domingo, 30 de abril de 2017

Descida ao Inferno


É uma narrativa um pouco longa, para um blogue, mas VALE BEM A PENA, asseguro-vos! Foi escrita em 2011, em quatro capítulos e em datas diferentes. Fala, em tom jocoso (sem deixar de ser sério), da rendição dos professores, das desigualdades geradas nas escolas, dos favorecimentos, dos aproveitamentos, das discriminações negativas, doa conluios e… da transformação dos professores em zombies pedagógicos. A Escola parecia (tal como hoje é) uma caixa de Pandora, mas ao contrário, pois caíram sobre ela todos os males, e só a esperança parece ter fugido. Disse bem —“parece”— porque a esperança ainda mora, bem guardada, no peito forte de um pequeníssimo punhado de lobos do ensino.
Já mandaram a criançada para a cama?
Amanhã visto a armadura e volto ao combate “100% sério”!


1.º Anel do Inferno
Passei o portal. Acabo de entrar no primeiro anel do Inferno. É, certamente, o maior, uma vez que venho de fora e todos eles são concêntricos. E é também, de certeza, o mais povoado. Digo isto, porque está apinhado. Parece um autocarro da Carris em hora de ponta.
O ambiente que se respira é fétido, muito fétido mesmo, mas deve ser o menos escaldante, pois ainda o consigo suportar em mangas de camisa e calças de ganga. Suponho que o pior deve ser o que está mais próximo do núcleo. Deve ser algo semelhante a estar em Mercúrio. Quem serão os desgraçados que lá estão? Veremos, paciente leitor! Comecemos então o reconhecimento do terreno. Vai ser canja ― a queimar, claro ― porque as almas estão rotuladas. Vejamos então quem aqui está.
Há incontáveis criaturas com uma placa de aço reluzente ao pescoço, com a seguinte palavra: “Resignado”. Mas também há muitos rendidos, acobardados, subservientes…  Que mal terão feito para estarem aqui? Olha, vai ali um diabrete. Vou fazer-lhe umas perguntonas.

― Boa… Bo… Bem, Sr. Diabrete, pode dizer-me por que razão estas almas vieram aqui parar?
― Aqui não se diz “bem”, diz-se “Mal”. E quem és tu, pá?
― O editor do DaNação!
― Então és colega, mano!!! Mas olha qu’és a cara chapada do do Dardomeu!
― Pura coincidência!
― Mal, volta lá a repetir a pergunta que já me esqueci, enquanto espetava aqui o tridente nesta alminha acobardada!
― Eu pergunt…
― Estava a reinar, patego! Atão tu achas qu’eu m’olvidava?! Mal, aqui há mais variedade do que numa drogaria… eheheheh!!! Há aqui gente que s’agachou, outros que me venderam a alma, outros que diziam imundos e profundos nos comentários dos blogues e no Facebook, e depois iam para as suas escolas praticar o mais devoto e fundamentalista dos submissos carreirismos. A esses até me dá mais prazer espezinhá-los. Só m’apetecia fazer deles uma espetada e comê-los ao lanche. Também há aqui muitos dos que foram em romagem à Capital. Enfim, há de tudo como na farmácia.
― Então não era como numa drogaria?
― Que mais dá, catano?!
― Mas esta gente só está aqui porque se “desvinculou”?
― O qu’é isso, pá, “desvinculou”?
― É…
― Eu sei, ó labrego! Estou só a… infernizar-te! Esta maralha… enquanto tu e outros lorpas como tu andáveis a derrubar moinhos de vento, eles acumularam papelada qu’eu sei lá: formação, pseudoformação, créditos e mais créditos, louvores, relatórios de todas as sortes, fichas de autoavaliação… Fizeram tudinho, tudinho mesmo, enquanto vós vos babáveis com as palavras baratas que vos diziam, com as palmadinhas nas costas…
― Então presumo que nós não viremos para aqui!
― Heheheheheheh! Inda és mais tamanco do que eu pensava! Heheheheh!
― Ei, espere aí, ainda tenho uma… Foi-se! Dan…

Isto tresanda a suor, mas quem aqui está não mostra evidências de sofrimento relevante. Há até uma música de fundo nesta ígnea espelunca: “Sultans of Swing”, dos Dire Straits”. Estranho!!!

Primeiro Anel do Inferno, 11 de julho de 2011


2.º Anel do Inferno
Estou no segundo anel, em absoluto estado de estupor. Não sei como vim aqui parar ―  apenas me lembro de me ter encostado a uma parede que não era ―, nem o que realmente os meus olhos veem, ou creem que veem, sei lá! Reconheço muitos rostos que vi no primeiro anel, e aqui, bem posso dizê-lo, “tá-se bem”. É um Inferno que aquece, mas apeteeeeeeeece!

Este segundo círculo é substancialmente mais pequeno do que o primeiro. O ambiente é penumbroso, como convém, mas os tons rubros, saindo das trevas, emprenham o ar de sensualidade e mistério. O pecado mora aqui, sem dúvida, e é tentador! As almas não penam, nem parecem zombies, como as que vi no compartimento anterior. Umas sentadas, outras de pé, outras deitadas, todas exteriorizam satisfação, relaxamento e felicidade. Convivem, dão ao treco-lareco, bebem uns drinks, fazem flores, talha dourada, tocam música, volteiam e revolteiam com graciosidade… É só sussexo! Mas que raio de Inferno é este?! Isto mais parece um cabaré da night parisiense! Ou vim parar ao Paraíso ou estou completamento alucinado! Vou ali à receção, ou lá o que é aquilo!

― Boa noite, senhor Mafarrico!
― Má noite também para ti, ó zeco! O consumo mínimo é…
— Mas…
— Tava a gozar, taralhouco! Aqui é tudo pela medida grande, mano! Bota aí mais cinco! Atão que me queres, ó danaçãozinho!
― Alguns esclarecimentos. Pode ser?
― Só se for escurecimentos, pá! Onde julgas que estás? E é por ser para ti, que és uma espécie de filial cá da mafarricada bacana! Bota lá.
― Estou iludido, ou já vi muitas destas criaturas ali atrás, no primeiro anel?
― Estás desiludido e ainda não deste conta! Ahahahah! Há séculos que o Inferno mudou, ó parolo. Ainda esperavas encontrar a mesma estrebaria que Dante visitou?! Nem te passa, pá! Isto aqui também tem evoluído muito!
― Evoluído?! Pensei que…
―  Dá ao Diabo o que pensas, pá! No século XIV da vossa era, isto era só uma sala de espera… digamos… austera, mas agora… agora… Tu estás na quinta dimensão, camarada!!!
― Camarada… entre aspas!
― Se te dá mais jeito… Acabou-se o amadorismo aqui nos Infernos. As almas não são como bonecos de barro: têm uns lados mais pecaminosos do que outros. Não seria justo que pagassem todas as suas dimensões por igual. Consoante a delinquência moral, assim…
― Então vocês retalham…
― Não me interrompas, catano! Julgas que estás em reunião de profes? Agora, cada parte da alma vai para o seu anel, para levar a dose que merece. Mas temos de lhe atribuir a mesma aparência física, senão isto aqui seria uma confusão dos diabos! Seria como tentar resolver um puzzle de 120 mil peças, sendo todas da mesma cor e sem mais nada! Tás a topar?
― Tou, tou! Mas estes entes parecem bem felizes!
― Tás na parte que não merece castigo! Nós aqui também já aprendemos a fazer discriminação… negativa! Não somos assim tão mauzinhos nem tão feiinhos como nos pintam!
― Mas não merecem castigo porquê?
― Porque não fizeram nada!
― E continuam a não fazer, pelo que vejo! A morte até parece estar a correr-lhes bem de feição!
― Tás é com inveja, ó percevejo danadinho!
― Lá iss…
― Olha qu’isso é um pecado mortal!!! E dos que carimbam o passaporte para o Breath of Hades!

Breath of Hades? Tinha de ser em inglês? O que é o Breath… Mais um que se esfumou! Filho d… Mas o que é isto??? Si, Salma! Si, cariño, me gusta mucho!!!

Segundo Anel do Enfermo, 19 de julho de 2011



3.º Anel do Inferno
Como já perceberam pelo título, estou no terceiro anel do Inferno, mas não é o da Luz. Aqui a realidade é pentadimensional, e faz um calor dos diabos! Há, por todo o lado, a mesma sinalética repetitiva: S. Depau. Deve ser o nome desta ala dos amourados. O pessoal aqui parece café moído. Fosga-se!!! Bem se agradecia uma nortadazita. Estou capaz de tirar a roupa!
― Tira! Tira! Tira! Tira!
― Tiro nada, seus depravados! Então não sabem que o que tira o frio tira o calor?
Bem, voltemos ao estatuto de narrador, para dizer quem são aqueles “tira-tiras” que acabaram de me provocar. São Depaus de todas as espécies, todos diferentes, mas todos iguais. Coitados! E já estão a levar chicotadas de fogo, por terem ousado desviar os olhos da calha em que se movimentam. Andam em círculo ― como burros em noras ―  arqueados sob peso “analfabruto” de enormes “tarefórios” de verga ininflamável, nos quais caem, vindos de todo o lado, pequenos flocos de… buraco negro. Alguns até já andam com genuflexórios deslizantes. À mínima distração, é chicotada e bofetão. A traulitada é tanta que isto mais parece um mega-agrupamento de castanholas espanholas a tentar entrar no Guiness. Vou mas é tentar pirar-me daq…
― Onde julga que bai a minha criatura danada?!
Estou feito! Tenho diante de mim uma besta flamejante que mal me deixa respirar. É um Balrog! Deve ter uns cinco metros de altura, e é feioso e chifrudo como um bode velho!
― Sou o quê???
― Não, nada! Estava só aqui a falar com os meus leitores!
― Ai sim?!!! E o que les dezias?
― Que é ditoso e sortudo este pagode!
― Hummmmmm!!!
― Dá-me licença?
― Dou-te o quê??? No há cá disso, ó lapardeiro! Ajoelhastes-te… agora bais ter que re…
― Não!!! Isso não, por amor de D…!
― Blasfemas?!
― Não! Por favor! Por ódio do Diabo! Não me faça rez…
― Então tu achas que aqui se reza, seu tarado estúpido?! Aqui só se pregrina! O qu’eu quero dezer é que.. já que t’ajoelhastes, bais ter que rebojar.
― Rebojar?!
― Sim, andar aqui à roda, com’estes almocrebes. Daqui nom se sai assi com duas cantigas!!! Toma lá isto, mais isto, mais isto, mais isto, mais isto, mais isto… e mais isto que mandou a Lurdes, e mais isto por conta da Isabel…
― Huuuuuggggg! Já chega, caragooooohhh!
― Mais isto, mais isto, mais isto, mais isto, mais isto, mais isto… E bai lobar acolá, a Nonseionde, aos encarregados de…
― E cooooomohh se vaiiiiigg… para… Nonseionde?
― Nom se bai, seu tolo! Aqui nom se bai a lado nenhum! Mas o qu’importa nom é onde queres chigar, mas a maneira como fazes o caminho. Curte o dia, ganda burro!
― Masjjjjj… eu não sou daquiiiihh! Só aquiiiihhh vim como repórtereeeeegggg do DaaaaaaNaaaaação!
― Ai sim? Já mo podias ter dito, catano! Toma lá então mais isto, mais isto, mais isto, mais isto, mais isto e mais isto, qu’é um prontuário da Margarida Moreira Editores. Nom custa nada!
― Não há direitooooooohhhh!
― Disseras torto e nem perderas nem ganharas nem porradinha levaras. Dicotim Dicotão, quantas leis, releis e desleis tenho na mão?
― Um milhão. 
― Bês como bais bem despachado!!! Já estás a começar perceber como s’enxofra aqui em S. Depau dos Infernos! Bora lá p’ra diante! Toca o soco, antes que…
― Ai! Ui! Mas que é issooooohhh???
― Isto é oferta da casa, por teres insinuado coisas sexuais no segundo anel. Julgas qu’és ministro, diretor… ou o quê?! Aqui ninguém cose ninguém! Todos são cozidos… com vozinha doce! Preferias chorar no Paraíso, hein? Ohohohohohoh!

S. Depau dos Infernos, 23 de entulho de 2011


O Bafo de Hades
Estou no coração do Inferno. É um círculo banal: um compartimento anelado de janelas na sua única parede, em cuja pele uma vulgaríssima sinalética, lambida pelo tempo, não deixa dúvidas a quem chega: é uma imensa sala de professores, um lugar-comum, pejado de almas penadas, à temperatura normal. A minha absoluta surpresa parece ser o único dado dissonante neste núcleo estranhamente familiar.
Caminho pela vastidão deste espaço calmo e não encontro sinais visíveis dos senhorios infernais. Se os há, estão em indiscernível figura de gente, o que é bem provável, ou então omnipresentes nos cérebros eventuais dos entes que aqui demoram. Se assim for, este é o antro mais diabólico de todos os que visitei: no primeiro caso, aqui ninguém poderá confiar em ninguém; no segundo, as almas terão medo e reprimirão os seus próprios pensamentos. E se coexistirem ambas as possibilidades? Nem quero imaginar!
Continuo deambulando pela sala sem que ninguém exteriorize sinais de me ver. Os seres residentes, aliás, atravessam-me como se fossem ― ou eu fosse, ou todos fôssemos ― evanescentes. Começo a não ter certezas de nada! Movimentam os lábios, gesticulam como quem conversa, mas parecem não dizer o que pensam, como quem teme a real identidade do seu interlocutor. Na verdade, não comunicam. Fazem palavras que um diabo qualquer, aninhado nas entranhas cerebrais, previamente, parece estar pintando de oco. Uns falam sós, outros aos pares e outros ainda em pequenos grupos, que se fazem e desfazem constantemente. Mas o silêncio é de chumbo. O meu olhar, um pouco mais afeiçoado aos reais contornos deste salão, diz-me que o movimento aparente dos corpos é o único indício de vida aqui.
Ao centro, o lugar mais sombrio deste antro, um renque de almas docentes está alinhado com outro renque de computadores. A uni-los, os dedos de uns e os teclados de outros, em perpétuo e estrepitoso movimento. Mas os ecrãs das máquinas estão vazios. E os cérebros humanos não sei o que estão pensando, ou se estão sequer pensando. Talvez estejam apenas obedecendo às leis metafísicas deste misterioso microcosmos. A toda a volta, debruçados sobre os parapeitos dos inúmeros janelos, um batalhão de almas, em postura oratória, lança palavras à brisa que passa, como quem semeia num sítio sem terra, feito de vacatura e asas de vento. É, sem sombra de dúvida, o bafo de Hades, o hálito que tudo retém, que tudo tolhe, que tudo consome, que tudo anula. Os seres palestrantes mudam constantemente de figura: ora sorriem e parecem felizes, ora choram lágrimas de sangue, ora desanimam e desfalecem, ora desaparecem e reaparecem, num ciclo sem fim e sem sentido nenhum. Parecem loucos, em varandins, falando para quem não passa.
Sinto-me tão despojado como esta sala de nenhures povoada de ninguém: entes descrentes e obedientes. Talvez esteja só, numa solitária do Inferno, condenado a conviver com os meus próprios fantasmas. Já não sei! Não sei mesmo! Tudo aqui é perigoso, alienante, contingente e arbitrário. É o vazio de ser… e ter o inferno no coração. Sinto-me aqui outrem de outrem e outrem de mim!

Escola de Portugal, 29 de julho de 2011

sábado, 29 de abril de 2017

Cavaleiro andante do ensino


Há cerca de dois anos, na impossibilidade de um encontro presencial, um determinado ser humano viu-se compelido a escrever um longo e-mail de apresentação, para tentar atenuar o efeito do benévolo ruído que (ele sabia) faria questão de o preceder (“Vem aí o lobo bom!”), visto que a verdade e a bondade acendem muito mais a militância do que os valores inversos. Sabia, e continua a saber, que os seus queridos benfeitores, para lhe proporcionarem ótimas condições de integração, gostam de acenar com a sua ambição de ser diretor. Só gente muito bem-intencionada (para não dizer melhor) pode ofertar tão belo buquê de amores-perfeitos, e só quem o conhece muitíssimo bem (muito melhor do que ele próprio), ou quem está encharcado de sapiência até à ponta das orelhas, pode acreditar em tal revelação. Enfim, é o ameno paraíso em que vivemos.
Para que conste (e para que até os mais desprovidos de lucidez possam compreender) deixo aqui um pequeno excerto da missiva desse cavaleiro andante, pois tudo indica que, brevemente, terá de repetir teor do discurso.

«Bom dia, XXXXX!
Como sabes, foi meu desejo ter uma conversa presencial contigo, pois entendo que é a melhor e a mais eficaz maneira de comunicar. Tal não foi possível — sei que o trabalho é muito — e acabei por trocar apenas algumas palavras contigo em contexto de reunião. Pensei, posteriormente, que talvez pudéssemos conversar um pouco no dia da ação sobre os quadros interativos, mas nesse dia não pude estar. Questões familiares primeiro e demoradas obras em casa depois acabaram também por ir adiando esta missiva que, entretanto, decidi escrever-te. Não é a palavra dita, associada ao rosto, mas tem, ainda assim, o valor da palavra escrita.
Em primeiro lugar gostaria de dizer-te que prezo muito o cargo que ocupas, pois, para além da responsabilidade e das canseiras que acarreta, é vital para a escola e para comunidade. Já desempenhei, como creio que sabes, funções similares na X XXXXX XX, sem nunca as ter desejado (aceitei-as após prolongadíssima insistência de algumas colegas e com espírito de missão a prazo). Jamais repetirei essa experiência. Continuo a pensar como sempre pensei: que o meu habitat natural é a sala de aula. É lá que eu me sinto bem, com os meus alunos.
No recente concurso, coloquei a XXXXX XXXXXX em primeiro lugar, embora não tivesse descartado a possibilidade de regressar à XXXXXX XXXXXXXX ou à X XXXXX XX. Quis o “destino” que eu fosse colocado na primeira opção, motivada apenas pelo facto de ser uma escola de segundo e terceiro ciclos (acho que já não estou com muita pachorra para voltar ao secundário). De resto, muito pouco sabia sobre a escola, e acredita que as instalações pouco me importam. Há, antes desse aspeto, muitos outros que contribuem, de forma bem mais determinante, para o meu bem-estar pessoal e realização profissional. Por eles, trocaria rapidamente uma “escola de cinco estrelas” por uma muito pobre, mesmo improvisada, como algumas que conhecemos em países do chamado terceiro mundo.
Tenho-me em muito modesto conceito, quer como pessoa quer como professor. Já me sentirei realizado se, com a minha inclusão na XXXXX XXXXXX, a qualidade do seu “produto” formativo e instrutivo não decrescer. Tudo farei para que não se note grande diferença entre o meu desempenho e o do(a) colega cujo lugar agora vou ocupar. Contudo, não sou um professor obcecado com o sucesso dos alunos. Desejo-o, como é óbvio, dou tudo o que tenho para que ele se concretize, mas entendo que o essencial do mérito vem deles, das suas capacidades e do trabalho que realizam diariamente. Do que de mim depende, procuro preparar-me sempre bem, pensar as aulas antes e depois, ter tempo e disponibilidade mental e afetiva para o meu trabalho e relações interpessoais, com alunos e colegas. Se estiver bem, o meu trabalho letivo será bom e os meus alunos estarão mais disponíveis para as aulas e para a aprendizagem. Dessa forma, os resultados acabam sempre por aparecer.»


VOLTAREI NA VÉSPERA DO 1.º DE MAIO, TRAJADO A RIGOR.


quinta-feira, 27 de abril de 2017

Berços da democracia


A escola é, por natureza, o nosso berço social e político. É lá que, de facto, começamos a conhecer-nos, na relação com o(s) outro(s), é lá aprendemos a viver em sociedade, é lá que interiorizamos os propalados e os verdadeiros valores em que ela assenta, e é lá também que começamos e definir o nosso lugar e o nosso papel nessa imensa e complexa macroestrutura. A escola é o berço da cidadania e dos regimes.
Quem conhece as nossas escolas sabe perfeitamente que são autênticos abismos: de um lado, os princípios e valores propalados, afixados, recitados, cantados, memorizados…; do outro, os princípios e valores praticados, aqueles que são realmente transmitidos, aqueles que são profundamente interiorizados e sedimentados na personalidade dos nossos jovens. Os primeiros… vão para a montra da hipocrisia: é o que tem que se dizer, o que fica bem dizer, o que é social e politicamente correto dizer. É esta a matriz do ensino e da aprendizagem sociopolítica nas nossas escolas.
Que regime estará a ser embalado nos nossos berços? Será a democracia? Que democracia?
Os alunos, atualmente, crescem num contexto escolar marcado pela indisciplina, pela falta de consideração e de respeito, pela agressividade, pela violência e… pela impunidade. No final do percurso, os infratores riem-se do sistema, os que sofreram os abusos ficam com mágoas e com medo e… todos transitam. O sucesso é um maná que não distingue. A justiça é um produto manufaturado para uns e uma miragem para outros. As referências adultas — refiro-me aos mestres — são as cavernosas sombras do regime que os espera.
Os verdadeiros cravos da democracia não são as flores que ostentamos, são os exemplos que damos, os atos que praticamos, os votos que depositamos nos ventres onde se gera a liberdade, onde, de facto, se decide e ensina quem mais ordena. A democracia é uma imensa planície povoada de cravos destes. Sem este genuíno e profuso colorido, é uma farsa, um embuste, uma capa conveniente, uma extensa passadeira vermelha que nos conduz aos arrabaldes do que, assumidamente, não queremos ser.
Nas nossas escolas, os votos estão em vias de extinção, e muitos dos sobreviventes não passam de mero e serôdio exercício de ficção política: tudo está previamente decidido, na penumbra dos gabinetes, nos hálitos dos pequenos grupos afetivos, nos cicios da conivência. Lá em cima, está o “Padre sublime e dino, que vibra os feros raios de Vulcano”; cá em baixo, está a arraia aquiescente, calada, curvada, encolhida, obediente, explorada e desrespeitada. Quem não alinha… “Vós, judeu, irês à toa, que sois mui ruim pessoa”. Já assim era no tempo da Outra Senhora: muita censura, muito conluio, muita bufaria, proscrição e exílio. As vozes discordantes são cilindradas pelo silêncio dos ortodoxos, que só mais tarde, “lá fora”, ousam dizer que gostaram do que ouviram, e tentam pôr a mão no ombro, para… matar a democracia pelas costas. Os aquiescentes estão a ensinar a submissão e o medo às futuras gerações.
As nossas escolas são viveiros daquilo a que, eufemisticamente, sói chamar-se populismo, mas que não é senão totalitarismo — com hodiernas e subtis roupagens, mas totalitarismo —, aquele que se erige sobre o medo, sobre a alienação da consciência, sobre a imposição de condutas dogmáticas, sobre a instrumentalização das pessoas, sobre marginalização e perseguição do pensamento divergente, sob o ónus de uma só vontade.
É, por tudo isto, urgente soltar as vozes que ainda não se deixaram esganar; é urgente que os professores que ainda não morreram venham à praça fazer militância pela democracia e pela liberdade; é urgente fazer abortar este monstro! É urgente salvar os berços da democracia deste bafo cinzento!

terça-feira, 25 de abril de 2017

Súplica da Liberdade


Imagem retirada daqui.


Não, não me dês mais palavras! Estão puídas, adulteradas… embebidas de branca cor que o teu âmago não brotou. São sopros luzidios onde não moras, espectros de aves que não poisam, essas tuas palavras pintadas e fugidias.
Ah, como doem as tuas palavras adiadas, tardias, abortadas do silêncio tolhido, conivente… , palavras que não ousas dar-me no lugar e na hora em que tas peço! Como me torturam acidamente essas palavras doentias, palavras que eu não quero, não tolero nem mereço!
Não, não me dês mais palavras! Com essas palavras desprovidas, tu matas-me lentamente!
Estou doente, a definhar num castelo erigido com as tuas palavras arredias! É dos teus atos, agora, que eu careço! Se me amas, como levianamente dizes, vem abraçar-me, e sê a inteireza transparente em cada gesto. Vem, vem assim, ao meu peito, dizer-me o que as tuas palavras já não podem! E não temas, nada temas, quando por mim te dás. O temor é o soro erodente da minha lenta agonia. Vem, vem assim, pelo trilho incerto e arriscado, ao meu leito decadente! Vem, vem assim, coração aberto, ousado, pôr-te a meu lado, trazer-me o dia! Se queres a minha alegria, terás de ousar sofrer por mim!
Não, não me dês mais palavras! As tuas palavras vãs são filhas do silêncio que me prendeu. Dá-me agora, te peço, urgentemente, a vida e a paz em cada gesto teu! Só assim nos salvarás!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Teoria da relatividade aconselhada



Na Escola Pública é tudo muito relativo (a dinheiro). 
E o que sai caro tem que sair depressa.
O resto... não interessa!

domingo, 23 de abril de 2017

Apoucamentos


Quem não gosta de nós — ou, simplesmente, quem sente alguma inveja ou dor de cotovelo — à falta de pior, tenta sempre apoucar o que fazemos. No meu caso, é mais pela escrita que os meus antagonistas vão.
Relativamente à minha produção ficcional, tentam sempre ver-me ali representado, juntamente com todos aqueles que me rodeiam. Dito de outra maneira: eu não tenho nenhuma imaginação, apenas me limito a “recontar” o acontecido, com outros nomes (ainda assim, se bem contado, teria o seu valor); a minha ficção, como retrata apenas o que se passa com um ser humano em particular, o seu autor, está desprovida de qualquer dose de universalismo (ainda assim, se bem e sinceramente escrita, teria o seu valor). Até já houve quem tentasse reduzir o meu romance (Flor de Burel) à condição de novela, só porque os protagonistas são provincianos. Contudo, pelas 272 páginas dessa “novela”, para além da vasta galeria de personagens, passa o nosso Portugal, a Espanha, a Europa e o mundo do início da década de 40. Enfim, não me alongo. Registo apenas essa mesquinha e medíocre vontade de apoucar.
Como é óbvio, também nos meus blogues isso acontece, sobretudo quando me exprimo através do literário, seja em poesia seja em prosa. Para os meus maledicentes e malfazejos de serviço, é como um frasco de mel. Julgam que podem ocupar os textos e expropriá-los a seu bel-prazer. É o que fazem. Alguns juram a pés juntos que eu estou a falar de Fulano, de Beltrano ou de Sicrano. E… vai daí… toca a agir em conformidade. Outros, juram de mãos juntas que eu estou a visar especificamente a minha escola, ou a anterior ou a anterior… Ou seja, o que eu escrevo nos blogues dedicados à Escola Pública nada vale, pois só “retrata” situações muito particulares, vividas pela minha pessoa. É a versão profissional dos apoucamentos “mais literários”. Façam-me um favor!!!
O caso mais recente é o do conto O último lobo de Fearland, que mereceu algumas indiretas e outras tantas diretas, vindas de criaturas diversas e por vários canais. Vou, por isso, fazer o que nunca fiz, que não deve ser feito e que talvez não volte a repetir: uma legenda para totós. Vamos a isso.
Como não pode ser muito pormenorizada (para não se perderem), vou direto aos pontos fulcrais (mas têm de me prometer que, depois, releem o texto). Ok! Então é assim:
ü  Treason Town: não é nenhum lugar específico, nenhuma escola em particular (muito menos a minha), é o conjunto de todos aqueles que traíram e dos que continuam a trair a Escola Pública; alguns estão bem dentro das nossas escolas, outros (muitos) estão fora, perto, longe e acima das escolas (capiche?);
ü  Lobo: sim, posso ser eu, como tantos outros; simboliza todos aqueles que continuam a lutar, a não se conformar, a acreditar que a “ressurreição” da classe docente pode acontecer quando quisermos; até no íntimo daqueles que reconhecem que se vergaram, que se acomodaram, há um lobo que, por muito débil que esteja, ainda não se rendeu (é a nossa consciência mais profunda); está preso e amordaçado, mas pode ser libertado;
ü  Fearland: representa o medo dos habitantes de Treason Town, daqueles que querem empobrecer (em todos os sentidos) a Escola Pública; têm medo de quem resiste, temem que o exemplo dos lobos acabe por se generalizar;
ü  Lua: representa os nossos ideais, tudo aquilo por que um lobo, como eu, está disposto a “morrer” (esses ideais estão muito antes e muito acima dos míseros e mesquinhos interesses individuais); mas também pode representar a própria “morte”.

Acho que já dei provas, mais do que sobejas, de que tenho ousadia e estupidez suficientes para visar diretamente quem pretendo e o que pretendo. Já o fiz em muitas situações da “vida real”, nos meus blogues anteriores e no Eramá. Portanto, façam-me um grande favor: não tentem quilhar-me! Se não conseguirem resistir à tentação, pelo menos não o façam por trás. A minha religião não gosta.

sábado, 22 de abril de 2017

Grande salgalhada!



A ser verdade (e parece que sim, em muitas e muitas escolas) está ferida de morte a legitimidade de muitos conselhos gerais e, como é óbvio, das decisões tomadas. Lembro que uma delas, a mais importante, é a eleição do diretor.
No entanto, como estamos num país… de pescadores, e muito dado ao mar, tudo vai dar em águas de bacalhau. Ninguém o fez por mal, apenas por ignorância, para desenrascar… e tal e coisa… e “prontos, bora lá prá frente i num se fala mais nisso”!



Cigano



Podem sossegar os olhos que não vão com as minhas fuças. Já não falta muito para não terem de levar comigo. Acabei de submeter a minha candidatura ao concurso de mobilidade interna.
Aos que já “sonham”, na sombra, com o meu lugar, desejo TODA A SORTE DO MUNDO e mais alguma. Até neste campo parto em desvantagem: já toda a gente sabe que vou libertar uma vaga e eu não faço a mínima ideia do que se passa nas escolas que escolhi. J
Com tamanho nomadismo instalado nesta fase (já pseudorrevolucionária) da minha carreira, não posso deixar de me sentir muiiiiiiiito cigano. No meu íntimo já se forma o embrião, não da próxima escola, mas da seguinte.
É assim: quase todos correm por interesse, eu cavalgo porque há moinhos de vento. Duas maneiras diferentes de estar na vida. A primeira é inteligente, a segunda é estúpida. É a que me assenta bem!

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Idealismo e estupidez


É extremamente difícil — doloroso — ter tanto para dizer, mas… quase tudo arquivar, por ser cada dia mais óbvio que não vale a pena. E quase nada do que eu possa dizer aqui vale verdadeiramente a pena. Nunca fui (nem nunca serei) um placar informativo, um pombo-correio, um pretendente a colunista, um sujeito com segundos interesses, um tipo que procura protagonismo, alguém que ama muito mais o seu ego do que a Escola Pública… Enfim, sempre fui um agitador da alma, um paladino da resistência docente, nada mais. Porém…
Da seara dos dias, colho constantemente matéria para os meus uivos. Tenho a cesta cheia. No entanto, a crença que outrora me fazia correr para este teclado (alimentada por alguma ingenuidade) está agora profundamente abalada, débil, quase morta. E os assuntos acabam por ir, cada vez com maior frequência, para a gaveta da memória, à espera de… um ataque qualquer: de idealismo ou de estupidez (ou de ambos).
Hoje… com muito custo, lá consegui arranjar estômago para emborcar um pouco de cada um destes elixires. Vou, pois, dizer qualquer coisa antes que a minha já tão escassa lucidez decida regressar.
Os professores deste país — já não é pertinente o uso da expressão “classe docente” (cada um é uma ilha a tentar não se afundar) —, como já afirmei noutros artigos, deixaram cair quase todos os seus baluartes. Estão, mais do que nunca, empenhados no ato didático, mas também cada vez mais remetidos e mais circunscritos a esse reduto, embora também cada vez mais limitados e menos autónomos nesta função. Ao abrirem mão de quase todos os outros baluartes, os professores cederam o território que lhes dava maior dimensão, maior estatuto, maior prestígio, mais respeito… E esse território tem vindo a ser ocupado (em muitos casos, abusivamente) por agentes diversos, uns mais próximos, outros mais distantes da comunidade escolar. É uma desolação!
Hoje, há um vasto elenco de personagens que — por verem o terreno à mercê — creem ter legitimidade para teorizar sobre o que deve ser uma aula do presente e do futuro, sobre o modo como os professores devem trabalhar com os alunos, sobre a pertinência ou impertinência dos trabalhos de casa, sobre os trabalhos de grupo… Enfim, há demasiada gente a produzir ditames sobre o ato pedagógico, condicionando, ou tentando condicionar, o pensamento e a ação dos professores. E tudo isto sucede porque estes estão perigosamente submissos, rendidos, obedientes e calados. A Escola está a ser, cada vez mais, dirigida de fora para dentro. E isto tem um preço!
Um dia, esta onda doentia e deletéria (refiro-me ao… chamemos-lhe “enverdascamento” do ensino), a comunidade vai acordar. Vai acordar, porque vai dar de caras com a falta de ambição, com a falta da capacidade de trabalho, com a falta de asas para voar, com a indiferença, com a desmotivação, com a falta de educação e de respeito, com a indisciplina e com a violência… e vai apontar o dedo aos guardiães. E vai censurá-los por não terem — neste tempo de sucessivas invasões — sido suficientemente firmes e intransigentes, por terem deixado as atalaias à mercê, por terem abandonado e amaldiçoado quem nelas ficou, por não terem afirmado intransigentemente os valores maiores, por terem imperdoavelmente cedido a essência do seu estatuto, fonte de todo o respeito, fonte de toda a autoridade. É fatal como o destino!
Li, recentemente, num jornal de uma das nossas regiões autónomas, um artigo de uma encarregada de educação que — com muita razão — atribuía aos professores muitas das culpas pelo evidentíssimo, preocupantíssimo, escandalosíssimo e vergonhosíssimo aumento da indisciplina e da violência nas nossas escolas. É apenas o começo!

E pronto, acabou-se-me o efeito do elixir do idealismo. O da estupidez ainda mantém alguma ação, mas não o suficiente para continuar a dar uso à minha pena.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Tirando a casca ao discurso do Governo - Santana Castilho



1. Quando se inquirem os portugueses relativamente à confiança que depositam nos diferentes grupos profissionais, os professores figuram nos lugares cimeiros. Em sentido inverso funciona a confiança dos professores nos políticos que os tutelam. Ontem, isso mesmo ficou patente no seu protesto público. Tirando a casca ao discurso do Governo, resulta o vazio do que já devia ter sido feito.
Os normativos que regulam a carreira docente estão inertes em matéria de direitos. Urge regular as ilegalidades que foram acumuladas ao longo dos tempos e assegurar a contagem de todo o tempo de serviço prestado pelos docentes. Urge assumir que o congelamento da progressão na carreira cessa a partir do início do próximo ano. Urge deixar de classificar como trabalho não lectivo o trabalho que é efectivamnente lectivo e estripar do dia-a-dia da docência a inutilidade de milhentas tarefas burocráticas estúpidas, que apenas funcionam como elementos de subjugação a favor de chefias inaptas. Por outro lado, cerca de metade das situações de contratação precária por parte do Estado dizem respeito a docentes. Neste contexto, é imperioso que o Governo cumpra, sem truques, a Diretiva 1999/70 da Comissão Europeia.
No quadro mais restrito da gestão das escolas, três vertentes são incontornáveis: reversão da enormidade dos agrupamentos, alteração do modelo de gestão e garantia de que a chamada descentralização de competências passa pelo aumento da sua autonomia, que não pela entrega às autarquias de responsabilidades que pertencem às escolas.
2. Os recentes acontecimentos de Torremolinos evidenciaram confusões de apreciação que merecem rejeição preocupada. Entendamo-nos: a frequência dos incidentes com estudantes nunca lhes pode conferir normalidade; há limites que têm que ser estabelecidos e em circunstância alguma podem ser ultrapassados; é inaceitável que se desvalorize o problema com atenuantes que fomentam a irresponsabilidade; o Ministério da Educação não pode continuar alheio a um fenómeno que se tornou recorrente e também lhe diz respeito.
A Escola não será directamente responsável por problemas de comportamento que devem ser tratados pelos pais. Mas não pode ficar alheia a eles e deve aceitar que tem aí responsabilidades indirectas, via indisciplina escolar. Com efeito, o laxismo face a insultos e agressões entre alunos, a permissividade relativa à linguagem obscena que se tornou normal nos corredores e recreios, a tolerância com os telemóveis que tocam durante as aulas e todo um cortejo de comportamentos disruptivos que se banalizaram são obstáculos de monta à qualidade cívica do relacionamento interpares e estão na génese da evolução para situações de pré-delinquência. Fenómenos sociais complexos removeram os traços de autoridade inerentes à condição de ser professor e modificaram a representação que a sociedade tem da profissão. Esta circunstância tornou central a necessidade de que a sociedade, toda a sociedade, crie novas formas de apoiar os professores na tarefa gigante de ensinar e educar os filhos de todos os portugueses. É, assim, essencial reforçar e ampliar o trabalho das poucas estruturas de mediação entre a Escola e a Família e passar da simples retórica discursiva, inconsequente, para políticas eficazes de valorização social e profissional dos professores.
3. O estudo da generalização do uso de manuais digitais foi aceite pelo parlamento, após proposta do PEV. É preocupante a tendência para substituir livros por recursos digitais, sem estarem apuradas as consequências que daí podem advir para os alunos, em sede de desenvolvimento cognitivo. Com efeito, o avanço recente do conhecimento nesta área põe reservas fortíssimas à ideia segundo a qual é desejável a imersão total dos jovens na tecnologia digital. Outrossim, o que a psicologia cognitiva nos vai dizendo é que não chega fornecer ferramentas digitais para que o conhecimento se adquira, já que essa aquisição segue processos cerebrais que pouco distinguem o “nativo digital” do adolescente das cavernas.
in Público, 19/04/2017

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Páscoa Feliz!



Faço uma pequena pausa pascal. Mergulho em vários interiores.
Regresso no domingo à noite (entre o morto e o ressuscitado) com mais um naco de prosa poética (entre o banal e o literário de alguma qualidade): O último lobo de Fearland.
Entretanto, estimado leitor, desejo que tenhas uma Páscoa muito feliz!

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Um beijo

Como permaneço retrógrado e empedernido no tempo, continuo a preferir os que fazem amor, todos os tipos de amor, sem restrições. Nunca fui de modas.
Termino o dia como o inaugurei: com um poema. Este não é inédito, como o primeiro, mas vem muito a propósito. Pertence ao meu primeiro livro de poesia: Livro d’Água.

Gustav Klimt, O beijo (pormenor)

Um beijo

Que dizer-te
Que já não te tenha dito
Como dizer-te o que sinto
Se o que sinto
Não cabe num simples grito

Como dizer-te o que sinto
Que palavra
Gesto ou expressão
Se o que deveras sinto
É um doce labirinto
Onde sinto perder razão

Olhos nos olhos
Um olhar transparente
Olhos nos olhos
Um momento infinito
Olhos nos olhos
Um beijo eloquente
E tudo o que o peito sente
Fica escrito


Flávio Monte, Livro d’Água, 2010