quarta-feira, 31 de maio de 2017

Os congelamentos letais




É óbvio que o congelamento da progressão na carreira docente é um sério handicap, uma injustiça (a juntar a muitas outras) que é preciso corrigir, com urgência. Todavia, na minha perspetiva, não é esse o pior dos congelamentos nem o que mais gravemente afeta os professores e o que deles depende. Estou mesmo convencido de que os restantes congelamentos potenciam diretamente a eternização deste.
Em que raio de congelamentos estou a pensar? Estou a pensar no congelamento do ego, no congelamento do pensamento livre e da livre expressão, no congelamento da atitude crítica, no congelamento da democracia e da participação, no congelamento a representação, no congelamento da contestação ativa e de viva voz, no congelamento da objeção de consciência, no congelamento do caráter, no congelamento da dignidade, no congelamento da autoridade, no congelamento do orgulho… no congelamento da alma.
Muitos creem que, para sairmos do congelamento das progressões e das restantes precariedades, precisamos da boa vontade dos políticos. Eu creio piamente que depende apenas destes descongelamentos, que só dependem de nós. Enquanto não formos capazes de o fazer, continuaremos a ser sorvetes da nação. 

O discurso insincero de António Costa



“Não há entendimento possível entre nós. Separa-nos um fosso da largura da verdade. Ouvi-los é ouvir papagaios insinceros”. Esta epígrafe, que cito de memória, pertence a Torga, referindo-se aos políticos, e ocorreu-me ao ouvir António Costa garantir que haveria brevemente novo processo de vinculação extraordinária de professores contratados. Com efeito, foi tornado público que cerca de duas centenas de professores, que se candidataram recentemente a lugares de quadro, têm 60 ou mais anos de idade. Perante isto e duas vezes mais candidatos que vagas, António Costa embrulhou o anúncio em declarações pífias de repúdio, “por não haver nenhuma razão verdadeira para que os professores vivam, ano após ano, na incerteza sobre o local onde irão trabalhar ou, pior ainda, se irão trabalhar”.
O problema é que as regras que se aplicam aos professores, para saírem da precariedade, são bem mais restritivas que o previsto para os outros sectores. O problema é que boa parte do que repudiou foi da responsabilidade de Maria de Lurdes Rodrigues, macabra ministra de um governo do partido de que ele é secretário-geral e a que ele próprio pertenceu, sem que o assuma responsavelmente. O problema é que se os concursos extraordinários resolvem a situação de parte dos precários de uma vida, iludem, maliciosamente, outras situações, igualmente graves, sem as resolver. Que é, senão malicioso, deixar para trás docentes com maior antiguidade, só porque já foram vítimas de injustiças anteriores? Que se pode dizer aos professores dos quadros, que esperaram anos a fio para se aproximarem das suas casas e famílias, e agora assistem à ocupação de vagas, que finalmente existem, por colegas com muito menos tempo de serviço, que puderam concorrer a um concurso que lhes foi vedado?
Desde há muito que os concursos de professores geram injustiças e criam castas, por via de sucessivas mudanças de regras, donde a ponderação da iniquidade desapareceu. Assim foi com o que agora se concluiu e assim será com o que Costa anunciou. Porque uma coisa são as palavras, outra coisa é a credibilidade para as concretizar, quando se é o responsável primeiro por uma instituição que anda há anos a fazer o que agora dá por inaceitável.
António Costa derrotou o discurso caceteiro da direita e a visão rasteira de não haver alternativa, da Comissão Europeia. Conseguiu valorizar o Estado e os seus servidores e promover alguma justiça social e redistribuição de riqueza. Recuperou feriados perdidos, operou pequenas melhorias para as famílias de mais baixos recursos, reverteu algumas privatizações, devolveu a alguns a semana de 35 horas e aumentou o salário mínimo. Quando chegamos à Educação, porém, a desilusão tem, para quem se iludiu, o exacto tamanho da ilusão. Torna-se hoje claro o papel menor que a Educação representa para António Costa, com a nomeação de um ministro dramaticamente desconhecedor da pasta que gere, com a manutenção da escola a tempo inteiro e a enormidade dos agrupamentos, com a persistência num modelo de gestão autocrático, com a recuperação das novas oportunidades de má memória, com o reforço e a universalização da municipalização da educação, entregando quase tudo às autarquias, com a imbecilidade das provas de aferição e com o anúncio de ideias pacóvias de futuro, sem ideias e medidas realistas de presente, que ultrapassem o narcisismo dos novos poderosos.
António Costa é exímio a governar por anúncio. Mas em Educação, António Costa anuncia sem atender à substância. Talvez porque, ao contrário das políticas orçamentais, que são continuadamente escrutinadas pelo Conselho de Finanças Públicas e pela UTAO e têm efeitos a curtíssimo prazo, à Educação baste um ministro que nos entretenha com uns toques na bola e uns cestos bem apontados, enquanto os vários cardeais da corte distribuem benesses e semeiam o descalabro que só será evidente daqui a anos.
in Público, 31/05/2017

terça-feira, 30 de maio de 2017

De hoje em diante


Como é óbvio — por todas as malfeitorias que, aqui e nas escolas, lhes tenho feito — os professores têm milhares de razões para não gostarem da minha pessoa, para não serem gentis nem solidários comigo, para desejarem ver-me a léguas e pelas costas. A esmagadora maioria (penso eu de que) gosta tanto de mim como de óleo de linhaça. É gratificante esta entrega!
Os alunos, na sua esmagadora maioria, apesar de lhes dar secas atrás de secas (e mais secas ainda e mais reprimendas e sermões…) teimam em gostar de mim (também penso eu de que). Talvez seja por ainda não terem toda a sua formação social devidamente realizada. Seja como for, a verdade que, mesmo contando com algumas pestinhas (fazem parte do ecossistema escolar), quando estou com eles sinto-me num ambiente são. E sinto que a sua linguagem corporal não mente. É por isso que procuro a sua companhia, ao ponto de lhes dedicar tanto do meu tempo livre. 
Penso que estou a fechar um ciclo de cegueira na minha vida profissional. De hoje em diante, como diz a canção, só vou gostar de quem gosta de mim!

domingo, 28 de maio de 2017

Beijos e outras coisas mais



A troca de beijos entre duas alunas, numa escola de Vagos, tem feito correr muita tinta. Contudo, creio que se tem enfatizado em demasia a eventual reação homofóbica da direção (que não nego, porque não tenho conhecimento suficiente), em detrimento da verdadeira questão: deve ou não deve ser autorizado este tipo de comportamentos no recinto escolar (entre rapazes, entre raparigas ou entre rapazes e raparigas)?
Não sei se vou parecer demasiado retrógrado aos olhos de muita gente modernaça, mas vou afirmá-lo com todas as letras bem visíveis: NÃO! Na minha maneira de ver, há muito que as escolas perderam o Norte, há muito que não há limites claros para nada: ninguém sabe muito bem o que pode ou não pode ser feito, ninguém sabe muito bem o que pode ou não pode ser dito. Uns são a favor disto, outros acham que se deve tolerar aquilo, outros não acham nada e concordam com o que der menos problemas, outros assobiam para o lado, para não serem insultados ou agredidos… Grosso modo, as escolas estão a transformar-se numa rebaldaria no que toca a atitudes e valores, o que é (afirmo-o com todas as letras) resultado direto da criminosa desautorização dos professores, que tem sido consumada pela seguinte tríade: Ministério da Educação, diretores, pais e encarregados de educação. É claro que não isento de culpas os professores, que não têm sabido ocupar e manter-se no seu legítimo lugar. Quanto mais tarde o fizerem (se o fizerem) mais e mais gravemente desrespeitados serão.
Face a esta onda de demissões e de desautorizações, os alunos vão fazendo o que lhes dá na gana, instituindo os seus próprios códigos, conquistando “direitos” (que são tortos), invadindo espaços (físicos e psicológicos): jogam à bola nos corredores (muitas vezes, com pacotes de sumo) sentam-se, aos magotes, na secretária dos auxiliares de ação educativa (prefiro este designação), invadem as salas nos intervalos, alapam os pés em qualquer lado, dizem todo o tipo de palavrões, seja diante de quem for, e… (desculpem-me o termo) andam no marmelanço, cada vez mais despreocupados com o pudor. É a balbúrdia na quinta.
Convinha relembrar que, tal como o “produto” de um circo é a diversão, tal como o “produto” de uma cantina é a alimentação, tal como o “produto” de um hospital é a saúde, o “produto” da Escola é a educação. De vez em quando, convém fazer justiça a La Palice.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Centeno Ronaldo


Inspirado por Schäuble, decidi fazer o busto de Centeno Ronaldo. 
Já tenho três ensaios e um problema: estão tão bons, que não sei qual escolher.



quinta-feira, 25 de maio de 2017

O preço do fim das retenções



Que os Justinos deste país, cujo cérebro funciona à base de algoritmos, venham a terreiro defender o fim das retenções, não me admira absolutamente nada. Para eles, é tudo uma questão de cifrões (e de coisas de gente pobre). Também já não fico muito chocado quando vejo professores titulares de disciplinas com 100% de sucesso transformados em apóstolos deste ideal. Afinal, apesar de terem, quotidianamente, os pés assentes na terra, acabam por viver (em determinados “pormaiores”) numa espécie de mundo paralelo, uma second life pedagógica. Porém, já se me escancara a boca de espanto sempre que esta moléstia se apodera da mente daqueles que lecionam as disciplinas mais “seletivas” do currículo.
Por favor, não me venham dizer que no país A e no país B a coisa funciona. Nós não estamos (em certos aspetos, infelizmente) nem no país A nem no país B, estamos no país P (Portugal), e temos alunos que são portugueses, portuguesinhos de gema, com todas as virtudes e todos os defeitos lusitanos. Por conseguinte, é com esses alunos (e respetivos encarregados de educação, que também são de cá, na sua esmagadoríssima maioria) que nós temos de trabalhar diariamente, e é para eles que temos de pensar a “coisa pedagógica”, e não para outros, que vivem noutros mundos.
Conseguem imaginar o “day after” de uma tal medida? Façamos uma suave aproximação através do presente.
Pelos vistos — olhando para as taxas insucesso — ainda estamos muito longe da tão almejada plenitude. No entanto, bastou que, por decreto, a transição passasse a regra e retenção a exceção para assistirmos ao desmoronamento geral do brio, do empenho, da ambição… Não pretendo afirmar que antes dessa reviravolta tudo era um mar de rosas. Longe disso! Todavia, o que agora se planta, quotidianamente, diante dos nossos olhos ultrapassa os nossos piores pesadelos de há quinze anos atrás: é cada vez mais assustador o número de alunos que rejeitam os apoios pedagógicos da escola, ou que os aceitam, mas só vão de vez em quando; é cada vez maior o grupo dos que não fazem os trabalhos de casa e se estão borrifando para a dita falta e respetiva comunicação ao encarregado de educação; é cada vez mais numeroso o grupo dos que não estudam absolutamente nada e quase nada registam nos cadernos diários; é escandalosamente crescente o grupo dos que acham que o seu sucesso é problema dos professores; é cada vez mais grosso o grupo dos que nada fazem nas aulas e se ocupam a perturbar o progresso dos restantes; é cada vez mais pesado o grupo daqueles que irradiam, dentro e fora da sala de aula, um grau de boçalidade absolutamente desanimador; é cada vez mais plúmbeo o pelotão dos que fazem bullying com colegas, funcionários e professores. E tudo isto acontece com a inqualificável anuência (tácita e/ou explícita) dos respetivos encarregados de educação. Portugalex no seu melhorex.
Admiro-me, pois (e muito, até ao pasmo) quando os meus olhos veem professores defenderem algo parecido com esta situação exponenciada ao cubo. Tenho várias explicações para o fenómeno, mas prefiro acreditar que estou profundamente errado e que eles é que amam verdadeiramente os seus alunos.

 Por falar em preço… o que sairá mais caro?

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Soldadinhos de chumbos




Quando um artigo sobre retenções começa com um título destes (“Porque é que os professores portugueses chumbam tantos alunos?”), para mim… está tudo dito. Até ao momento, sempre pensei que os alunos, salvo raras exceções, “chumbavam” por falta de ação (estudo) e não por serem vítimas de uma ação demasiado castradora (quiçá vingativa) dos professores. Está visto que aprenderei até à cova.
O "sucesso total" contra-ataca!

Danças da chuva



Que me perdoem os “homens e mulheres da luta”, mas certas ações sindicais fazem-me lembrar as danças da chuva. Porquê? Como é óbvio, nunca serviram (nem servirão) para fazer chover, mas sempre foram muito bem aproveitadas, por bruxos e chefes de tribo, para a gestão do descontentamento, para alimentar expectativas, desfibrilar esperanças…
Petições, inquéritos, marchas e vigílias… são danças da chuva. Para velinhas e figuras de urso, não contem comigo!

domingo, 21 de maio de 2017

O fim do feudalismo




O fundo comum aos dois textos precedentes — sobre a redução dos programas e do número de alunos por turma — foi a democratização das aprendizagens. Este centrar-se-á na aprendizagem da democracia, que tem andando muito arredada do ambiente, das decisões e das práticas diárias das escolas públicas.
Quem me conhece, sabe que assim penso ab initio, que há muito que escrevo sobre esta questão e que tais pensamentos nada têm a ver com nenhuma escola em particular, mas com a Escola em geral. Só isso justifica que o assunto seja tratado nesta janela aberta. Tenho a certeza de que muitos professores se reverão e reverão a sua escola nas linhas que se seguem.
Tenho um dogma relativamente à educação: nós ensinamos muito mais o que somos do que aquilo que sabemos. Com base nesta premissa, que tenho como absolutamente verdadeira, penso ser legítimo afirmar que, atualmente, não se ensina a democracia nas escolas. Se os professores ensinam mais aquilo que são do que o que sabem, então as nossas escolas estão a preparar para a obediência, para o pensamento único, para o medo de expressar opiniões, de fazer críticas, de ser e de agir de modo diferente… Nas nossas escolas não se respira democracia, mas apenas um simulacro, um apagado e demagógico sucedâneo.
Os diretores foram criados pela tutela para serem os senhores feudais das escolas. Nem todos saíram tão bons como a encomenda pressupunha, mas muitos saíram ainda melhores, e bem melhores. A troco de uma copa de poder e outra de alguma notoriedade, juraram tácita e (mais ou menos cega) obediência aos andares de cima. A missão é, como sempre foi, desde a sua criação, espremer os pares que moram nos andares de baixo. Desta forma, a tutela pode transferir todas as competências funcionais que muito bem entender, porque tem um poderoso e eficaz controlo remoto. Foi assim que Maria de Lurdes vergou toda a classe docente e a obrigou a engolir os mais irracionais disparates (como o das atividades letivas e não letivas). Os diretores, espremidos pela subtil, mas rija, mão da tutela, têm espremido os ex-colegas até ao tutano. E o sucesso não tem parado de subir. Os mouros dos professores cada vez trabalham mais, os alunos cada vez trabalham e respeitam menos e os resultados escolares não param de melhorar. Fórmula mágica resultante da diretoria nacional.
Apesar de tudo, prefiro os diretores que nomeiam quem podem nomear àqueles que fingem atos eleitorais genuínos, para maquilhar ainda mais o falso rosto democrático da instituição. Pelo menos, são transparentes e não obrigam os colegas a fazerem figura de tolos. Esses nomeados — ou “eleiteados” — jamais são independentes. Todos procuram conhecer previamente a vontade, a opinião ou a intenção do chefe, para dizerem ou agirem ou votarem em conformidade. Nesse sentido, os departamentos, onde já não há verdadeiro pensamento divergente que vingue (se for complacentemente ouvido já é uma riqueza) e os conselhos pedagógicos são completamente instrumentalizados pelas direções, que, aos poucos — de diversas formas e através de muitos meios — vão impondo, não apenas a organização administrativa da escola mas um determinado e bem vincado monolitismo pedagógico, em detrimento do pluralismo, da diferença e dos estilos individuais de ensinar. O modus faciendi do diretor é cada vez mais dogmático, de forma mais ou menos subtil, mas efetivamente dogmático. Os números da escola a tudo obrigam, tudo legitimam, tudo absorvem. Esses fins parece que justificam todos os meios.
Se juntarmos a estes condimentos os constrangimentos da precariedade laboral, da desautorização social e escolar dos professores, da sua progressiva insegurança (a todos os níveis), das inqualificáveis pressões vindas de todos os quadrantes, depressa se percebe que o medo se faz religião de quem ensina nas escolas. Falta saber… que cidadão e que sociedade estarão na foz deste rio turvo, que futuro professores e diretores — uns a contragosto e outros nem tanto, uns com mais outros com menos consciência — estarão a ajudar a construir.
É por isto (e muito mais) que defendo, com todos os meus genes, o fim imediato do feudalismo nas escolas, para que as estações do ano recomecem os seus intermináveis ciclos e inundem as escolas de diferença, de diversidade, de divergência, de espírito crítico, de olhares horizontais, de corpos e mentes verticais, enfim, de democracia. Todavia, penso que tal só nos será oferecido (e recusado) depois de todas as pragas se terem abatido sobre a Escola, depois de esmagadas todas as sementes do pensamento livre, depois de abatidas todas as aves, depois de erguidos todos os templos de silêncio e servidão.


Nota – Este tridente reformista é uma recuperação (com algumas alterações e aditamentos), de textos publicados no Bravio.

sábado, 20 de maio de 2017

Tudo à molhada!



O número de alunos por turma explicado a agnósticos

Quanto à vetusta e famigerada questão do número de alunos por turma, para evitar repetir apenas os lugares-comuns (inevitáveis, contudo) vou fazer a sua abordagem a jusante, começando pelo papel daqueles que, na última década, se têm progressivamente demitido da sua objeção de consciência, não apenas nesta problemática em especial, mas em praticamente tudo o que depende da sua ação.
Estes dez anos de terrorismo legislativo contra os professores instalaram e consolidaram nestes profissionais a ideia de que são trabalhadores como tantos outros e que, por isso mesmo, tal como um operário de uma fábrica de tijolos, não lhes resta senão obedecer às ordens do patrão, ainda que não concordem com elas ou que, pior ainda, saibam que são gravemente prejudiciais para aqueles que dependem da sua ação pedagógica para crescerem e conquistarem um lugar e um papel na sociedade. Não são tijolos, são seres humanos, e os professores não são meros amanuenses, são instrutores, formadores, educadores. Logo, não se podem demitir, a não ser daquilo que só individualmente lhes diz respeito. Quanto ao resto… devem ser ferozes e intransigentes guardiães.
Sei que todos os professores gostariam de trabalhar com turmas de vinte alunos, mas todos aceitam — após um breve e inconvicto torcer de nariz — trabalhar com turmas de vinte e oito, vinte e nove ou mesmo trinta alunos. Depois das ténues queixas no momento da notícia, tudo entra na mesma rotina e tudo rola. Porém, cinco alunos a mais em cada turma representam, grosso modo, mais uma turma (encapotada) por cada professor. Para além da sobrecarga de trabalho e de cansaço, há o lado do desemprego. Aceitar “de bom grado” essa circunstância é colaborar tacitamente com o aumento do desemprego docente. Cada quatro ou cinco professores com uma mão cheia de alunos a mais em cada uma das suas turmas estão a condenar outro professor ao desemprego. Todavia, esta não é a consequência mais grave da autoanulação da vontade docente. Antes fosse!
Com mais cinco (ou, em muitos casos, mais dez) alunos por turma… Simplifiquemos, porque toda a gente (que está ou já passou pela escola) conhece muito bem este microssistema que é a sala de aula: aumenta acentuadamente tudo o que é negativo e diminui drasticamente tudo o que é positivo. O tempo que o professor tem para cada aluno não diminui de forma proporcional — porque em educação as coisas não são assim —, diminui de forma exponencial. O tempo de que o professor pode dispor para mandar fazer e corrigir trabalhos dos alunos (tarefa preciosa) também se esfuma. Tudo se resume, cada vez mais, ao ritual expositivo e sumativo. Há que desconfiar daqueles que trabalham sempre bem de todas as maneiras e feitios, que conseguem fazer sempre tudo e mais alguma coisa, seja em qua circunstâncias for, seja com quantos alunos for… Há que desconfiar daqueles falsos conselheiros que dizem que reduzir o número de alunos por turma só aumenta a despesa pública, sem compensação pedagógica substantiva.
Reduzir o número de alunos por turma — mesmo para aqueles que dizem trabalham bem com batalhões — é devolver a cada aluno o tempo a que tem direito, a atenção e a disponibilidade (física, mental e emocional) do professor, a serenidade necessária a um efetivo ambiente de aprendizagem, dentro e fora da sala de aula, porque com menos alunos o professor também pode dedicar, no trabalho caseiro, mais atenção a cada discente. Quem disser o contrário está a mentir.
Reduzir o número de alunos por turma é tornar a escola mais democrática, porque proporciona mais possibilidades de sucesso aos mais desfavorecidos, aos mais desapoiados. Reduzir o número de alunos por turma é, pois, não uma mera questão de diminuição do fardo laboral dos docentes, mas um imperativo democrático.

Com programas menos constrangedores da melhor aprendizagem e com menos alunos por turma, estaremos, sem dúvida alguma, mais próximos de ter uma ESCOLA que é realmente de todos e para todos, uma escola que “desabisma”, que aproxima, que semeia esperança e expectativas legítimas em todos os seus botões. 

Programas ao corte, já!!!




A Escola Pública está saturada de experimentalismos, de alquimias vindas de idealizações nefelibatas com pressa de se tornarem reais (não resulta, João Costa!). As novas “reformas” hão de ser discretas, paulatinas, cirúrgicas e… nascidas do chão, do nosso chão.
Não haverá verdadeira “reforma” da Escola (penso essencialmente no ensino básico), se não for significativamente reduzida a estupidificante extensão dos programas. Se pretendemos mais qualidade (das aprendizagens, das competências…), então temos que cortar na quantidade, que é, de facto, o grande estorvilho do ensino. Está — não sei se inconscientemente, se dolosamente — ao serviço da reprodução de uma determinada estratificação social, retardando, ou contrariando mesmo, o papel da Escola na redução das desigualdades sociais, obstando assim também à verdadeira democratização da sociedade.
Os programas extensos são os piores inimigos dos professores e dos alunos, sobretudo dos oriundos das classes e dos meios mais desfavorecidos. Para os cumprirem, os docentes têm de impor um ritmo violento nas suas aulas. Não há tempo para as questões dos alunos, não há tempo para a devida consolidação de conhecimentos/competências e sua transferência para novas situações; não há tempo para os trabalhos práticos na aula. Quando os alunos estão no ponto de aprender de facto, ou seja, de aspirar a mais do que os dois primeiros patamares da escala taxonómica da aprendizagem, já o professor — ansioso e stressado que nem o coelho da história da Alice no País das Maravilhas — está a apressar toda a sua didática para tentar cumprir a sacrossanta planificação, já feita a contragosto, com a ideia de que é completamente irreal e injusta. Mas… há que cumprir ordens.
Os atuais programas de ensino estão concebidos para não darem o devido tempo a ninguém. Por isso mesmo, podemos dizer que, grosso modo, foram talhados para cumprirem cabalmente dois objetivos (o do conhecimento e o da compreensão) e, deficientemente, um terceiro (o da aplicação). A partir daí… não há absolutamente tempo nenhum para absolutamente mais nada. Tudo o que vá para além da reprodução, da identificação, da explicação… é o cabo dos trabalhos. Não há tempo para produzir os diferentes tipos de texto que se aprende a reconhecer, não há tempo para fazer novos problemas, em quantidade e diversidade suficientes, não há tempo para as devidas experiências, não há tempo para os necessários trabalhos efetivos de pesquisa… Enfim, estes programas roubam a todos os intervenientes no processo didático aquele que é o tutano da aprendizagem: o tempo (para praticar, para produzir para errar, para corrigir, para alicerçar…). Quando é generoso, confere ao processo de ensino a milagrosa e imprescindível serenidade; quando é somítico, amaldiçoa e envenena a sala de aula.
Escusado será dizer que estes programas pantagruélicos penalizam sobretudo os mais pobres, os alunos que menos apoio têm em casa e que não têm dinheiro o pagar. Se não vivêssemos num mundo justo, até poderíamos pensar que são propositadamente engendrados para serem assim e para produzirem os (d)efeitos que produzem. É claro que todos os alunos acabam por ser prejudicados, pois passam por um sistema de ensino que privilegia a quantidade superficial em detrimento da qualidade e do aprofundamento das aprendizagens. No entanto, os que têm melhores bastidores continuam a ser os que menos razões têm para se queixarem. A concorrência acaba por ser diminuta e o meio familiar vai complementado e enriquecendo o que for necessário.
Haverá real necessidade de transmitir tantos e tantos e tantos conteúdos aos alunos? Serão todos assim tão imprescindíveis, que seja necessário abdicar de melhores aprendizagens em prol da sua exuberância quantitativa? A sociedade beneficia mais com esta conceção maximalista dos programas? O mundo profissional exige-a? Ou será que pela outra via teríamos alunos mais capazes, uma escola melhor e uma sociedade um pouco mais justa e mais democrática?

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Eduquês de Pombal



Flexibilização, municipalização, regime de (com)gestão e... autonomia das escolas.

Amazing!

Reformas "passe-vite"


E lá andamos nós, novamente, às voltas com mais uma reforma vinda das alturas teóricas, inconsistente com a realidade escolar, ou seja, mais uma reforma… de papel, que ficará no papel, sem cumprir o seu papel, apesar da “flexigurança” que ostenta no brasão. Toda a gente sabe que a ginástica vai toda no sentido da passagem a granel. Mau caminho!
A sociedade, os últimos ministros desta pasta e muitos pais e encarregados de educação têm dado imensas esmolas para o peditório da desautorização dos professores. Esta (levada até ao cúmulo do ridículo) tem produzido as piores consequências na sala de aula, com prejuízos graves para os alunos: diminuição drástica do tempo letivo útil, crescente falta de respeito, desconcentração generalizada, desinteresse, pouca ambição, sentimento de impunidade… Paralelamente (e paradoxalmente), o que se diz que se pretende que os catraios aprendam não para de crescer. Chamemos-lhes programas, chamemos-lhes metas, chamemos-lhes competências, chamemos-lhes conhecimentos… chamemos-lhes o que quisermos, a verdade é que engordam de modo inversamente proporcional ao tempo útil de cada aula. Como se tal não bastasse, de todos os lados, aumentam as vozes que exigem, cada vez mais, que os professores se desenrasquem neste turbilhão, neste desnorteado vórtice. E ai deles, se não cumprirem o programa! Ai deles, se não souberem lidar com todas as diversidades e todas as adversidades! Ai deles, se não levarem o “sucesso” a beijar os três dígitos! Ai deles — diz-se agora —, se marcarem trabalhos de casa! Ai deles — parece querer dizer agora João Costa — se não baixarem a fasquia até à altura (ou baixeza) que os alunos pretenderem saltar!
Querem realmente fazer uma escola melhor? Querem mesmo? A sério? Então, em primeiro lugar, deixem-se de imitações ocas, de importações postiças, de reformas passe-vite. Nós somos latinos e temos uma História completamente diferente. Comecem por dignificar os professores, não os desautorizem, devolvam-lhes, de facto, a presunção de verdade (refiro-me, neste particular, a políticos e a encarregados de educação). Concomitantemente, queiram tomar as seguintes decisões, no ensino básico (agora, só para políticos verdadeiros): não permitam que as escolas tenham mais turmas do que salas; emagreçam o currículo, de modo a que as crianças só tenham aulas de manhã; emagreçam também os programas, devolvendo ao ensino e à aprendizagem o precioso tempo da aplicação, da consolidação, da exercitação, da expansão… (a qualidade significativa em vez da quantidade superficial e efémera); devolvam às crianças o tempo (suficiente) de recreio livre após o almoço (aulas nessa hora é… contranatura); depois dessa oxigenação do corpo e da alma, encaminhem-nas diferentes ofertas pedagógicas livres de avaliações (clubes, núcleos disto e daquilo, projetos…); finalmente, façam-nos regressar às respetivas salas, onde farão os trabalhos, já não de casa, mas de escola, sob a supervisão dos professores. Assim, todos os alunos terão “pais” com formação superior. Entendem-me, não é verdade?
Ganhará a escola, ganhará a família, ganhará a sociedade. Mas quem mais ganhará, de facto, são os que agora perdem e se perdem com tão exuberante desorientação.

Nos próximos  artigos, esmiuçarei três destes pilares, explorando as suas consequências pedagógicas: redução dos programas; redução do número de alunos por turma; fim deste regime ditatorial de gestão.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Professor Sísifo e Professor Apolo



INCURSÃO NUMA LOJA DE CRISTAIS

Dois professores com a mesmíssima situação profissional (tempo de serviço igual, horário igual, em número de horas letivas e não letivas, escalão, índice e salário iguais, turmas semelhantes, a mesma escola…) podem, de facto, viver o seu quotidiano como se tudo fosse radicalmente diferente, a tal ponto que se torna pertinente afirmar que podem viver em dois mundos distintos. Basta, para tal, lecionarem diferentes disciplinas (certas disciplinas, que não vou discriminar, porque não quero partir já todos os cristais).
Sob um quieto oceano de igualdades, há um vulcânico fundo desigual e profundamente injusto. As exigências, a pressão profissional e social, o escrutínio da atividade, a avaliação (formal e informal) do desempenho, as necessidades de atualização, o tempo necessário à preparação das aulas e correção dos testes, as perspetivas de sucesso insucesso dos alunos e as suas repercussões na sala de aula, os diversos apoios educativos, o cansaço, a saturação… Enfim, um extenso rol de gritantes disparidades. É bem possível que, no imaginário de dois professores, a representação da escola possa ser uma perfeita antítese, senão um paradoxo. O número de horas reais de trabalho semanal de um e de outro pode ser um... "disparate".
Muitas destas assimetrias podem (e devem) ser atenuadas na escola, com boa vontade, com sentido de justiça e de solidariedade (espécies em vias de extinção). No entanto, a sua correção (que nunca poderá ser total) só pode ser realizada pela tutela, que nada fará enquanto o charco se mantiver quedo e conformado. 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Até quando?


Já vou tendo estômago para me aguentar diante de quem faz, contrariado, coisas que não gosta de fazer, que não é obrigado a fazer, que sabe que não produzem os propalados resultados… mas que o boss quer, porque quer, porque gosta, porque comprou um qualquer prêt-à-porter pedagógico… Mergulho numa realidade paralela e… acelero o tempo e fragmento o espaço. Contudo, este escudo (ainda) não me protege contra todas as situações. Há sempre alguém que consegue dobrar os horizontes: bendizendo, tecendo os mais hiperbólicos encómios à coisa que fez nas circunstâncias acima descritas.
Quando era rapazote, vomitava sempre que viajava nos machimbombos que faziam a carreira entre Chaves e Mirandela. Só o vislumbre do bilhete já me eriçava a pele e o cabelo. Um dia, contudo, com muita tenacidade — dentes cerrados, mente projetada noutra dimensão — lá me aguentei. Quando pus os pés em terra firme, embora um pouquito enjoado, estava contente, pois tinha acabado de realizar uma gorda proeza. No entanto, quando contornava o autocarro para ir buscar a mala ao outro lado, vi uma mulher a vomitar. Ora porra! Não me segurei, como é óbvio! 

Foi bonita a festa, pá!

1. Ganhámos dois santos, recebemos o Papa, celebrámos o tetra e temos a Europa a cantar em português. A economia cresceu 2,8% no primeiro trimestre deste ano, face ao mesmo período do ano passado, e o desemprego desceu. Graças à “geringonça”, Portugal é outro e os portugueses sorriem. Jacinta, Francisco e Bergoglio, na onda sacra, Rui Vitória e Sobral na terrena, sopraram as vaquinhas que voam com a magia de António Costa. Só a da Educação tem pés de chumbo e traseiro grudado ao chão.
2. Na minha última crónica, escrita a 2 de Maio, referi estarem produzidas milhares de páginas com o que o secretário de Estado da Educação iria concluir depois de feitas as provas de aferição. Ele deu-me razão, nesse mesmo dia, ao anunciar, sem sequer esperar pelos resultados, decisões que obviamente já estavam tomadas sobre o respectivo currículo. Exagerei ao qualificar de imbecil toda esta encenação?
A demagogia continuou, logo a seguir, em entrevista à Visão. Perorando sobre processos pedagógicos, como se nada tivesse acontecido antes de ele nascer, vestiu com roupagens que diz novas manequins velhos. Cansa, por estafado, o rufar dos tambores da inovação e da escola do futuro. Mas, sobretudo, lamento que se insinue como constatação da ciência o que se resume a ideologia que falhou. Se ao discurso retirarmos a retórica cativante, sobra a evidência de quão grande é a ignorância da realidade.
Em contraponto, a Direcção-Geral de Estatística da Educação e Ciência fez uma excelente análise sobre os resultados dos alunos do 2º ciclo do básico das escolas públicas do continente. Referem-se os dados a 2014-15 e às disciplinas obrigatórias. O estudo expõe uma correlação clara, regular e intensa, entre as reprovações e a condição económica dos alunos, um fosso enorme entre quem é remediado ou rico e quem é pobre. A maior percentagem de negativas diz respeito ao universo dos que são beneficiários da Acção Social Escolar (aqueles que pertencem a agregados familiares com rendimentos iguais ou inferiores ao salário mínimo). E dentro destes, os do escalão A (os mais pobres) reprovam mais que os do escalão B (os menos pobres).
E que disse nas entrelinhas (Diário de Notícias de 8.5.17) o ministro Tiago, torturando o óbvio com eufemismos de carpinteiro de toscos? Que como a reprovação não funciona, a brigada das competências e da flexibilização já está no terreno a criar um sistema a duas velocidades, para que passem todos: conteúdos “flexíveis”, expurgados do que é difícil, para os pobres e conteúdos “regulares” para os outros. Ou não fosse este PS no rasto do outro, de que não se libertou em matéria de Educação.
3. Poderá chegar a 100 mil o número de trabalhadores precários do Estado, a quem se aplicará o programa de regularização de vínculos. O programa foi alargado aos que beneficiavam já de processos próprios de vinculação, com excepção, apenas, dos professores do básico e secundário. São cerca de 20 mil discriminados, particularmente depois da decisão que beneficiou 16 mil investigadores e professores do ensino superior, que não eram inicialmente elegíveis. O argumento de terem sido objecto de um concurso extraordinário não colhe para explicar a exclusão, porque não foi usado para outos grupos com processos próprios de vinculação. E menos colhe se tivermos em conta que nesse concurso se exigiam 4.380 dias de tempo de serviço e cinco contratos a termo nos últimos seis anos, coisa que não vai ser exigida a precários de outras áreas.
O regime que agora arrancou procura corrigir abusos que sempre denunciei no que toca aos professores. Mas isso não me impede de reconhecer a dificuldade de o conciliar com o artigo 47º, nº 2, da Constituição da República Portuguesa, que estipula “condições de igualdade e liberdade, em regra por via de concurso”, para acesso à função pública. Finalmente, se o Governo dificilmente se eximiria à acusação de motivações eleitoralistas, ampliou o espaço à suspeita quando permitiu que os sindicatos tivessem no processo de apreciação das candidaturas o papel activo que conseguiram.
In “Público” de 17.5.17


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Limites da gratuitidade do ensino


Como hoje estou sem grande pachorra para escrever — a escrita literária deixa-me exausto — vou direto ao assunto: concordo totalmente com a gratuitidade do ensino obrigatório. Contudo, acho que deve ter limites (como tudo na vida). Que limites?
Poderia enunciar alguns campos (fá-lo-ei quando sair desta ressaca lírica), mas vou cingir-me a um que considero absolutamente fulcral: entendo que certas retenções deveriam ser pagas, não pelo Estado, ou seja, por todos os contribuintes, mas pelos seus (ir)responsáveis. Não me crucifiquem já nos dogmas instalados, que eu explico tudo direitinho.
Quando fica claro que um determinado aluno não está em condições de transitar para o ano seguinte (vou usar o registo de língua mais expressivo) porque se baldou completamente para a escola (há tantos nesta situação!), penso que o respetivo encarregado de educação deveria custear (total ou parcialmente; imediatamente ou a prazo; com pagamento de propinas ou através de descontos ou supressão de subsídios...) os encargos da retenção.
Gratuitidade não casa bem com desprezo nem com irresponsabilidade. Por outro lado, não é justo que, à sua maneira, sejam sempre os professores a carregar todo o fardo do sucesso. Já fazem muito mais do que a sua obrigação. É tempo de “a outra parte” cumprir realmente o seu papel: garantir a assiduidade; garantir o respeito pela escola e seus profissionais; garantir o cumprimento do dever de estudar, segundo as recomendações dos professores.
Este caminho é, creio eu, uma alternativa mais digna (e mais democrática) ao da transição total e de qualquer maneira (seja qual for o dourado invólucro da coisa). Esse, sim, é que é injusto, porque pagamos todos a incúria de alguns, e antidemocrático, porque engana quem transita sem as devidas competências. 

É só treta




sábado, 13 de maio de 2017

Flexibilização – A nova corrente pedagógica




Embora não seja o seu verdadeiro progenitor — nasceu do cruzamento de Lurdes Rodrigues com Valter Lemos — João Costa tem o mérito de ser o pároco que batizou a nova corrente pedagógica, com selo made in Portugal.
De facto há mais ou menos uma década que assistimos, nas nossas escolas, a evidentes e irrefutáveis manifestações desta miraculosa inspiração: flexibilização da relação professor/alunos; flexibilização da postura e das normas comportamentais; flexibilização do admissível e do inadmissível nas salas de aula e nos restantes espaços escolares; flexibilização do respeito pelo professor; flexibilização do exercício da disciplina; flexibilização dos critérios de avaliação; flexibilização da exigência… Todavia, não pense o leitor que esta nova coqueluche se limita ao foro estritamente pedagógico. Nada disso! Tem, aliás, muitos créditos a exibir no domínio da gestão intermédia: flexibilização da natureza intrínseca e papel dos coordenadores e subcoordenadores; flexibilização da natureza e papel dos conselhos pedagógicos; flexibilização do horário de trabalho; flexibilização dos conceitos de serviço letivo e não letivo; flexibilização do que é docente e não docente; flexibilização dos espaços escola e casa; flexibilização dos sufrágios eleitorais; flexibilização das noções de representação e de democracia… Numa só expressão, para que fique bem claro: FLEXIBILIZAÇÃO DOS PROFESSORES.
Não há fim das retenções nem “sucesso total” (nem a poupança imediata daí resultante) sem uma boa e prolongada flexibilização dos professores, os únicos que têm personalidade elástica, santa capacidade de sofrimento e jogo de cintura sem fim. Mas tal perfeição só pode ser alcançada com um sargento duro na garupa. É por isso que João Costa, o democrata, não abre mão dos diretores. Eles são o elixir da flexibilização.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Três feridas




Se fosse uma questão de aprendizagem do que é conveniente, há muito que eu seria um frio calculista. Porém, não está na minha natureza. Chegado o momento, solta-se-me o lobo: são os meus genes que atuam. As consequências… ficam para depois.
Hoje, estimado leitor, partilho contigo três feridas (de lutas “que não eram minhas”), na esperança de que tu possas responder a uma pergunta final.

Primeira
Há alguns anos, durante a realização de um teste intermédio (o último da sua espécie), numerosos alunos da minha direção de turma, depois de terem concluído a primeira parte da prova relativamente cedo, não conseguiram manter-se calados e quietos no seu lugarzinho. Em vez da única atitude admissível nessa situação, desataram a falar uns com os outros, começaram a pressionar os colegas que ainda estavam a trabalhar, pensando que assim poderiam iniciar a segunda parte mais cedo. Ignoraram as ordens que a professora vigilante lhes foi dando, de tal modo que esta se viu obrigada a chamar a docente da disciplina. E só então, pelos vistos, tudo regressou à normalidade.
Uma semana depois destas ocorrências, a professora da disciplina em questão, pensando que eu já estava informado, acabou por me fazer esta revelação na sala de professores, prometendo abrir um breve inquérito para apurar os responsáveis por aquele incidente. Furibundo, disse-lhe que dispensava inquéritos. Bastar-me-ia perguntar aos alunos. Tinha a certeza absoluta de que os infratores iriam retratar-se. E foi o que aconteceu: apenas um não se assumiu, mas não ficou impune. Bem pelo contrário.
Depois do inevitável “sermão”, redigi uma repreensão registada a todos os envolvidos  (porque não havia antecedentes), com um agravo para aquele que teve o “estômago” de ficar na sombra enquanto todos os restantes “davam a cara”. Para além deste procedimento mais institucional, cancelei a minha presença no jantar de despedida do 9.º ano, num restaurante da cidade, agendado para o último dia de aulas. Quis mostrar-lhes como estava desapontado com o seu comportamento. Seria a minha última lição de formação cívica.
Não fui ao jantar, mas os alunos não ficaram sós: outros docentes do conselho de turma marcaram presença. Entre eles, estavam as professoras citadas neste relato.

Segunda
Foi feita dois anos depois.
Na sala de estudo, um aluno persistia numa postura de perturbação e de falta de respeito relativamente a duas professoras que me acompanhavam nessa “ambígua” hora de trabalho não letivo.
Cansado de assistir àquele folhetim, dirigi-me ao aluno e avisei-o de que o poria ao fresco, caso reincidisse. Não foi preciso muito tempo.
Na semana seguinte, tive de faltar àquela prazerosa missão, mas soube quão bem o rapaz se comportara e as palermices que dissera durante os “quatro mil e quinhentos” minutos em que permaneceu no “seu circo”.
Sete dias volvidos, voltámos a encontrar-nos debaixo do mesmo teto didático. À cautela, as minhas colegas apressaram-se a dar apoio aos alunos que estavam no setor da sala onde ele se encontrava, na tentativa de evitarem mais uma “medida cautelar”. Eu estava no lado oposto, a acompanhar outros discentes. Só que o catraio não percebeu e desatou a falar para as professoras de uma forma absolutamente boçal. Fiz o que tinha a fazer, e disse ao aluno (e não só) que não queria voltar a vê-lo naquela sala. Como havia mais salas e mais horários destinados ao efeito, que “fosse pregar a outra freguesia”.
O rapaz ainda tentou, na semana seguinte, lançar o barro à parede, a ver se colava, mas deu-se mal. As minhas colegas (aquelas que ele, supostamente, ofendera) arranjaram maneira de o atender noutra hora.

Terceira
É conhecida. Passou-se no presente ano letivo e está na origem da minha saída da escola onde (ainda) estou efetivo. Ainda não cicatrizou.
Dois encarregados de educação, depois de serem atendidos pela diretora de turma, decidiram atropelar as regras da escola e foram à sala de aula agredir violentamente a professora do seu filho (5.º ano), diante dos alunos. Nesse mesmo dia, como havia a reunião semanal dos grupos disciplinares, fui, de sala em sala, propor aos meus colegas um dia de greve de zelo, como forma de protesto. Iríamos à escola, cumpriríamos o horário, mas não daríamos aulas. Tínhamos de deixar bem claro que tais limites jamais podem ser ultrapassados. A comunidade escolar e a comunidade educativa deviam refletir sobre a gravidade do ato e demarcar-se claramente dessa inadmissível maneira de estar em sociedade.
A concordância roçou a unanimidade. Contudo, o abaixo-assinado, que eu próprio redigi, só foi subscrito (numa sexta-feira) por 39 docentes, devidamente esclarecidos sobre a mais que provável  possibilidade de todos averbarmos uma falta injustificada. Porém, nesse mesmo dia e nos dois que se seguiram, as tutelas da escola escreveram e-mails e fizeram telefonemas, que davam como certa a tal falta injustificada e profetizavam muitos males para a escola, na sequência da ação que estava prevista para a segunda-feira seguinte. Só recebi o telefonema que trazia a aquilo que eu já sabia sobre a sorte da falta. Os e-mails (o afetuoso, o apocalíptico e outro) não me foram dirigidos.
No dia D, a greve de zelo só teve dois protagonistas: eu e uma colega (conterrânea, por acaso, ou não). Só soube alguns dias mais tarde (também por acaso) que tinha havido a tal correspondência apocalíptica, na qual, de forma muito subtil, se relacionava a minha ação com a provável “derrocada” do prestígio da escola. Fiquei furioso (com quem teve o despudor de fazer tal insinuação e com quem desistiu da ação de protesto depois de ler aquele pérfido argumentário)! Só agora concorri, mas a minha saída da escola aconteceu, efetivamente, naquele momento revelador.

Estes exemplos parecem dar razão àqueles que fingem não ver, que assobiam para o lado, que têm estômago para não sofrerem para além do seu umbigo, para os apóstolos da assertividade conveniente, para os que vendem o egoísmo e cobardia como manifestações de inteligência. Porém, não é essa a minha “religião”. É por isso que, sempre que as circunstâncias apelarem ao meu instinto, voltarei a mostrar quem realmente sou. As consequências? São o preço de fazer o que dever ser feito. O encolhimento sai muito mais caro (e a todos) mas não dói tanto, porque é pago em suaves prestações.
Qual das posturas mais prejudicará o ensino, a autoridade e o estatuto dos professores?

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Três pastorinhos



Já é quase uma tradição eu fazer esta benigna brincadeira com os três pastorinhos, nos arrabaldes do 13 de maio. Desta vez, nem sei muito bem por que motivo juntei estas três figuras. Foi mera intuição. Às tantas partilham uma certa e determinada visão que eu ainda não descortinei. 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Eramá no Facebook




Regressei ao Facebook, após quase quatro anos de ausência. Todavia, este meu regresso nada tem de pessoal. Trata-se de um braço do Eramá, para que as minhas asneiras cheguem a mais vítimas.
Não estranhem, pois, se receberem uma indecente proposta de “amizade” (é a terminologia do Face). Aceito “tampos”, com toda a naturalidade, mas reajo muito mal àquelas denúncias de abuso que por lá se fazem. Porquê? Porque, num mundo atolado de invejas, ódios e guerras, não pode haver moralidade que justifique denúncias de amizades (e muito menos de amores). Como responderei, para reagir mal? Nada de especial: ficarei a “curtir a fossa”.

Também aceito “pedidos” (de leitores com tendências masoquistas), aos quais, em coerência com o que acabei de dizer, franquearei as minhas portas. 

terça-feira, 9 de maio de 2017

Amar pelos dois

Gosto muito!

Depressão programada



Tal como aqui em Portugal, na minada área da Educação, também por terras gaulesas, em 2007, na France Telecom, se deu início a uma impiedosa investida que, em menos de quatro anos, levou 58 funcionários ao suicídio. É morbidamente curiosa a coincidência, temporal e não só, com o que sucedeu em Portugal.
Pressionadas pela concorrência, as chefias da empresa decidiram que era necessário despedir 22 000 funcionários. Nos bastidores, foi traçado um autêntico plano de “guerra” (é citação), foram feitos estágios de formação para inculcar nos seus diretores regionais, e em muitos quadros superiores, uma mentalidade de guerrilha que os tornasse capazes de levar muitos dos seus subordinados à depressão, à demissão, à reforma antecipada. Chegaram mesmo a ser compensados pelo número de funcionários que conseguiam colocar fora de portas. O equivalente aos nossos tão familiares conceitos de “mobilidade interna” e “ mobilidade externa” foi posto em prática como alavanca de todo este maquiavélico processo. Numa fase mais adiantada, foi pedido a esses responsáveis que fossem comunicando superiormente o número de funcionários que iam progredindo na escala da “depressão programada” e a fase em que cada um se encontrava. Para tal, todos tinham o gráfico que a figura ilustra — “Fases do Luto” —, que está na génese desta dolosa atrocidade:
1.    Anúncio da mudança drástica;
2.    Recusa de compreender;
3.    Resistência;
4.    Descompressão;
5.    Resignação;
6.    Integração do funcionário.
Aos gestores foram feitos os seguintes alertas: na fase 3, “o funcionário pode dedicar-se a praticar atos de sabotagem”; na fase 4, ele “vai cair no desespero e na depressão”.
Neste ponto, foi-lhes dito que deveriam fazer compreender aos seus subalternos que as necessidades da empresa justificavam toda aquela reestruturação e que eles a deveriam aceitar pacificamente (“resignação”, seguida da incorporação da mudança).
Teremos uma perceção mais correta das atrocidades laborais cometidas, se sobrevoarmos, à vol d’oiseau, o pátio dos terrores. Eis algumas citações de frases ditas e escritas pelos intervenientes — opressores e oprimidos — em todo o kafkiano processo de terrorismo profissional e psicológico instalado na France Telecom (Plano Next), uma sangria que me parece a cara chapada dos impiedosos ataques que o nosso ME também então perpetrou e que ainda cessaram:

1- SOBREVOANDO:
- «Incitaremos os funcionários a demitirem-se.»;
- «Mudá-los-emos para outros setores da função pública.»;
 - «Assinaremos licenças de fim de carreira.»;
- «Aviso-te, aqui não há microfones nem câmaras. Estou mandatado ao mais alto nível para te dizer que não podes esperar mais nada da empresa. Faremos tudo para que partas, senão vamos destruir-te!»;
- «Aviso-vos: as coisas vão mudar! Eu venho apresentar-vos a minha nova equipa. Ela vai atuar num registo que vós desconheceis: vai ser ”O Bom, o Mau e o Vilão”!»;
- «Vamos fazer-lhes compreender que a empresa está em guerra e que em todas as guerras há mortos. E que mudar e aceitar a mudança faz parte da vida!»;
- «Culpabilizado, o colaborador tomará ele mesmo a melhor decisão: demitir-se.».


2- POISANDO NO PÁTIO DOS TERRORES:
- «No open space, começamos a olhar de lado uns para os outros. Formam-se grupos. Falamos menos na cantina.»;
- «Aconselham-me a fixar objetivos inatingíveis, para dizer ao colega: “Lamento, mas não podemos continuar contigo…”»;
- «Stéphane, discreto engenheiro de uma equipa comercial, começou a dirigir, de um momento para o outro, o Rodolphe, que era seu superior na véspera.»;
- «Thierry, um quadro que recusou a promoção que lhe propuseram, foi despromovido e colocado às ordens de um dos seus subalternos.»;
- «O Philipe agora põe e dispõe dos funcionários como entende.”;
- «Nunca imaginei que éreis capazes de uma tal canalhice. Sois canalhas, mas ganhastes: não quero voltar a ver-vos. Não quero voltar a trabalhar com gente da vossa igualha!».


Em Portugal, a “guerrilha educativa” seguiu trilhos muito similares. Os sucessivos cortes nos direitos adquiridos dos professores — afetando sobretudo aqueles que se encontravam nos últimos escalões, próximos da reforma — não visaram apenas a redução da despesa pública. Os nossos reformistas de antanho sempre quiseram a “massa crítica”, a memória, o grupo mais dotado de personalidade docente, fora do seu caminho, para, aos poucos, ter nas escolas um exército de assalariados com vínculo precário, neófitos desta nova ordem hostil ao livre pensamento e à reflexão independente: os implementadores acríticos, os servos remadores de um economicismo pindérico, classista, sequioso de poder e de controlo. Estamos no fim de uma era: a dos professores.
A diarreia legislativa que atolou as escolas, sobretudo na era de Lurdes Rodrigues e Walter Lemos; a humilhação dos professores mais experientes, submetendo-os à observação de aulas, à avaliação feita por colegas mais novos; os frenéticos e drásticos ritmos de mudança; a escassíssima vigência dos normativos legais; os prazos cada vez mais somíticos; a enxurrada burocrática; a proletarização e exploração dos docentes, colocando-os a fazer tarefas dantes realizadas pelo pessoal auxiliar; a redução drástica da componente de trabalho individual e o consequente aumento da dita componente não letiva de estabelecimento, onde cabem muitas horas efetivamente letivas… tudo estava previamente pensado, estrategicamente delineado para que os professores mais experientes, aqueles que qualquer país civilizado veneraria, se sentissem mal, pessimamente, a mais neste hediondo sistema, indesejados e escouceados pela entidade patronal.
Eu permaneço amarrado, exilado, proscrito, na fase 3. Estou condenado a errar de escola em escola até ser, enfim, vomitado pelo sistema, a meados da minha sexta década de vida. Nem entro em depressão, nem em descompressão e muito menos em resignação. Aqueles que fizeram esse percurso (sobretudo os que nele passaram com distinção) hão de continuar a amaldiçoar-me, a maldizer-me, a difamar-me e a perseguir-me nos próximos dez anos. Deus lhes dê paciência e saúde, porque será nessa afronta que eu beberei a energia necessária à minha constante necessidade de afirmação, de crescimento e de aperfeiçoamento. Só lhes peço um pequeno favor: por minha causa, não ignorem as (pequenas) proezas dos meus alunos nem os atinjam, para me atingirem também a mim. Essas canalhices nem o Diabo aprecia!

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Ainda está para vir!


Ainda está para vir o ministro da Educação que a Escola merece: alguém que confie realmente nos professores, que os respeite e admire; alguém que preze a verdadeira autonomia; alguém que perceba que o tempo das grandes reformas acabou, que estamos na era do reajustamento constante, mas subtil e paulatino; alguém que, finalmente, não tenha a pombalina tentação de deixar uma pirâmide na História.
Sempre que vejo algo, vindo lá de cima (ou dos lados), intitulado “Plano Disto” ou “Plano Daquilo” fico logo esclarecido: é talha dourada para alguém ficar mais luzente na galeria histórica da Educação. Acredito mais nas coisas sem reclamos luminosos, as que surgem no dia a dia como naturais, sem apóstolos nem cruzados, sem fundamentalismos nem gráficos percentuais, sem cartilhas nem ortodoxias, sem oficialismos, nem imposições nem limitações. Foi o que aconteceu com o Plano Nacional de Leitura, transformado numa lista de interesses, e foi o que aconteceu (mas a um nível muito mais… censurável) com o dito Plano Nacional de Promoção do Sucesso Escolar (PNPSE), cuja progenitura não consigo identificar corretamente. Apenas sei que Tiago Rodrigues assumiu a adoção. Contudo, andam por ali genes de João Costa, de José Verdasca e dos avozinhos do Projeto Fénix. Finalmente, após dois séculos e meio de escola pública, alguém descobriu qual a sua verdadeira essência: a promoção do sucesso escolar. O que seria das escolas sem esta luz? O que seria de nós, professores, sem um plano tão orientador da nossa ação quotidiana? Vomitaríamos, por certo, enciclopédias nas aulas, e atolaríamos os alunos nessa viscosa gosma de conhecimento infecundo.
Para além de recentrarem as escolas e os professores na sua mais nobre missão, os planos estratégicos de promoção do sucesso escolar têm ainda uma outra virtude, que não deve negligenciada: surgiram mesmo da mais verdadeira e mais genuína autonomia e da mais emancipada idoneidade pedagógica das escolas e dos seus profissionais: ninguém andou, por esse país abaixo e acima, a endrominar diretores e titulares de cargos de gestão intermédia das escolas; ninguém andou por aí, com uma tábua de mandamentos, a ditar o que deveria constar em todos (como fez Salazar com as frases que todos os manuais deveriam ter); ninguém andou por aí a passar atestados de menoridade mental a todos. Foi a mais pura essência da autonomia que estrelou, prevaleceu, vingou e se plasmou nos planos que as escolas lavraram. E fez-se luz, e fez-se sinergia, e fez-se telepatia pedagógica: todos os crentes, em todos os lugares, mesmo nos mais recônditos, descobriram a luz da salvação: falta de supervisão pedagógica (que, agora, já se travestiu: “intervisão pedagógica”). Se pudesse ser com voyeurismo pedagógico… muito melhor!
Resumindo e concluindo: o “lurdismo” ainda está bem vivo e recomenta-se; as escolas continuam a perder autonomia, em proporção inversa à sua anunciação; os diretores continuam a ser instrumentalizados e a instrumentalizarem os seus ex-colegas; os professores continuam a ser tratados como incompetentes e verdadeiras molas do insucesso; os professores continuam a ser espremidos até ao tutano da energia e da dignidade. Os ministros e sus muchachos continuam a ser presunçosos ao ponto de acharem que alguns livros lidos, algumas cadeiras feitas e lecionadas na universidade lhes permitem desprezar quem tento leu, quem tantos ministros conheceu, quem tantos alunos ensinou e educou… ao longo de uma, duas, três e quatro décadas.
É simples: ainda está para vir um ministro que saiba realmente da poda (ou que queira combater o verdadeiro insucesso).