexta-feira anterior ao Carnaval), vesti este fato de gala e dei as aulas nesta figura. No pasó nada! As aulas decorreram com normalidade. Acho que os alunos nem notaram!  L
Acontece que ainda hoje os meus colegas se interrogam (e me interrogam) sobre tão estranho facto, procurando perceber a mensagem que eu quis transmitir. Vou, pois, esclarecer tudinho.
Absolutamente nenhuma! Como era o último dia de aulas antes do Carnaval, pensei (cá para mim) que toda a gente iria mascarada para a escola. Assim, na véspera, fui a uma loja chinesa e… dei um balúrdio por esta fatiota (com nariz vermelho e luvas brancas). No dia D, por volta das oito e um quarto, entrei na escola com a farda habitual, fui à casa de banho e… enfiei o disfarce de palhaço sobre tudo o que trazia vestido. Saí, na maior, e fui direitinho à sala de aula (pasta na mão, passo mui doutoral). Só então me apercebi de que era caso único. C’um catano! Fiquei um pouco atolambado, mas já não era possível recuar.
E “prontes”, foi isto, só isto e nada mais do qu’isto o qu’aconteceu!

quarta-feira, 15 de março de 2017

A arte da (boa) hipocrisia


Cada vez que “me atiro” ao regime de gestão das escolas, em geral, ou aos diretores, em particular, é… a debandada: ninguém comenta, ninguém partilha… Até o share do blogue sofre um rombo de 80%. No Facebook, quando por lá andava, nem para o “gosto” havia… disponibilidade. Vamos, pois, dar uma pequena folga ao sistema nervoso central dos leitores.

PAULO MAIORA CANAMUS
Tal como acontece com outros artistas, sei apreciar um bom hipócrita, aquele que domina a arte do fingimento e a executa com exímia mestria, como se se tratasse de uma harmoniosa sinfonia envolvendo palavras, gestos e olhar. Deleito-me diante de um bom (ou uma boa) hipócrita, sobretudo dos especialistas do “tiranabismo”, aqueles que se abeiram da nossa pessoa com relambório de pesca — do género “Eh, pá, eu faço assim e assado e isto e aquilo!” (normalmente coisas pouco recomendáveis) —, à espera que nós digamos “Eu também, pá! E até faço pior: isto, aquilo…”.
É um autêntico playground para mim! Não resisto a tão saboroso convite para jogar ao esconde-esconde.
Ofereço ao hipócrita, em bandeja de prata, o pacóvio que ele quer para o número. Nesse mesmo instante, “outro-me” e… vou para o meu púlpito cerebral observar os dois interlocutores. Enquanto o meu pacóvio de serviço dá ao artista toda a palha que ele busca e ainda mais alguma (e mais alguma ainda), o “eu-outrado” assiste, lá no silêncio da mente, comendo pipocas e rindo à gargalhada. Então, quando os olhos do insidioso interlocutor reluzem de cobiça como se estivessem diante de um tesouro… É quase (quase!) tão deleitoso como o prazer sexual! De comer e chorar por mais!
Mais tarde, um requintado bónus de satisfação: a de imaginar o fácies da artista diante da insustentável leveza da palha que levou.  

Infelizmente, como noutros ramos de atividade, também a arte da hipocrisia já conheceu melhores dias. Há muitos hipócritas (a pontapé), mas poucos são exímios no métier. O mais certo, no nosso já penoso quotidiano, é levarmos com hipócritas amadores: dizem uma coisa com a boca, mas deixam-se denunciar pela linguagem corporal. Tenho até alguma pena desta fauna, pois ainda conserva um certo resquício de sinceridade. Mas não a respeito lá muito. É como estar a assistir a um truque de magia e ver aquela geringonça toda. Apetece patear, pois claro!

terça-feira, 14 de março de 2017

Corrida ao Conselho Geral


Em muitas escolas o processo eleitoral para o Conselho Geral já está em andamento. Os diretores estão apressaditos: querem encaminhar a coisa antes que a temperatura comece a aquecer. O MEC, por seu lado, visto que ama a Besta, embora lá no íntimo também tenha a noção de que é perversa, está deixar que o tempo passe, discretamente, pois também este poderoso aliado joga a seu favor. Se não nos pusermos a pau, um dia destes estaremos perante um facto consumado (aquilo com que muitos aleivosos sonham, em silêncio).
Face a este quadro de subtil afogadilho, e uma vez que tantos professores estão contra este regime de gestão, só vejo um caminho: NÃO VOTEM. Não sujem as mãos neste processo indigno. Sei que os instalados se vão apresentar às urnas, mas… deixem-nos a falar sozinhos, a votarem uns nos outros.

A Besta


Há… dezasseis anos, quando, nomeado pela DREN, assumi o cargo de presidente da Escola Secundária D. Maria II, de Braga, o corpo docente daquela instituição receava (com algum fundamento) que houvesse planos inconfessados para a ir “convertendo” numa escola de ensino básico (por questões de mera gestão da rede que, agora, não vêm a propósito). Reagiam, portanto, com muita desconfiança, quando a Direção Regional de Educação do Norte ali colocava as turmas do terceiro ciclo que a escola mais próxima não podia comportar.
Eu tinha uma opinião contrária à da esmagadora maioria dos meus colegas: sempre achei que seria melhor sermos nós a formar os nossos alunos do secundário do que ficarmos com “as sobras” dos vizinhos (sermos uma C+S de corpo inteiro). Contudo, não foi a minha ideia que defendi, foi a do corpo docente que entendi representar, apesar de não ter sido eleito, mas nomeado pela tutela. E, como devem calcular, defendi-a como se fosse minha, ou seja, com unhas e dentes. Nunca me passou pela cabeça ter outra postura: mais individualista, mais egoísta, mais presunçosa ou mais iluminada. A instituição e o coletivo que representava sempre estiveram acima, muito acima, dos meus interesses e motivações individuais. Orgulho-me disso, pois, como é sabido, os homens passam e as instituições ficam. Leciono atualmente noutra escola, e a D. Maria II lá está, incólume, dando continuidade à sua prestigiada história.
A que propósito vem isto?
Vem, em primeiro lugar, a propósito dos nossos queridos diretores, que, apesar de não terem sido nomeados pela tutela, mas “eleitos” pelo Conselho Geral (o tal que é um mito, ou seja, um nada que é entrudo), apenas representam (ainda que finjam o contrário) as vontadinhas, as vontades e as vontadonas da tutela política, nem que para isso tenham de esmagar os ex-colegas (coisa que fazem de forma muito competente, admito). E não adianto mais o assunto, porque o blogue não encerra hoje.
Vem, em segundo lugar (mas num patamar completamente diferente), a propósito dos bloggers dedicados à defesa da Escola Pública, os quais, apesar de ser agora do conhecimento geral que 90% dos professores repudiam este regime de (com)gestão, não vestem a farda, não empunham as armas mais bravas nem travam aberto e acérrimo combate contra esta coisa que nos asfixia e nos esmaga lenta e impiedosamente. Talvez já não acreditem e, por isso, não ousam instigar; talvez alguns tenham cedido à vaidade e ao mediatismo; talvez um ou outro se tenha convertido a interesses ou a um realismo passivo, cínico e frio, próprio de quem está mais interessado em provar que tem (quase) sempre razão do que em intervir decisivamente na realidade para fazer a diferença e mudar rumos.
Sei que o agachamento dos professores é coisa chocante, mas… enquanto virem tão assertivos e tão moderados os que podem resgatá-los para a mudança, não sairão do seu  casulo de submissão e dor.
Por este caminho, a Besta vai sobreviver e continuar a fazer das suas!

domingo, 12 de março de 2017

lilipute

Como ainda tenho as cordas literárias enferrujadas, republico um pequeno delírio que tive em 2008. Reli-o hoje, na minha pachorrentice domingueira, e fiquei boquiaberto, não com o talento (sou um gajo modesto), mas com tantas atualidades. Até do Donald Trump falei. Vejam só como sou… tão à frente! Modestamente, claro!


lilipute
O matriarcado de lilipute está situado numa ilha mesmo no centro do mítico Triângulo das Burras Mudas. Embora poucos mortais acreditem na sua existência, a verdade é que ela é tão real como o Céu e o Inferno, como o Olimpo e até como o Pai Natal. No reino de lilipute, tudo o que não pode ser minúsculo é, pelo menos, pequeno. Bem no interior daquele pedaço de terra — invisível ao olhar dos mais argutos telescópios espaciais — fica o feudo, polvilhado de casinhas individuais, de cor amarelada, que proporcionam o conforto e a segurança dos diminutos ilhéus. A ampla floresta de bonsais, que rodeia a povoação, dá aos liliputianos o precioso e escasso oxigénio de que necessitam para viver. Mas, para manter o frágil equilíbrio do seu ecossistema, a ilha de lilipute tem de ser impermeável a quase tudo o que seja exterior, grande ou diferente, que ali é sinónimo dos dois adjetivos anteriores. Misturar a casta liliputiana com uma casta “exógena” seria pôr em perigo o sagrado equilíbrio ecológico daquele já ínfimo habitat. Por isso, no porto do reino, sobre o pórtico principal da fortaleza, pode ler-se numa placa de um centímetro quadrado:

“o que não é pequeno não é perfeito.
    se achas a porta baixota, dá meia-volta!”

Como já sabemos, o matriarcado de lilipute é governado por uma ministra rancorosa e vingativa, dona baixeza. Mas não é dela que hoje reza a história. Hoje vamos exaltar as façanhas de uma prima sua, dona retaliação minorca, da família dos minorcas, a quem a primeira entregou a direção de uma fábrica de puré de nabo. Ora, dona retaliação, ativa gestora, anda sempre a girar de um lado para o outro, com um manto até aos tornozelos, espiolhando os afazeres dos seus subordinados com a sua luneta supervisora, um instrumento de observação sagaz também importado da gelândia. Corrijo: veio como oferta, na compra do “telescópio cataratocorretor” de dona baixeza. Quando cata alguma falha em alguém, sobretudo se for insignificante, soergue a cabeça e, brandindo o dedinho hirsuto e carnudo, enxovalha o desgraçado. Por isso, os liliputianos, à socapa, lhe chamam “rainha de paus”, com minúsculas, porque do seu alfabeto, como é compreensível, não fazem parte as letras grandes. É uma chefe temível, pois a sua eficiente cadeia de produção e de comando é vigiada pelo designado “colégio afetivo”, composto pelos seus melhores e mais fiéis amigos — amigas, na sua maioria — que ela vai comprando com pérolas de âmbar, chupa-chupas de mel, embalagens de puré de nabo ou com alguns momentos de protagonismo pintando os seus nomes, com tinta fluorescente, nos placares da fábrica. 
O colégio reúne informalmente, em qualquer momento, e os seus olhos são omnipresentes. Mestres na prática marcial do chuchotement, os membros do “três e dois igual a cinco” — é assim que o colégio afetivo é designado pela arraia-miúda, devido ao seu exímio calculismo nos momentos de simulacro de votação — delapidam diariamente muitos incautos, outros tantos atrevidos, que se veem irremediavelmente apoucados, numa contenda ingrata em que perdem sempre por falta de estratégia. Pudera… a maior parte até perde por falta de comparência!
Todas as tardes, à volta de uma mesinha redonda, num diáfano ambiente de camaradagem, embalado por um estimulante frufru de saias, pelos inebriantes odores do chá de sumiço e dos exóticos perfumes de bonsai, lá estão, paulatinamente reunidos, os previsíveis membros informais do dito colégio: dom jácomo olhão; dona biface; dom maritico-ouvidos-de-ouro;  dona minúcia magricela; dona farrusca bibleira; dona bola farfalhuda; dona pequenez, com as suas novidadezinhas do mundo banal; dona diminuição, com os seus perspicazes óculos desgraduados; misse minusculoira; a comendadora excel; as manas minhoca, cujo porte faz lembrar as simpáticas fadas da Bela Adormecida com a sua varinha de condão;  dom sombra, cuja presença só é requerida quando é necessário que três mais dois seja igual a seis. Por aquela mesinha, forrada com pauzinhos de fósforo envernizados, passa toda a vida da nabalput, a fábrica de que temos vindo a falar. O que é “exógeno” (ou grande) é, obviamente, tratado como grotesco, e é liminarmente rejeitado ou, se a freguesia afetiva estiver de bom humor, simplesmente ignorado ou enviado para a “redutora”, uma fantástica máquina de diminuir, um prodígio da nanotecnologia, à base de complexas sequências de logaritmos, acionada com o simples movimento vibratório de línguas bífidas. O que é “endógeno” ou pequeno, genuinamente pequeno, faz as delícias da pequenada. São capazes de ficar tardes inteiras exaltando os contornos de um nabo, a textura de uma folha, a maciez da massa, o paladar de uma nabiça servida ao serão, o segundo exato e o preciso local onde este ou aquele liliputiano puseram o pé em ramo verde ou seco. Anafando languidamente as suas sedosas barrigotas peludinhas, perdem-se no tempo a sussurrar palavras monossilábicas, vergastando os ausentes, reduzindo tudo o que pode ser reduzido, numa espécie de purgatório verbal, de triagem, onde se “salva” apenas o que possui o gene de pequenez e se condena tudo o que é negativamente, relapsamente, recalcitrantemente “exógeno”. Repetem à saciedade, ao longo da jornada, o slôgane sábio criado pela chefe: “ puré só há um, o de nabo e mais nenhum”.
— E tem de ser do pequeno! — faz questão de vincar sempre dom maritico-ouvidos-de-ouro.
— Tudo o que é grande, ou tende para tal anomalia, é grotesco, disforme e repelente, não acham? — dizia… já não sei quem dizia.
— Concordo com isto que alguém aqui acabou de dizer, minhas amiguinhas. É uma questão de princípio, um valor fundamental da nossa abençoada nabalput, um dos dois mandamentos do guru donald trumpinho, que não podemos esquecer: “melhor do que pequeno só pequenino” e "nunca faltar e tudo passar" (pelo passe-vite, claro).
— Pois eu acho que deveríamos propor a dona retaliação que, em vez do crivo de malha fina, sugira a dona baixeza a colocação de uma plaquinha à entrada da ilha a proibir a importação. Afinal, tão pouco ou quase nada se aproveita do que vem de fora!
— Que rica ideia, colega! Assim não teremos mais a maçada da chacota, da difamação, do boato, do rumor ou da calúnia, o combustível que faz acionar a redutora e a picadora.
— A plaquinha poderia ter uma frase mais ou menos assim:

        “grande nabo, sem ti, seremos mais felizes.
       contigo, faremos adubo orgânico.”
— Perfeito! — disse não sei quem. — Até podíamos usar essa coisa para produzir mais nabos dos nossos! Já estou mesmo a ver os cartazes espalhados pelo mundo inteiro: “lilipute, o minúsculo paraíso do nabal!”
Quando terminam o seu chá censório, os orgulhosos fregueses afetivos levam o “apuramento” à sua superiora, que mete tudo aquilo nas grelhas de medição, sopesa tudo aquilo na fiel balança de dois pesos e duas medidas e pronuncia o seu veredito final de tudo aquilo. Depois, do baixo da varanda do seu gabinete do rés-do-chão, olha com desdém para a escória rejeitada, indistintamente amontoada na lixeira.
— Pois é, pois é, o que é grande não dá puré! O que não cabe na malha fina é estrume de latrina!
E os membros do colégio minúsculo, enternecidos, envaidecidos e embevecidos, por terem, uma vez mais, livrado a fábrica dos perniciosos efeitos da diferença, soltam um risinho conivente, quase pueril, lisonjeados com a ínfima, com a microscópica, com a atómica indulgência da sua protetora. E assim, defendendo intransigentemente a estabilidade miniatural do matriarcado, vivem pequenamente felizes no reino de lilipute.
Grande, mesmo grande, só o número de pequenotes!

Luís Costa

sábado, 11 de março de 2017

Convergência


Os professores são, atualmente, uma classe profissional amedrontada, encolhida e submissa. Esta evidência já me fez insurgir, já me fez irritar, revoltar… Hoje, porém, só me inspira deceção e pena, mesmo quando vejo assomos de indignação, não contra quem deviam erguer-se, mas contra quem por eles dá o peito às balas: “O colega está a ser muito inconveniente!”.
Em tempos (tempos de muito má memória), foi o próprio Ministério da Educação a dar o mote, de forma pública, ostensiva, bárbara, fazendo autêntico terrorismo social e profissional contra os professores. Hoje em dia, com a máquina já devidamente instalada, tudo se passa de forma mais subtil e silenciosa. A tutela pega no comando, carrega num determinado botão e… os diretores fazem o que têm a fazer.
Após a “gloriosa” criação desta máquina de submissão, a autoridade dos professores ainda não cessou de se degradar. Concomitantemente, grassam “outras autoridades”, algumas das quais absolutamente invasivas e outras pedagogicamente aberrantes. "Porreirismo" para uns e “porradismo” para outros, aqueles que, presentemente (como manda a cartilha), não têm voto na matéria, uma vez que se encolhem e se põem a jeito. Para além do que já disseram em "voto secreto" (repudiam este regime de gestão) não se pode esperar mais nada dos professores. De viva voz não farão absolutamente mais nada. 
A agravar este quadro desolador, está a escassíssima unidade na ação dos bloggers dedicados à Escola Pública (não, não vou falar de dissensões!). Porém, dou comigo, amiúde, a fazer a seguinte pergunta aos meus botões: o que aconteceria se, em consonância com os resultados do recente inquérito sobra a democracia nas escolas, os principais blogues da Educação convergissem militantemente para esse ponto fulcral? Não sei o que aconteceria, mas pagaria para ver!  
Sem convergência… é aquela velha história do barco a remos que mais parece a nave dos loucos.

sexta-feira, 10 de março de 2017

ERAMÁ


Esta foi a última imagem de capa do Bravio: um lobo que se transformou em condor, a voar em céu noturno, diante do astro inerte, cujo luar é a famosa frase de Lavoisier. Embora desconhecesse a forma, já sabia, portanto, que o meu regresso era uma questão de tempo. E não será o último: sei que voltarei a cansar-me, não da peleja, mas dos silêncios e das inércias. Esses, sim, são insuportavelmente dolorosos.
Aqui estou, pois, de regresso ao meu posto, que é apenas o novo corpo da mesma alma: Dardomeu, Danação, Vade Retro e Bravio. Sou eu, orgulhosamente só, genuíno e "incomprável".

Virei aqui, brandir os meus pensamentos, sempre que o ímpeto me obrigue. Aos domingos, após o jantar, para “desendoidecer” da guerra, servir-vos-ei banquetes de palavras. Modestos, pois claro, que o meu talento poético é parco e incerto.
Luís Costa