sexta-feira, 30 de junho de 2017

LO-FI MODA

Capa do álbum "Lo-Fi Moda", Ermo

É o título do novo álbum dos Ermo, editado pela Valentim de Carvalho. Foi, hoje mesmo, posto à venda em todo o país.
Um dia, há um pequeno punhado de anos, “vindo quase do nada”, o meu filho (António Costa), regressou a casa com uma canção (“Montalegre”) gravada no computador, por ele e por um amigo (Bernardo Barbosa),com quem, supunha eu, passava aquelas lentas tardes de verão a ouvir música. A surpresa foi enorme, ainda maior do que aquela que, um ano antes, tinha experimentado quando o ouvi cantar, na Gulbenkian de Braga, uma canção do Zeca Afonso! Nunca imaginara um filho meu com voz para cantar. Tocou-me bem fundo aquela canção: pela boa surpresa, pelo tema escolhido, pelo título (muito arreigado aos genes mais profundos da minha família), pela criatividade… Começar pelas raízes é sempre um bom auspício. Foi assim que nasceu o grupo.


Contemplando o célere e tão frutuoso trajeto dos Ermo — vários álbuns editados, atuações um pouco por todo o país (dos pequenos aos grandes palcos, como o Theatro Circo, a Casa da Música…) e pelo estrangeiro (Espanha, França, Inglaterra, Dinamarca, Brasil…) e uma nomeação para os Prémios Novos (em 2013, juntamente com Capicua e DJ Marfox —  ficamos com sensação de que já calcorreiam os trilhos da música há muito tempo. No entanto passaram apenas cinco anos. Mas o dinamismo dos Ermo não se tem confinado ao ritmo produtivo e à conquista dos palcos. É sobretudo no domínio criativo, musical e literário, que a irreverência dos Ermo mais se tem afirmado. O duo tem percorrido, de forma absolutamente surpreendente, vários estilos, sem perder a sua mais íntima identidade, claramente afirmada no terreno num vanguardismo  musical assente na inteligência e na acutilância crítica das letras. Os Ermo parecem, pois, fadados para nos surpreenderem constantemente com o modo como aliam o seu inconformismo social a um aparentemente insaciável nomadismo musical. Parecem nascidos para serem eternamente novos.
“LO-FI MODA” já mereceu, recentemente, os mais rasgados elogios de um programa Antena 3. Estou certo que de que, nos próximos tempos, múltiplas serão as ventanas que nos trarão novas deste álbum e dos Ermo, um par de bracarenses que prometem continuar a surpreender e a semear orgulho por aí.

“Correspondência”, um tema do álbum “Vem por aqui”

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O que se pode esperar e o que não se pode esperar dos professores



O QUE SE PODE ESPERAR:
ü  que trabalhem muitas horas a mais, na escola e em casa;
ü  que não contabilizem nem esperem compensação monetária pelas horas excessivas de trabalho;
ü  que aceitem não progredir na carreira;
ü  que preencham todo o tipo de inutilidades de burocracia pedagógica;
ü  que baixem constantemente a fasquia da exigência na avaliação e classificação dos alunos;
ü  que votem, sem qualquer critério pedagógico, as notas dos colegas;
ü  que, quase anualmente, ponham de lado toda a experiência acumulada pera embarcarem em ilusões;
ü  que exerçam todo o tipo de funções, docentes e não docentes;
ü  que não digam, nas reuniões, o que realmente pensam;
ü  que não levem a conselho pedagógico as críticas de quem pensa de modo diferente;
ü  que executem medidas que defendem os cofres do Estado mas lesam os interesses dos alunos; 
ü  que aceitem cada vez mais desconsiderações e faltas de respeito;
ü  que sofram e esqueçam a quotidiana violência psicológica;
ü  que sofram e calem a cada vez mais frequente violência física;
ü  que ostracizem os colegas que ousam dizer o que quase todos pensam e quase todos desejam;
ü  que não sejam solidários (e até maldigam) quem ousa defendê-los;
ü  que se queixem, em concreto e em abstrato, de todas as injustiças de que têm sido alvo;
ü  que critiquem mordazmente os sindicatos;
ü  que critiquem mordazmente o ministro da Educação.
(…)
O QUE NÃO SE PODE ESPERAR:
ü  que façam ouvir a sua verdadeira voz quando e onde é realmente preciso;
ü  que  digam “NÃO” quando acham que é seu dever dizer “NÃO”;
ü  que apoiem (objetivamente) quem os defende;
ü  que enfrentem os seus múltiplos medos;
ü  que lutem corajosamente pelos seus direitos;
ü  que critiquem ou contrariem o diretor;
ü  que vistam com atos as palavras que dão;
ü  que façam jus aos valores que tentam transmitir aos alunos.
                                                                     
MORAL DA HISTÓRIA
Má pintura no mural: as lágrimas da História! Ou serão apenas as minhas?

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Ditadura é ditadura!


Da minha mais absoluta falta de vocação para ficar calado, para tratar da minha vidinha e deixar correr resulta a “obrigatoriedade” de ir regularmente a concurso, para pôr o contador do benefício da dúvida a zeros. Gostaria de ser diferente, mas reconheço que teria de nascer de novo, coisa que talvez Deus não me permita. Duvido que, depois de me chamar à sua presença, me deixe voltar a concorrer.
No prazo de dois anos, eu — que já podia ter a minha vida perfeitamente estabilizada, que já podia estar comodamente instalado — estou na iminência de mudar de escola pela segunda vez. Espinhos de quem faz questão de não vergar a espinha. Sou feliz assim, acreditem! E, se voltasse atrás, não vou dizer que faria exatamente o mesmo, porque aprendo alguma coisa com as experiências, mas repetiria o fundamental e, por certo, estaria no mesmíssimo ponto em que me encontro: de malas aviadas para um novo enquadramento. Cavaleiro errante, lobo solitário...
Tanto há dois anos como agora, muitas foram as conversas que tive com colegas (da minha e de outras escolas) sobre as raízes da minha vontade intransigente de sair. Têm sido momentos muito reveladores: todos me dizem que não vale a pena concorrer, porque vou encontrar o mesmo “ambiente” em todas as escolas. O quê?!
Afinal, é mesmo uma questão de regime e não de pessoas. É claro que os contextos conferem muitas tonalidades ao dito cujo, mas, no essencial… é como eles dizem: muito igual em todo o lado. Ditadura é ditadura, por muito “porreiro” que seja o ditador.

No rescaldo de uma greve



Era previsível o esvaziamento do impacto da greve dos professores, uma greve que poucos queriam. Os sindicatos não obtiveram nada do que desejavam, a saber: regime especial de aposentação, retoma da progressão na carreira a partir de Janeiro de 2018, clarificação dos horários de trabalho, novas vias de vinculação e alteração do modelo de gestão das escolas. Mas ficaram a perceber o que nunca terão. E talvez tenham percebido que petições, desfiles, cordões humanos, concentrações, postais e autocolantes na lapela não resolvem problemas. 
Com a tarimba que levam de sindicalismo militante, Mário Nogueira e João Dias da Silva não sabiam que a recuperação de algumas migalhas, do muito que os professores perderam numa década de congelamento, é decisão do ministro Centeno, que não do ajudante Tiago? Ou perceberam agora, finalmente, que tomar um imberbe, que nunca escreveu uma linha sobre Educação, para ministro, por mais inteligente que fosse, significou, desde o início, que António Costa queria para o sector irrelevância e domesticação política? 
A ética mínima ficou na lama com esta greve. Atropelando o direito à greve dos professores, Passos e Crato enxertaram na lei os serviços mínimos em tempo de exames. O PS e as forças políticas que agora sustentam o Governo revoltaram-se na altura. Mas, sem incómodo de maior, viram agora ser usada essa lei para fazer o que antes censuraram. Julgamentos e cirurgias sofrem adiamentos quando há greves na Justiça ou na Saúde. Mas um exame do 11º ano mais a brincadeira de uma prova de aferição são necessidades sociais impreteríveis. Em Janeiro de 2016, Tiago Brandão Rodrigues disse ao Diário de Notícias que o modelo de exames era “errado e nocivo”. Que alguém tenha a caridade de lhe explicar que não pode dar lições sobre a maldade dos exames e depois decretar serviços mínimos para os garantir. Ainda a propósito da greve, uma palavra sobre a falta de união no seio dos professores. As políticas seguidas por Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato provocaram-lhes desânimo e saturação. Mas não explicam o clima de divisão em que vivem. 
A disputa entre professores, quer consideremos a substância, quer consideremos a forma, não serve a classe, porque a desagrega e lhe diminui a credibilidade aos olhos da sociedade. São professores do secundário que depreciam os colegas do pré-escolar e do 1º ciclo, são professores do público que se opõem aos do privado e vice-versa, são lutas menores entre grupos disciplinares, rivalidades entre os que pertencem aos quadros e os que almejam lá entrar e directores que esquecem facilmente que também são professores. 
A Educação, enquanto área de actividade profissional, está sob as mais complexas e díspares influências. Do ponto de vista científico são múltiplas as ciências que a servem. Do ponto de vista social e político são muitas as pressões que a moldam e a tornam objecto de conflitos. Mas só a ausência de senso e ponderação da classe faz com que se torne publicamente tão evidente, por vezes de modo deprimente, o que separa os professores.
Posto isto, não somemos à disputa que analisei a disputa, sem sentido, entre professores e outros cidadãos, que a greve também trouxe à colação. Porque os professores precisam da ajuda de todos para educarem os filhos de todos. 
É frequente ouvirmos afirmar que o futuro depende dos nossos jovens. Mas quem o diz esquece, com igual frequência, que são os professores que os preparam e que a sociedade lhes deve, por isso, um reconhecimento que tem diminuído nos últimos tempos. E tenhamos presente que, desde que a arrogância contabilística substituiu a política competente, milhares de professores, cúmplices solidários da construção dos projectos de vida de centenas de milhares de alunos, estão, eles próprios, impedidos de construir os seus projectos de vida familiar.

In Público, 28/06/17

terça-feira, 27 de junho de 2017

Longa vida aos diretores!



A campanha que ontem lancei contra o atual regime de gestão das escolas está a ser um sucesso. Ainda nem vinte e quatro horas passaram e já tenho meia dúzia de “likes” e três partilhas. Já não falta tudo para ter 90% dos professores nesta peleja: apenas 33 mil dias.
Esta debandada, sempre que é preciso dar a cara… Prefiro não verbalizar. Estou entre o riso sarcástico e a mais negra pena, o que, para mim, já não é novidade nenhuma, bem pelo contrário: é sempre este o resultado que obtenho quando tento ser palerma ao quadrado. Se há algum resquício de verdade no que a FENPROF diz que os professores disseram sobre este regime de gestão, então seria de esperar algo deste género:
ü  “Se retirares esta frase/esta expressão, concordo e junto-me à campanha.”
ü  “Se acrescentares isto, concordo e junto-me à campanha.”
ü  “Tenho uma ideia muito melhor para alcançar esse objetivo.”
ü  “Tenho um cartaz muito melhor.”
ü  “Só aceito participar se for Fulano de Tal a promover a ação.”
(…)
Mas nada disto aconteceu nem acontecerá jamais.
Das duas, uma: ou o que diz a FENPROF é o maior dos embustes ou os professores já se afeiçoaram a esta coisa antidemocrática. Desculpem lá, mas o medinho não pode justificar tamanho silêncio. É cobardia a mais para o meu pobre cérebro. Coitado, já não está capaz de aceitar uma realidade tão cruel. Cá para mim, é mesmo a FENPROF que está a mentir. Nem mais! Tal como o meu pequeno cérebro, também entrou em negação, quando viu as chocantes respostas que o inquérito revelou: os professores gostam deste regime de gestão e de todas as suas inerências. Demasiado brutal para uma federação de sindicatos de esquerda! Talvez seja por isso que não menciona o tema de forma enfática (mas quase em surdina) quando faz as suas reivindicações. Mas temos de aceitar esta dura realidade: não temos apenas o que merecemos, mas o que intimamente desejamos. Excessivamente rebuscado para inferno, paradoxalmente requintado para éden. Enfim, um sofisticado paraíso sadomasoquista!
E como se isto não bastasse para fazer as delícias de Sade e Masoch, ainda vem João Costa, com a sua flexibilidade à ilharga, dizer que quer, à saída da escolaridade obrigatória, alunos que pensem crítica e autonomamente, que conheçam e respeitem os princípios fundamentais da sociedade democrática, que valorizem o respeito pela dignidade humana, que rejeitem todas as formas de discriminação e de exclusão… Como, onde e com quem vão aprender tudo isto?
Agora, sim, estou a rir copiosamente (de felicidade, é claro)!

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Pela dignidade! Pela democracia!



Como todos sabemos, este regime de gestão das escolas, criado num período negro para a Escola Pública e para os professores, reúne um consenso demolidor entre os profissionais do ensino: 90% são contra. São contra o monolitismo instalado, contra o autoritarismo crescente, contra o esvaziamento dos múltiplos órgãos de coordenação e de gestão pedagógica, contra o progressismo esmagamento da autonomia pedagógica de cada docente, contra o medo entranhado.
Como estou convicto de que este regime se alimenta do medo, também creio firmemente que ele só cairá quando os professores deste país enfrentarem e expulsarem do seu âmago esse farto alimento deste monstro que nos come o ego, a autoestima, a autoridade, a dignidade e o respeito (de alunos, pais e encarregados de educação, superiores hierárquicos e sociedade em geral). Para resgatarmos este precioso tesouro usurpado, é necessário — é urgente — exorcizar esse medo castrador. Só assim expulsaremos das nossas escolas este ventre de servilismo profissional, de reducionismo pedagógico, de atrofiamento da autonomia, de lenta e progressiva corrosão de todas as liberdades, de definhamento das sementes da democracia.
Não tenho dúvidas de que está no terreno uma estratégica tentativa de contrariar os esclarecedores números que o inquérito da FENPROF revelou. Por isso, não podemos ficar calados, quedos e ledos a assistir, como sujeitos da passiva, ao lavrar deste contrafogo destinado a perpetuar — com uma suposta chancela nossa — esta negrura que nos comprime. Temos de soltar a nossa voz, afirmar a nossa vontade, enfrentar os nossos medos. Ninguém alterará absolutamente nada enquanto nós permanecermos nessa silenciosa rendição.
Proponho, por tudo isto, a todos os meus colegas, que partilhemos esta e/ou outras mensagens semelhantes, que as tornemos virais, de forma a deixarmos a nossa mais íntima e mais legítima vontade inequivocamente expressa. E façamo-lo sem cansaço! Vamos por aí! Sejamos atores do nosso destino! Reassumamos a nossa condição docente!

Quem ousará?

sábado, 24 de junho de 2017

O Império contra-ataca


Depois do inquérito da FENPROF sobre o atual regime de gestão das escolas, cujos resultados foram esmagadores, chega agora ao nosso correio eletrónico, à retardador e em jeito de contrafogo, um novo inquérito, muito habilidoso, vindo da DGAE.
Quando comecei a preencher o dito cujo, pensei cá para mim: “Finalmente, vou poder dizer à DGAE tudo o que penso sobre este regime totalitário de controlo de professores!” Passou uma, passaram duas, passaram três… passaram quarenta e cinco questões… e nada! Aquilo que realmente me leva a ser contra esta coisa não estava (nem está) lá! Apenas um conjunto de princípios mais relacionados com o estilo de liderança (seja em que regime for) e nada objetivamente direcionado para este específico regime de gestão. Gostei muito especialmente da questão n.º 10 (“Sexo do(a) Diretor(a)”). Apeteceu-me dizer que nunca o vi nem quero ver, mas não havia lugar para repostas abertas. É tudo muito fechado e não menos oblíquo neste inqueritozinho finório, detentor de uma teimosa força centrípeta.
Não me admira nada se, um dia destes, Tiago Rodrigues vier a terreiro dizer que, afinal, os professores até gostam da diretoria nacional. Todavia, enquanto tal escândalo não acontece (enquanto vai valendo a realidade), é legítimo perguntar por que motivo o Governo persiste na perpetuação de um regime de gestão que merece tamanha reprovação dos professores. Diga-nos, Senhor Ministro, que missão tão essencial é essa que os diretores desempenham e que tanto agrada a quem governa?
Se me explicar direitinho, talvez também eu me converta! Já tenho OVNI e tudo!

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Deixar alunos para trás?!



É, provavelmente, entre as frases que vão fazendo “moda”, a mais hipócrita, a mais pérfida e a mais injusta. Divido os que a usam em dois grupos: os professores e os demais. Relativamente a estes, ainda vou tendo alguma paciência (alguns não saberão o que dizem); já quanto aos primeiros a minha tolerância é zero.
Na escola pública atual, os professores fazem das tripas coração para que os seus alunos (todos os seus alunos) tenham sucesso na sua aprendizagem: fazem o pino na sala de aula, compreendem e aceitam muito mais do que é seu dever, produzem imensos materiais pedagógicos, dedicam rios de tempo (do seu tempo pessoal) aos alunos, prestam todo o tipo de apoios, tentam auxiliá-los mesmo na sua vida familiar, estão em constante contacto com os encarregados de educação (muitas vezes à noite, a partir de casa), adaptam os currículos e a avaliação ao perfil de funcionalidade dos alunos que têm dificuldades de aprendizagem, contabilizam tudo o que podem para que os alunos sejam favorecidos na avaliação… Só quem ignora esta realidade ou quem é muito mal-intencionado pode dizer uma tal barbaridade. É por isso que não desculpo a nenhum professor essa venenosa afirmação. É demasiado injusta e inadmissivelmente ofensiva para a classe docente. Podemos ter muitos defeitos (e temos), mas não temos esse de deixar os alunos para trás.
Querer alcançar o objetivo do “sucesso total” não justifica tudo. Que a politicagem e seus acólitos o façam já não espanta ninguém (o contrário é que seria surpreendente), mas que sejam os próprios docentes a reproduzir essa anormalidade, isso, sim, deixa-me perplexo, agoniado, à beira da erupção.
A minha experiência pessoal diz-me (diz-me com palavras cristalinas, em carateres gigantescos) que, atualmente, só mesmo os alunos que levam o desmazelo, a preguiça, o incumprimento dos seus deveres mais elementares e o desrespeito pelos restantes membros da comunidade escolar muito para lá dos últimos limites do aceitável é que são retidos. Se se tratar de um ano terminal de ciclo… então podem mesmo ir além da Taprobana, pois ainda contam com um último favor (já automático) dos deuses: votação de notas, sem qualquer espécie de consideração pelo trabalho e autoridade do(s) professor(es) em causa.
Digam-me com honestidade: alguém neste país, em boa-fé, pode dizer que os professores deixam os alunos para trás? Se alguém anda a desprezar, a negligenciar e a abandonar as nossas crianças e os nossos jovens, não são os professores.  Não são os professores. Mas essa é outra conversa.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Régua fleximágica



AO CUIDADO DO SR. SECRETÁRIO DE ESTADO
Trata-se de uma invenção capaz de exponenciar todo o sucesso e de exterminar quase todo o insucesso, de uma só vez. Com a aplicação deste novo instrumento de classificação — cuja patente cedo, generosamente, ao Governo de Portugal — tudo mudaria para melhor, sem qualquer espécie de objeção de consciência da classe docente, sobretudo da ala mais conservadora, que é demasiado anacrónica e manifestamente mal preparada para os desafios deste século, o vigésimo primeiro da era cristã.
Desta forma, Sr. Secretário de Estado, já não precisará (pelo menos no imediato) de gastar tempo e energias com a sua flexibilidade. Obtém (quase) os mesmos resultados e (quase) ninguém dá conta. Depois, com o tempo e com a conhecida generosidade docente, as zonas limítrofes acabarão por ser absorvidas, integradas no nível seguinte… e lá terá a sua plenitude.
Vá por mim, Dr. João Costa, e poupe-nos a maçada de flexibilizar. Olhe que nós já não temos mona para muito mais! Ficamos todos a ganhar!  

Proposta de permuta



No tocante a concursos docentes, sou um sortudo. Até ao presente, tudo me tem corrido de feição: sempre nas primeiras opções. Todavia, há sempre uma primeira vez!
Estou determinado a sair da André Soares. Assim, caso o concurso, desta vez, não me seja tão favorável como no passado, aceito permutar com colegas de Braga (grupo 300). Os interessados podem enviar-me a sua proposta para o seguinte endereço (o do blogue): dardomeu.costa@gmail.com.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Houve greve?



Agora, sim, posso dizer o que penso sobre a greve e “seus arrabaldes”. Dei o tom quando foi entregue o pré-aviso, mas logo me contive, quando foi confirmada. Como disse então, a partir desse momento passou a ser a minha greve. Todavia, chegou a hora da lição.
Mário Nogueira e João Dias da Silva (política à parte) escolheram muito mal a ocasião: alunos em casa, professores em reuniões de avaliação (muitos outros sem serviço marcado) e… alguns exames.  Como se tal não fosse já suficiente, estes líderes sindicais apressaram-se a dizer que seriam cumpridos os serviços mínimos, pondo, dessa forma, o dito colégio arbitral completamente à vontade para decidir a nosso desfavor e dando o Governo toda vantagem negocial e mais alguma. Estavam à espera de quê? Que Tiago Rodrigues fizesse cedências de vulto? Que “desse” já o pouco que o Governo quer dar apenas lá mais para diante? Como foi penoso ver Mário Nogueira apressar-se a solicitar ao ministro uma reunião in extremis, nesta segunda-feira! Na esperança de receber um prémio de consolação?
Esta greve tinha tudo, mas mesmo tudo, para ser o fracasso que foi. Para além do já referenciado, havia, no terreno, demasiada gente sem coragem para faltar a conselhos de turma de avaliação final; havia demasiada gente absolutamente incapaz de faltar ao serviço de exames; havia, como já é habitual, os mesmos de sempre, empenhados em desacreditar os sindicatos; havia também (já é “cultural") um considerável número de diretores dispostos a fazer na sombra o que os mágicos fazem com o chapéu e com os panos negros; havia ainda quem, com janela aberta sobre o rossio mais amplo, estivesse na predisposição de apostar todas as fichas a favor deste fracasso. Enfim, só podia dar no que deu. É caso para perguntar se houve greve.
No meu entender, foi a primeira antigreve que fizemos. Não se deu por ela e, em vez de avançar, recuámos: foi aberto o precedente dos serviços mínimos. Mas, ainda assim, sabem o que mais me revolta? Ver professores em estado de muito mal disfarçado júbilo. São os mesmos que gostam de diretores e que, muito secretamente, torcem pela municipalização.




Professor em greve




sábado, 17 de junho de 2017

Mário e os Minimáximos



Ainda que a greve do próximo dia 21 venha a registar uma forte adesão (duvido muito), nós, com a decisão ontem tomada pelo colégio arbritral, já perdemos esta contenda. Como ontem disse, acho que as precoces declarações de aceitação pesaram decisivamente neste triste desfecho para os professores. Cada vez temos menos margem de ação. Vamos de perda em perda até à… (palavra que rima) final.
Como se recupera de um estrago destes? Os dirigentes sindicais não podem dar o dito por não dito. Têm de cumprir. Todavia, os professores ainda podiam desobedecer, não acatando o compromisso por eles assumido. Mas não temos gente para isso. Só nos resta marcar nova greve, em tempo oportuno e ANUNCIAR IMEDIATAMENTE QUE NÃO CUMPRIREMOS SERVIÇOS MÍNIMOS NENHUNS.

Quem é de manteiga acaba sempre no pão. 

O meu voluntariado


Porque sei que a maior parte dos mortais, num amplo céu azul (se for o céu dos outros) tenta sempre encontrar uma nuvenzinha; porque também sei que é numerosíssimo o grupo daqueles que, depois de a vislumbrarem, têm a arte de transformar o vasto azul em céu cinzento, entendi ser aconselhável explicar à navegação o meu voluntariado.
Há vários anos que o pratico, de forma sistemática. Dá-me imenso prazer e proporciona-me alguma realização profissional. Por outro lado, é, no meu entender, a única forma de provar a minha ideia do que deve ser um apoio educativo: registo índices de assiduidade arrasadores. Além disso, esta missão preenche em mim aquele íntimo apelo de solidariedade social, de serviço individual à comunidade. Sei que os meus queridos maledicentes de serviço me precedem e que vendem, a baixíssimo preço, hediondas imagens de mim, porém nenhum deles seria capaz de se dar como eu me dou. Sim, sou um lobo solitário, mas não dos que comem vítimas indefesas, não dos que são egoístas até ao tutano, ou daqueles que não dão ponto sem nó. Sou mais solitário porque me habituei a sobrar (só) de muitas lutas em que comecei muito mal acompanhado.
No meu horário deste ano letivo, o meu dia mais leve era a quinta-feira. Como, por coincidência, também era o dia em que as minhas turmas de 9.º ano tinham a tarde livre, preenchi-a com “o meu apoio”. A quinta-feira passou a ser o único dia da semana em que eu não tinha tempo de almoçar em casa. Se querem saber, adorava a quinta-feira! Para além do já referido, não tinha programa, não tinha pressa, não tinha pressão, não tinha amarras... E os alunos fingiam muito bem gostar de estar comigo a aprender, em ambiente descontraído, afetuoso, com muito boa disposição à mistura. Como é óbvio, tudo isso rendeu juros para as “aulas canónicas”. Se não me compreenderem, pelo menos não me maldigam por isso, porque, para além de estarem a ser mauzinhos, estão a cometer uma tremenda injustiça. Devem é tentar perceber por que motivo as direções das escolas teimam em não gostar da minha pessoa, em querer ver-me a léguas, apesar de tanta entrega. Acertaram! A minha incompetência é de tal ordem que nem com tanta dedicação se mitiga.
Quanto a lutas, caros leitores, relembro apenas três pequenas situações que, julgo eu, me poderiam garantir, pelo menos, o benefício da presunção de confiança:
1.ª – No “período quente” da luta dos professores, quando quase todos, a nível nacional, depois de terem jurado não entregar o relatório de autoavaliação, o fizeram, a correr, no primeiro aperto surgido, eu permaneci no meu posto (fiquei absolutamente só, na minha escola) e fui gravemente prejudicado na mudança de escalão;
2.ª – Fui “obrigado” a concorrer para sair dessa escola, porque permaneci SEMPRE na minha postura, fiel a tudo o que “jurara”: não me verguei, não dei o dito por não dito, não me calei onde devia falar… e fui ficando cada vez mais só, e fui sendo posto de parte, e fui vendo esquivarem-se de mim aqueles que, outrora, tinham andado de mão dada comigo, em Lisboa;
3.ª – No presente ano letivo, como já muitos saberão, levei até às últimas consequências uma ação de protesto contra uma bárbara agressão a uma colega minha, em plena aula, por parte de uma encarregada de educação. De uma multidão de promessas, espantada pela Diretora, sobraram dois (uma colega e eu) e duas faltas injustificadas.
É irónico, não é? Eu, com muito mais de uma centena de aulas dadas em regime voluntário, vou sair daquela escola com uma falta injustificada! Vou sair, uma vez mais, por ser um lobo solitário, não dos que comem vítimas indefesas, não dos que são egoístas até ao tutano, ou daqueles que não dão ponto sem nó, mas daqueles que são perseguidos apenas por serem lobos, daqueles que as humanas fraquezas condenam ao ostracismo.
Como veem, o meu voluntariado não abrange apenas os alunos. É não é o que dou aos alunos que me prejudica.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Demasiado mariquinhas!



Nós, os professores, se fôssemos um clube de futebol, seríamos daqueles que estão sempre abaixo da linha de água, constantemente a descer de divisão, daqueles que os árbitros prejudicam, sem hesitações nem dramas de consciência, quando jogam contra outra qualquer equipa da primeira metade da tabela. E, mesmo assim, não seríamos um clube pequeno qualquer, seríamos daqueles infelizes cujos adeptos torcem pelos tubarões do futebol. Enfim, pequenos em tudo!
Afinal, a Lei não é assim tão taxativa, uma vez que a decisão do Colégio Arbitral foi tomada por maioria. Uma questão de interpretação, portanto. Uma interpretação que teve em conta, sem dúvida, o tal clube que luta pela permanência. E como os senhores juízes já sabiam que os dirigentes desejavam, que os treinadores acatariam e que alguns dos jogadores mais mediáticos também alinhavam… penálti contra o Profutebol Clube de Tolhidos de Baixo, a um minuto do fim do jogo. Por este caminho, a Liga da Perna do Meio ainda vai acabar por alargar os serviços mínimos a todas as áreas, incluindo os balneários e o bufete. É tolhidinho de todo!
 Um pouco mais a sério!
Queremos lutar pelos nossos direitos ou queremos pedir, por favor, que nos concedam a benesse de nos dar esperança de um dia vislumbrarmos parte deles? Se é isto que andamos a fazer, mais vale ficarmos quietos e caladinhos, porque, pelo menos, não fazemos figuras mariquinhas. Se queremos lutar, mas lutar mesmo, então temos dizer claramente que não cumprimos essa treta dos serviços mínimos de nada. É que é tão banana, mas tão banana, que só podemos escorregar na sua casca e dar um valente tralho! Então… por causa de certas greves, é possível adiar consultas marcadas meses antes, adiar cirurgias, processos, julgamentos e… não pode ser adiado, por alguns dias, um exame de 11.º ano? Estamos numa peça de Ionesco? A verdadeira questão, Mário Nogueira e João Dias da Silva, não é se nos vão ou não vão autorizar (cada vez que tentamos), mas se nós vamos continuar a admitir este paternalismo castrador. Já é hora, creio eu, de esticardes o dedo médio, de recolherdes o indicador e o anelar até à palma da mão, assim como quem puxa duas culatras atrás, e de mostrardes essa escultura à Tutela. É que só assim, por muito estranho que pareça, seremos realmente respeitados! Temos de ousar desobedecer a esses serviços minimizadores.  
Quereis uma sugestão? Uma vez que não é admissível voltar com a palavra atrás, ide avisando a Tutela de que não voltaremos a acatar esta porra, porque é demasiado humilhante. Quanto ao dia 21, irei à escola trabalhar toda a manhã e toda a tarde (voluntariado com os meus alunos, ainda) mas, antes disso, passarei pela secretaria, para me descontarem no salário MAIS UM DIA DE GREVE. Não fui destacado para nada nem tenho reuniões de avaliação nesse dia. 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Eu, se fosse aluno, jamais perdoaria!



Nos meus tempos de estudante, quantas vezes, em vésperas de teste ou exame, eu rezei para que nada, absolutamente nada, acontecesse que pudesse adiar a santa prova. Sei lá, uma avaria no carro do professor, um falso telefonema de alguém a dizer que ia passar sobre a cidade um bacalhau a voar, a fechadura do cofre encravada, uma greve… Felizmente, nunca tal tragédia me aconteceu, pois, se tal me tivesse sucedido… Nem quero pensar!
Como é evidente, acordei estas memórias motivado pela greve do próximo dia 21 (se acontecer mesmo). Estou a pensar nos jovens do 11.º ano. Coitados! Saberem que a prova, contrariamente ao que seria de esperar, não vai ser anulada, com a atribuição de 20 valores todos, e que, em vez disso, terão mais uns dias para estudar, cientes de que Ministério da Educação e professores tudo farão para que não sejam prejudicados… Eu, no lugar deles, estaria preocupadíssimo, revoltadíssimo. Ter os conhecimentos encomendados para o dia 21 e não poder aplicá-los (fresquinhos) nesse dia, correndo o risco de eles azedarem… De facto… é inadmissível!
Se fosse aluno, jamais perdoaria aos professores uma tal canalhice!

Os nossos extraterrestres



Infelizmente, já ninguém estranha! Na semana em que a classe docente se prepara para uma greve legítima, os diretores, como tem sido seu apanágio, estão noutra, ao lado de quem servem. Parabéns, senhores extraterrestres!
Também sem surpresa absolutamente nenhuma, começam a surgir as primeiras notícias das prepotenciazinhas a que gostam de recorrer os nossos dessintonizados extraterrestres quando os “seus jagunços” tentam fazer qualquer coisa que eles não tenham ordenado ou que, simplesmente, vá contra a sua vontade ou interesses. Todavia, convinha que os professores se lembrassem de que não são putos de seis anos, e que as greves, à semelhança de outras ações de luta, são para levar até às últimas consequências. E não é porque um extraterrestre qualquer os manda para ali ou para acolá, que eles têm de ir. Não podem comportar-se como os alunos de uma escola básica onde trabalhei na última década. Decidiram fazer greve, não sei porquê. Ficaram do lado de fora da escola, negando entrar enquanto não fossem satisfeitas as suas reivindicações. A diretora foi lá fora dizer-lhes que a greve era ilegítima, porque se tinham esquecido de formalizar o pré-aviso.
— O quê?! Pré-aviso?!
— Sim, pré-aviso de greve, coisa que vós não entregastes. Por isso, zola lá para dentro!
E eles foram.
Quando a classe docente se prepara para uma greve mais do que justa, os diretores, pela voz do seu representante, recém-chegado de uma viagem intergaláctica, vêm a terreiro falar de pactos, de paz na terra aos homens de boa vontade. Enfim, nas escolas deitam mão a tudo o que podem para anular os efeitos da greve (convocando até os bancos do jardim e os cestos dos papéis) e no púlpito distribuem pétalas de rosa e fazem ziguezagues com incenso. E o ComRegras aplaude, aplaude e aplaude! E outros, com varandas enormes sobre a praça, ligam as mangueiras e arrefecem a turba. É isto! 
Contudo, apesar de todos os entretantos, o sucesso objetivo e subjetivo desta greve não está nas mãos destes agentes, está nas mãos dos professores. Basta lembrarem-se de quem são realmente: são professores (PROFESSORES). A palavra “luta” quer dizer alguma coisa. 

Se outros calam, cantemos nós!



quarta-feira, 14 de junho de 2017

A educação rosa


O PS é um partido político que foi perdendo a sua matriz ideológica. Sob a liderança de António Costa, a aliança à esquerda é meramente circunstancial e ditada por ser a única forma de ganhar o Governo, depois de perder as eO PS é um partido político que foi perdendo a sua matriz ideológica. Sob a liderança de António Costa, a aliança à esquerda é meramente circunstancial e ditada por ser a única forma de ganhar o Governo, depois de perder as eleições. Para os que legitimamente discordem deste ponto de vista, recomendo a análise fina das votações da legislatura e a interpretação grossa dos sinais dos últimos dias (bloco central na TAP, flop na chefia das secretas, imprudente acolhimento de familiares de amigos e de interesses de amigos, prudente respeito pelos contratos firmados com os chineses da EDP mas oportuno desprezo pelos contratos firmados com os professores portugueses).
Para os que concluem o ensino secundário, é hora de exames, onde se joga a entrada nas universidades e politécnicos. Para alguns dos outros é hora de brincar às provas de aferição, onde se queima credibilidade, tempo e dinheiro, porque se trata de provas que foram largamente usadas e abandonadas por inúteis e porque, ao persistir na asneira, ao menos que fossem aplicadas no fim dos ciclos de estudo ou feitas por amostragem.
Na equação política do PS a Educação não conta. O ministro é um bibelot que acompanha os senhores nas festas e que se mistura com a malta nos recreios, quando há fotógrafo por perto.
A análise do discurso do secretário de Estado João Costa expõe uma mistura de postulados gastos, por óbvios, com teorias pedagógicas velhas e ultrapassadas, que foram abandonadas porque falharam, depois de terem lançado a confusão no sistema de ensino. É certo que este arauto-mor do “eduquês” recuperado teve os ímpetos travados e passou das “alterações profundas” e da sua generalização para a experimentação circunscrita da “flexibilidade pedagógica”. Mas a verdade é que está destruindo, com o apoio de prosélitos e oportunistas, o que, apesar de tantas vicissitudes e sacrifícios, os professores sérios e maduros conseguiram acrescentar aos resultados do sistema de ensino. E poupem-me os prosélitos à ligeireza do “parece que no tempo de Crato é que era bom”, porquanto basta ler o que sobre ele escrevi. A questão é termos passado de uma pedagogia ferozmente utilitarista, que encarava a Educação como mercadoria ao serviço da economia de mercado, sem sensibilidade humanista nem consideração pelas diferenças individuais das crianças em formação, para uma pedagogia do paraíso, assente na retórica provinciana do “aluno do século XXI”, do “trabalho de projecto”, da “flexibilidade pedagógica”, do “trabalho em rede” e dos “nados digitais”, sem considerar o estádio intermédio que resulta da arbitragem prudente entre o valor intrínseco do conhecimento e a especulação pedagógica.
Quando se junta a melodia das “aprendizagens essenciais” ao estribilho da “flexibilidade pedagógica”, os que já assistiram a tantos coros de outros tempos sabem o que a música vai dar: um desconcerto nacional em que o ascensor social, que a Escola pode ser, pára uma vez mais. Explicitando a metáfora: Crato mandava os que chumbavam aprender uma profissão aos dez anos; Costa nivela por baixo e reserva “as aprendizagens essenciais”, que ninguém sabe o que são nem como se definem, para os que já chegam à Escola oprimidos pela sorte madrasta de terem nascido em meios desfavorecidos. Definitivamente, só há um caminho, que não importou a Crato e menos importa a João Costa: encontrar um currículo e programas correspondentes equilibrados e adequados à maturidade e desenvolvimento dos alunos e acompanhá-los, sem diminuições de exigência e rigor, com reforço de meios e recursos logo que evidenciem as primeiras dificuldades. A inovação pedagógica do aprender menos não remove o insucesso. Mascara-o. Os experimentalismos que partem do abaixamento da fasquia não puxam pelos que ficam para trás. Afundam-nos. O escrutínio sério das políticas educativas das últimas décadas, que só um pensamento crítico livre de contaminações ideológicas permite, demonstra-o.
É importante que cada professor saiba bem de que lado quer estar nesta dialéctica.

In Público, 14/06/17

terça-feira, 13 de junho de 2017

Da ingratidão


Se eu não agisse por princípios e valores, mas por outros motivos, há muito que teria a caderneta cheia de pretextos para mandar muita gente abaixo de Braga, o que até nem seria nada difícil, tendo a conta a minha situação geográfica. Mas que há dias em que sinto uma vontade voraz de o fazer, lá isso há! Muitas vezes, mas muitas mesmo, preciso um controlo quase desumano e uma boa dose de estupidez (reconheço que não me falta) para não fazer um valente manguito geral, radical e definitivo.
Do autêntico tratado de cuspidelas vindas de criaturas a quem já dei a mão, vou apenas desarquivar mais uma, que hoje me atormenta por mor de factos que me fizeram desenterrar um naco de passado (não importa se é muito recente ou distante).
Num determinado pretérito (decidam os leitores se perfeito ou imperfeito), numa determinada escola, numa determinada reunião com absolutamente todos atores (diretor, professores, alunos e encarregados de educação), convocada pela respetiva diretora de turma, com o objetivo de tentar pôr termo ao comportamento inadmissível dos alunos, depressa a narrativa descambou para uma espécie de linchamento público de uma determinada professora de uma certa disciplina muito seletiva. O parvo de serviço, que mal conhecia a colega (e até tinha algumas razões para deixar correr a fita, visto que, dias antes, em plena sala de professores, tinha tido um desagradável quid pro quo com ela), vendo que ninguém, mas mesmo ninguém, saía em sua defesa, decidiu intervir e recolocar a reunião no seu verdadeiro rumo. Alunos e encarregados de educação perceberam e respeitaram em absoluto a intervenção. E o assunto Professora X morreu ali.
Dias depois, em privado, de forma emocionada, a colega agradeceu. Que não se preocupasse mais, que esquecesse o desentendimento na sala de professores, porque eu já o tinha enterrado! Amigos? Amigos, pois claro!
Volvidas algumas estações — meia dúzia, para ser mais exato — já depois do encerramento da parte letiva do ano letivo, surgiu um insignificante problemazito de sobreposição de salas, na marcação das sessões de preparação para o exame (devo lembrar que fiz toda essa calendarização com mais de um mês de antecedência, logo no início do terceiro período desse ano letivo da era cristã). Todavia, apesar de haver salas de sobra (a dois metros de distância) e de ela apenas ter um bloco de noventa minutos na sala onde eu tinha seis turnos completos — manhã e tarde, com apenas uma hora para o almoço, nos três dias anteriores ao exame — a pessoa em causa mostrou-se absolutamente intransigente:
— Estou, como é habitual nesta escola, a dar esses apoios na hora e na sala habitual da minha disciplina!
Se eu andasse à procura de pretextos para mandar tudo à fava e me entregar apenas ao meu umbigo…

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Medo, silêncio e perdição!



No passado como no presente, muito boa gente — com lugar cativo na comunicação social — se tem pronunciado contra as pretensões dos professores, demonstrando, mais do que qualquer espécie de má vontade, uma gigantesca ignorância relativamente aos problemas mais intrínsecos e aos desafios quotidianos que a classe enfrenta. Nomes sonantes do nosso jornalismo deixam-nos perplexos com as barbaridades ditas e/ou escritas em grandes montras. Mais do que contra-atacá-los, importa perceber, pelo menos, uma parte das razões que levam esses e outros fazedores de opinião a tanta hostilidade: a parte que, eventualmente, decorre da nossa postura, da nossa (in)ação.
Na verdade, não me surpreende muito que os jornalistas (e a sociedade em geral) ignorem o que se passa realmente nas nossas escolas. Nós, os professores, fruto do medo reinante, silenciamos muito e douramos demasiado. É ao silêncio que damos quase todas as nossas dores, quase todas as nossas frustrações, quase todas as agressões, quase todas as humilhações, quase todas as desautorizações…; é com a purpurina mais generosa que damos vida à cinzentura e à negridão dos nossos dias, sobretudo nos momentos em que, sem arreios, devemos usar palavras nuas e cristalinas: nas reuniões, seja de grupo, seja de departamento, de conselho pedagógico, com os encarregados de educação… Erro fatal! Para que a sociedade nos compreenda e nos apoie, porque é a sociedade em geral que beneficia dos nossos serviços, é necessário verbalizar, sem medo, tudo o que nos constrange, nos oprime e nos obriga, muitas vezes, a agir contra a nossa consciência profissional. E não o devemos fazer apenas por direito, mas por dever: é nosso dever denunciar à sociedade tudo o que nos impede de realizar cabalmente a nossa missão. O silêncio, para além de alimentar a incompreensão e a hostilidade contra nós, é conivência com tudo o que degrada a qualidade do serviço que a Escola presta ao país. Temos de ser sonoros e intransigentes em questões de consciência profissional!
Tal como na escola, também aqui, neste espaço abertíssimo, nos inibimos, não por discrição, mas por medo, medo das retaliações, no dia seguinte. Não calamos apenas o que nos vai na alma, temos medo de comentar, de partilhar, de assinalar com um simples “like”… Não ocultamos apenas a lava que nos corrói, também contribuímos, decisivamente, para o silenciamento dos poucos que ainda ousam falar, dar a cara e o peito por todos. Deixamo-los sós, quando não fazemos pior! Enfim, somos injustas vítimas de outrem, mas também somos (e muito) vítimas dos nossos próprios medos, erros e omissões. 

domingo, 11 de junho de 2017

Finlândias em Portugal



Há um elo comum às quatro últimas equipas do Ministério da Educação que me desagrada profundamente, até ao mais íntimo dos meus genes: a desautorização dos professores.
Muito se tem falado em autonomia das escolas! Entretanto, nunca os professores perderam tanta autonomia. O que decide hoje um professor? O que decidirá amanhã? Logros atrás de logros!
Como pode a atual equipa ministerial desenhar uma reforma sem realmente escutar os professores? Como se pode perspetivar o sucesso de uma reforma que será implementada por ou corpo docente desautorizado, encolhido, rendido, alienado dos seus mais íntimos princípios pedagógicos, que vai para a sala de aula com medo dos alunos, dos encarregados de educação, do diretor…? Como pode alguém, com o mínimo de bom senso, querer chegar onde anuncia com um exército neste estado? Como podemos levar a sério um ministro ou um secretário de Estado que querem construir Finlândias em Portugal, sem revelarem a mais ínfima preocupação com a autoridade nem com a credibilização dos professores? Não confiam realmente naqueles que consideram "serviçais do ensino! Os atos são antíteses das palavras que nos dão em bandejas de veludo!
É triste, demasiado triste, esta realidade! Juram, constantemente, que querem melhorar a Escola, mas… apenas se preocupam com os resultados escolares! Não é bem a mesma coisa!
Há cada vez mais dias, como o de hoje, em que só me apetece arrumar a pasta, apagar o disco rígido do meu computador e… desligar definitivamente da minha profissão.