segunda-feira, 31 de julho de 2017

Postezinho irritante



Descobri que irrito bué de gente quando digo, à praça toda, que amo os meus alunos. E “prontes”, o meu lado infantil veio à tona.
A pedido de muitas famílias que não puderam estar presentes, dedico a todos os irritadiços este very nice “postezinho” amorositante (amoroso + irritante).
Não me vão agora fazer a desfeita de gostar, pois não?
PS – A despropósito, o meu artigo de ontem bateu todos os recordes aqui na serrania Eramá: mais de seis mil visualizações nas primeiras 24 horas. Ainda há hope!

domingo, 30 de julho de 2017

Todos os professores serão QM


Tarsila do Amaral, “Os operários”, 1933

Na última década, apesar da intensa e constante atividade crítica desenvolvida na blogosfera, a classe docente só tem perdido direitos, autoridade, respeito, autonomia, capacidade reivindicativa… enfim, VOZ. Concomitantemente, tem somado cargas de trabalho, atividades não docentes e expropriações sucessivas das suas áreas pedagógicas mais íntimas. Há, de facto, um “plano” para transformar os professores em meros executores de ordens e atividades, em meros aplicadores de conhecimentos e competências.
Neste acelerado processo de imbecilização e silenciamento da classe docente, tem ganho crescente relevo a voz dos diretores (ou, para ser mais rigoroso, daquele que diz que os representa, através da ANDAEP) e dos pais e encarregados de educação (ou melhor, daqueles que dizem que os representam, através da CONFAP). Não sei se é por ignorância ou por encomenda, a verdade é que, ultimamente, sempre que fala o Senhor Andaep a comunicação social toma-o como representante da opinião/vontade dos professores, como aconteceu com o bitaite dos dois semestres (uma hipálage ética e profissional, que consiste em atribuir ao ”objeto” qualidades de quem o possui). Os professores?! A ANDAEP (ou melhor, Filinto Lima) agora fala pelos professores?! Talvez ainda nem sequer represente a voz da maioria dos diretores e já o tomam como representante dos professores? Depois, entrevistam uma ou duas caras larocas e… toma lá mais uma sinédoque (tomar uma ínfima parte pelo todo silencioso e alheado): “os encarregados de educação querem isto, estão de acordo com aquilo”.  Até dos manuais fala um e outros sem que se faça ouvir uma única voz de quem com eles trabalha. É obra de vampiros, não é, Zeca?
Humor à parte, a realidade afigura-se miseravelmente triste para os professores. Já não têm voz praticamente nenhuma no quotidiano escolar e estão a assistir à emersão de outras figuras que, no palco reivindicativo, comunicacional e político, lhes estão a usurpar o espaço e a dignidade. A comunicação social, qual arauto acéfalo e subserviente, acrescenta decibéis a esta decadente sequela. E é neste quadro de devastação que, paulatina e discretamente, se vai instalando a logística da municipalização. Para os professores (logo, para os alunos) não podia surgir em pior conjuntura. Por vezes, até chego a pensar que certos mimos só exibem determinados temas na praça do pelourinho para nos desviarem do que se passa na porta do cavalo.
O Estado jamais abrirá mão do controlo científico, axiológico e político da escola. A tendência e os sinais dados apontam precisamente para o inverso (a desconcentração funcional deixa a tutela política mais livre para outros controlos). Portanto, para os municípios (ou regiões) sobrará sempre, e só, a gestão dos recursos materiais e humanos (com um ou outro arbítrio pedagógico, para brincar). Numa primeira fase (sonsa) os recursos materiais assumir-se-ão como quase exclusivos e perpétuos. Os professores, cândida e obedientemente, acreditarão e deixarão comprar. Numa fase posterior, tão subtil e manhosa como a mamã, os professores serão paulatinamente adicionados ao carrinho de compras dos municípios. É isto que o rosto dos tempos e o modus operandi político nos permitem prever.
A escassíssima capacidade reivindicativa de uma classe afónica dissipar-se-á completamente. Se, no presente, já temos outros a opinar e a decidir por nós, então, quando esses dias chegarem… O que agora está concentrado praticamente num só interlocutor decisório (o Ministério da Educação) fragmentar-se-á, diluindo e silenciando a nossa já miserável capacidade reivindicativa. Com o tempo, cada caso será um caso particular de um determinado município, o que, inevitavelmente, conduzirá ao alheamento e à indiferença geral. Os professores sentir-se-ão cada vez mais isolados, mais compartimentados, mais indefesos, mais incapacitados de reagir coletivamente, enquanto corpo. Os próprios sindicatos terão muito mais dificuldades na sua ação. A precaridade e a subalternidade dos professores roçará a indigência.
Catastrofista? Quando, em 2008, fiz uma leitura desta índole, os meus colegas de escola riram-se na minha cara e chamaram-me pessimista. Todavia, a realidade trouxe-nos tudo mais cedo e pior do que eu previa. Nesse tempo vindouro, os professores saberão o que é pertencer ao QM (Quadro de Município).

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Toda a verdade sobre a minha decisão de mudar de escola


Resolvi publicar, na íntegra, a carta que escrevi aos meus colegas de escola para lhes relatar pormenorizadamente tudo o que acontecera na sequência das iniciativas por mim tomadas a propósito do já famigerado episódio do casal que invadiu uma sala, onde decorria uma aula de 5.º ano, para agredir barbaramente a professora. Como sabem, foram estes tristes acontecimentos que ergueram a minha vontade intransigente de mudar de escola.
O caso só tem interesse por ser revelador do domínio profissional, intelectual, cívico e pedagógico que muitos diretores exercem sobre os ex-colegas, mantendo o corpo docente debaixo de uma nuvem de medo, de intimidação e de castração das iniciativas e das liberdades individuais. Os professores, em muitas escolas (para não dizer na esmagadora maioria) estão subjugados às superiores vontades do chefe. Mas, tal como este episódio bem demonstra, têm muita culpa em toda a alienação reinante. E uma classe que assim se entrega, se rende e se demite, por muito que trabalhe, não sei se pode esperar ser respeitada, sobretudo porque não é uma classe profissional qualquer, é a classe que forma o futuro que queremos ser.
Nesta situação concreta, vivida na primeira pessoa, a diretora não gostou que os professores tivessem tomado uma iniciativa sem a consultarem primeiro (sem lhe pedirem autorização), e interpretou-a como um desafio à sua autoridade. Na verdade, o que eu fiz (às claras, diante de toda a gente) foi protegê-la, uma vez que, depois de tomar conhecimento da ação de protesto, apenas lhe competia informar os encarregados de educação de que os docentes, no quadro do seu direito e da sua liberdade, aceitando as consequências de tal ato, tinham decidido comparecer na escola no dia X, mas que não iriam cumprir o serviço letivo, como forma de protesto relativamente ao sucedido. A direção nem sequer tinha necessidade de dizer se aprovava ou reprovava tal iniciativa. Informava, para que a comunidade escolar pudesse tomar decisões. Mas o seu desgosto não se ficou por aqui: receou que tal ação trouxesse má fama à escola e (isto sou eu a supor) que a minha iniciativa, em ano eleitoral, tivesse outras motivações. Se o pensou, fê-lo indevidamente, pois tinha consigo a minha “carta de apresentação”, escrita há precisamente dois anos, na qual lhe disse, de forma clara e inequívoca, que jamais repetirei a experiência de dirigir uma escola.
AQUI ESTÁ, POIS, TODA A VERDADE SOBRE AS RAZÕES QUE ME “OBRIGARAM” A MUDAR DE ESCOLA.  
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Estimados colegas,
Face à missiva de que apenas ontem tomei conhecimento — quer da existência quer do teor — sinto-me obrigado a importunar-vos, uma vez mais, para que possais fazer um juízo correto relativamente ao que se tem passado, desde o dia 07 de dezembro. Sem o conhecimento cabal de tudo o que é relevante, não podereis julgar nem as minhas atitudes nem a expressão do meu rosto, nos dias decorridos entre a assinatura do abaixo-assinado e o dia de ontem.

CRONOLOGIA DOS ACONTECIMENTOS
1- Na quarta-feira, dia 07 de dezembro (dia da agressão à nossa colega), às quinze horas, quando chegava à escola, encontrei-me, no parque de estacionamento, com o nosso colega XXXXXXX XXXXX, Presidente do Conselho Geral, e com a sua esposa, também nossa colega. Em resposta a uma sugestão de comentário sobre os enfeites de Natal, apresentei a ambos a ideia da falta coletiva e do cancelamento das atividades natalícias. Ambos me manifestaram o seu acordo. O colega XXXXXXX XXXXX sugeriu mesmo que fosse eu a redigir o texto, e até me disse que nem precisava de ser eu o primeiro subscritor. A colega XXXXXXX XXXXX lembrou que o dia era propício para encetar essa ação, pois, dali a duas horas, haveria reunião de todos os grupos disciplinares.
2- Nesse mesmo dia, após o intervalo das dezassete horas, iniciei — de modo aberto, frontal e transparente — a divulgação da iniciativa. Numa das salas em que entrei, estava o senhor Presidente do Conselho Geral, em reunião de grupo disciplinar. No vasto conjunto de colegas com quem falei, apenas duas professoras contratadas me manifestaram a possibilidade de não aderirem à “greve de zelo”, por questões contratuais, dada a importância que pode ter um simples dia para efeitos de concurso. Apesar de não ter escondido de ninguém a possibilidade real de uma falta injustificada (menos provável, se a adesão fosse em massa), todos me deram alento para continuar e todos os grupos concordaram que fosse eu a redigir o documento.
3- No dia 08 de dezembro, feriado nacional, a Diretora da escola escreveu aos professores, para os pôr ao corrente das diligências que estava a tomar. Não recebi nem tive conhecimento deste e-mail. Ao fim da manhã, tal como havia prometido a todos os colegas, enviei a proposta de abaixo-assinado e aguardei, até ao fim do dia, sugestões de alteração/correção. Apenas recebi um e-mail da nossa colega XXXXXXX XXXXX, a dizer-me que, de acordo com o combinado, tinha enviado o documento a todos os coordenadores e à Diretora. Disse-lhe que fizera muito bem.
4- No dia 09 de dezembro, sexta-feira, já não sei se no final do turno da manhã, se no início do turno da tarde (tantos foram os colegas com quem falei), encontrei-me, casualmente, a sós, na sala de professores, com a colega XXXXXXX XXXXX, que me disse que não assinaria o documento, pois tinha sido sensível ao conteúdo da missiva que a Diretora, no dia anterior, tinha enviado a todos os professores. Fiquei estupefacto, não pelo livre posicionamento da colega, como é óbvio, mas por não ter recebido a mensagem. De imediato, constatei que essa lacuna não era pontual, que já se existia desde praticamente o início do ano letivo. Certamente, uma falha processual (que todos os seres humanos, involuntariamente, cometem). A colega prometeu averiguar a anomalia e corrigi-la imediatamente, caso a sua existência fosse confirmada.
5- Após o intervalo das quinze horas, desloquei-me à Direção para entregar o documento, que tinha sido assinado por 41 docentes, embora já com duas desistências (duas assinaturas rasuradas). Estavam, portanto, um dia após o envio da missiva da Senhora Diretora, 39 professores dispostos a concretizar o exposto no abaixo-assinado: comparecerem na escola, mas não cumprirem o serviço letivo. Como a Dr.ª XXXXXXX XXXXX não estava, entreguei o documento ao seu adjunto, o Dr. XXXXXXX XXXXX, que me recebeu de forma muito simpática e fraterna. Perguntou-me se estávamos conscientes da possibilidade de uma falta injustificada. Respondi-lhe afirmativamente e acrescentei que a Direção, se tal viesse a verificar-se, estaria apenas a cumprir a sua obrigação. Ninguém poderia ficar melindrado.
6- Às dezasseis e trinta, uma vez que a primeira versão do abaixo-assinado tinha sofrido algumas alterações (ainda que ligeiríssimas e apenas na forma, não no conteúdo), não coincidindo, por isso, com o documento efetivamente subscrito, enviei um novo PDF à colega XXXXXXX XXXXX, pedindo-lhe que o reenviasse, tal como fizera no dia anterior, a todos os coordenadores, para estes o fazerem chegar a todos os docentes. Disse-me que não o faria, que não participaria mais em tal processo e que o fizesse eu mesmo.
7- Pouco depois das seis e meia da tarde, ainda de sexta-feira (18. 42 h), a colega XXXXXXX XXXXX, cumprindo o prometido, reenviou-me os e-mails que a Dr.ª XXXXXXX XXXXX dirigira, no dia anterior, a todo o corpo docente e aos representantes dos encarregados de educação. Disse-me que o meu contacto tinha sido acrescentado ao grupo e que o problema estaria, em princípio, resolvido. Caso notasse alguma falha, que a contactasse.
8- Nesse mesmo dia, ao início do serão (21.25 h) a Diretora enviou novo e-mail aos professores. Apesar das diligências feitas, três horas antes, pela colega XXXXXXX XXXXX , não recebi essa missiva.
9- Durante o fim de semana (dias 10 e 11 de dezembro), recebi vários e-mails de professores que entenderam dever dar-me uma palavra sobre a sua desistência da ação. Todos afirmaram terem sido sensíveis às palavras que a Diretora dirigira ao corpo docente, especialmente às medidas que estava a tomar. Pensei sempre que se tratava do conteúdo do e-mail que a colega XXXXXXX XXXXX me reenviara, na sexta-feira, ao fim da tarde.
10- No sábado, tomei conhecimento, porque uma colega o mencionou no seu e-mail, de que também o Sr. Presidente do Conselho Geral havia escrito aos professores da nossa escola. Não a todos, uma vez que eu não recebi tal missiva. Admito que o tenha enviado apenas aos coordenadores ou que o meu endereço, por lapso, também não esteja no seu grupo de contactos.
11- No domingo, dia 11 de dezembro, resolvi pesquisar, pelas assinaturas, o endereço eletrónico institucional dos subscritores, e enviei-lhes o documento por eles assinado (como era meu dever). Limitei-me a explicar a razão pela qual lhes enviava a versão final do abaixo-assinado e a dizer-lhes que, no dia seguinte, estaria na escola para cumprir o que havia sido acordado.
12- Na segunda-feira, dia 12 de dezembro, cumpri escrupulosamente o que consta no abaixo-assinado. Apenas a colega XXXXXXX XXXXX me acompanhou no protesto, evitando, com a sua determinação, que eu ficasse absolutamente só. Não esquecerei jamais o gesto desta minha conterrânea.
13- Durante toda a semana, como um anjinho, a todos mostrei rosto sorridente, sem sombra de recriminação (nem exteriorizada nem sentida). Por certo, muitos me terão interpretado mal, julgando que eu não me tinha sentido absolutamente nada melindrado com o teor do segundo e-mail da Senhora Diretora, que, habilmente, falou do «derrubar de uma grande escola que tantos, durante tanto tempo e com tanto esforço conseguiram edificar»; que, habilmente, referiu a «alegria de quem procura o escândalo», que não deve ser «alimentada pelo prejuízo do bom nome XXXX XXXX».
Não, colegas, se eu tivesse tido conhecimento desta missiva, embora continuasse a não vos censurar, não vos teria oferecido um rosto tão jovial.
14- Só ontem, sexta-feira, dia 16 de dezembro, a meio da manhã, em conversa fortuita com uma colega, fiquei a saber que havia sido enviado um segundo e-mail. Genuinamente admirada pelo facto de eu não o ter recebido, prometeu enviar-mo durante a tarde. Foi o que fez, tendo também tido a generosidade de me enviar a missiva do Senhor Presidente do Conselho Geral. Li os dois textos enquanto fazia tudo para encontrar o carteiro que deixara, durante a manhã, um aviso para eu ir aos CTT levantar uma carta registada, enviada pela Escola EB 2/3 XXXX XXXXX. Era, soube depois, a notificação da minha falta (justamente) injustificada. Fiquei revoltado, não com a injustificação da falta, como é óbvio, mas com a literatura que, momentos antes, acabara de ler.
Sou um professor vulgaríssimo, um simples professor que, no quadro das suas limitações, faz diariamente o seu melhor. Não desempenho (nem quero desempenhar) nenhum cargo na escola, do mais modesto ao de maior responsabilidade. Não tenho, tanto quanto julgo saber, esse poder de derrubar o que, a muitos, demorou tantos anos a construir. Excetuando as minhas humanas incompetências, não vislumbro em mim tamanho poder deletério. Ainda assim, admito que a minha presença — pelo meu caráter, pela minha forma de estar e de ser, pela minha frontalidade, pela força das minhas convicções e pela intransigência dos meus princípios — possa perturbar o são e frutuoso equilíbrio em que a escola tem vivido. Por isso mesmo vos comunico que, após o próximo concurso interno de colocação de professores (que está para breve), deixarei a Escola XXXX XXXX.
Quando a notícia da minha saída for conhecida, repetir-se-á, uma vez mais, a cadeia difamatória injusta: antes mesmo de eu me apresentar na nova escola, já alguns dos meus futuros colegas julgarão conhecer-me, porque o mesmo tipo de gente que, num passado próximo, tratou de semear receios, preconceitos, distâncias, friezas e más vontades, vai continuar a estender-me a passadeira negra. Eu continuarei a ser o mesmo, aquele que vós (agora) conheceis: autêntico e solidário. Permanecerei discreto até ao dia em que uma crise se abater sobre alguém. Nessa altura, erguer-me-ei como um lobo e darei o corpo às balas. Depois, ficarei novamente só, e terei de beber, novamente, todos os cálices de fogo. E terei, uma vez mais, de ir embora, por se me tornar o chão insuportável. É este o fado dos homens como eu, mas também é este (não sei se feliz ou se infelizmente) o miolo que faz a textura de quem escreve ou sonha ser escritor.
Na verdade, foi em mim que os encarregados de educação vieram bater.
Com todo o meu respeito,
Luís Costa

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Gato malhado do ensino



Apesar de ser um tipo solidário, capaz de pôr os interesses do coletivo — das pessoas que amo, ou simplesmente de um/uma colega que, subitamente, precise de ajuda — acima dos meus, sinto-me muitas vezes como aquele gajo que um certo tipo de paternalismo define como má companhia. Já na minha juventude era assim.
Quando era mancebo, dado a namoricos (enfim, um trabalho árduo a que eu nunca virei a cara), os pais das moçoilas sempre me detestaram (não sei porquê). Como sempre fui bom aluno, pacato, cordato… só via explicação para tal atitude no relevante defeito de ser pobre, uma vez que de bonitezas/feiuras eles nada percebiam. Mas… o que é facto é que, invariavelmente, com uma unanimidade digna de uma boa ditadura, não iam com a minha cara. Como amigo da família, tudo bem, mas quando passava à condição de namorado da filha… Não sei que bicho lhes mordia! Ficavam possessos! Passei as passas do Algarve com alguns presunçosos pais de moças bonitas. Dois casos foram autênticas novelas que fizeram, durante anos, as delícias do antigo Facebook rural. 
Atualmente, em contexto radicalmente diferente (profissional), continuo a sentir-me aquele gajo que os papás e as mamãs das escolas veem como má companhia, já não por ser pobre (mau fora!), nem sequer de espírito, mas por ser má influência para o professorado acomodado e obediente. Ou porque alguém, direta ou indiretamente, lhes dá a entender que não sou visto com bons olhos ou porque as pessoas percebem que não lhes sairá a lotaria escolar, se forem vistas muitas vezes comigo, a verdade é que sou, para quase todos os efeitos, como uma autêntica doninha fedorenta. Com o tempo, sou eu mesmo que me afasto das pessoas, para não lhes arranjar problemas. Sei que ninguém ameaça ninguém com maus horários, com servicinhos impróprios para consumo, com turmas de elite, com más vontades e tolerância zero… mas estou convencido de que, no subconsciente da malta, esse bloqueio é ativado (e algo semelhante acontece na blogosfera, não tenho dúvidas).
Há, porém, uma diferença colossal entre as moçoilas do meu passado (que Deus as faça felizes!) e os moçoilos e moçoilas com quem trabalho no presente. As primeiras eram detentoras de uma visão muito diferente da dos papás (porque tinham caráter e bom gosto), e não se deixavam demover nem com ameaças de deserdação; os segundos… já nem sei muito bem o que pensam. A verdade é que, no dizer, vão concordando comigo, mas no fazer... é que são elas! Só fazem o que o papá  (ou a mamã) quer.  
Profissionalmente, já me convenci de que vou ficar encalhado ad eternum, até no escalão em que me encontro.  Sou uma espécie de gato malhado, ou melhor, de lobo malhado do ensino. Tal como no passado... que se lixe!

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Realidades adulteradas


1. Logo que António Costa voltou de férias e se reuniu com os chefes militares, o país ficou a saber que o furto de material bélico em Tancos não foi grave. A António Costa, sagaz que é, bastou pedir ao Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, ao Chefe do Estado-Maior do Exército, ao ministro da Defesa e ao ministro dos Negócios Estrangeiros, precipitados que foram, que lessem o duplicado da guia de transporte, deixado pelos ladrões na Porta d’Armas do aquartelamento de Tancos, para poderem concluir que tudo estava fora de prazo e nem para palitar dentes servia. Dir-se-á que António Costa substituiu a metáfora das vacas voadoras pela metáfora dos moluscos contorcionistas, isto é, o optimismo irritante pelo realismo conveniente. Um senão, que não é pequeno: para se redimir e tornar o roubo poucochinho, Costa rasteirou Marcelo. Marcelo, que nos disse que a coisa era grande antes de ele, Costa, tempestade passada, reaparecer para nos dizer que a coisa era pequena. Marcelo, que foi a Tancos quando ele, Costa, estava a banhos. Marcelo, que respondeu quando ele, Costa, desapareceu. Marcelo, que não é António José Seguro, como Costa sabe.
2. O Conselho Nacional de Educação selecionou 25 dos 713 agrupamentos escolares existentes para produzir um estudo que, em tese geral, deixa a ideia de que agrupar escolas foi uma boa política. Sob a epígrafe Organização escolar: os agrupamentos, a publicação que divulga o estudo tem aspectos curiosos. A dado passo, reduz as críticas feitas ao tamanho dos agrupamentos à condição de “mitos”, já que agrupamentos com mais de 3000 alunos apenas existem 26, número que, lê-se, significa 4% do universo em análise. Com este modo de colocar o problema, passa-se, via capciosa indução subliminar, a ideia de que são reluzentes todos os agrupamentos abaixo dos 3000 alunos. Sucede que são muitos os que pensam (e eu pertenço ao grupo) que arrebanhar sob a mesma direcção escolas fisicamente distantes, com alunos de faixas etárias dos quatro aos dezoito anos, tenham no conjunto mais ou menos que 3000 alunos, foi e é um crime pedagógico, usurpador da dimensão personalística que toda a escola e todo o ensino devem ter.
Outra curiosidade, para ser generoso no atributo, é que o estudo considera, como acabo de referir, que 4% dos agrupamentos tornam mitológica uma crítica. Mas valida-se a si próprio como estudo, quando assenta exactamente numa amostra de igual dimensão, isto é, 4%. Linhas acima, 4% é insuficiente. Linhas abaixo, 4% é suficiente.
Não permite o espaço alinhar argumentos, que já usei em artigos precedentes, nem invocar com detalhe acontecimentos que contradizem o que o estudo concluiu. Mas entendamo-nos e não adulteremos a realidade do dia-a-dia das escolas: os agrupamentos, e com eles o modelo de gestão unipessoal, foram e são instrumentos de centralização e controlo político, da responsabilidade do PS e do PSD. Aumentaram a indisciplina, promoveram a proletarização dos professores, afastaram tenebrosamente a pedagogia do arco da decisão que importa e ajudaram a pôr números onde deviam estar pessoas e simples estatística onde devia estar complexa avaliação educacional.
3. Terminados os exames nacionais, será que os seus resultados permitem extrair conclusões sobre o que o sistema de ensino acrescentou ou não ao conhecimento dos alunos? Dificilmente. Inclino-me para admitir que os avanços e recuos, estatisticamente invocados, se devem antes à variação do grau de dificuldade das respectivas provas. Tanto no 9.º como no 12.º ano, as pequenas oscilações verificadas não permitirão, sensatamente, ter leitura diferente. A propósito, será bom recordar que, há um par de anos, numa conferência em Coimbra, o próprio presidente do Conselho Científico do IAVE afirmou que o ministério “encomendava” o resultado dos exames com o intuito de manter a estabilidade de uns anos para os outros e que as equipas que concebem as provas conseguem produzi-las para as notas que queiram. A propósito, seria bom não esquecer que houve este ano fraude grave, escandalosamente inconsequente até agora.
In Público, 26/07/2017

Sonhos, visões e faisões



Continuo a pedir encarecidas desculpas pelos eventuais transtornos que estou a causar a quem já tinha investido num fato negro (os mais chegados), numa gravata de luto, numa coroa de flores, num epitáfio com sainete fúnebre, num requiem qualquer… Guardem para mais tarde, por favor, que eu (infelizmente) não vou ficar cá para semente.

O Justino vai deixar o CNE sem ver o seu sonho concretizado (o fim d'arre tenções). Mas, tal como Moisés, não fica muito longe da sua promised land, pois já estamos nos arrabaldes. O mesmo (embora um pouquito pior) acontecerá, dizem as tábuas, com o Lima, cujo sonho — anulativo com dois semestres — está agendado para o Dia de S. Nunca, depois do jantar e antes de ir para a cama.


Diz aquele que fala por todos os diretores — que tudo sabem sobre o que pensam e querem os professores — que com um longo semestre pela frente (e outro por trás, como é óbvio) os alunos têm mais tempo para recuperarem os atrasos evidenciados na primeira pauta. Non capisce niente! Então?!  Toda a gente sabe — a sociedade inteira, inteirinha — que os alunos recuperam de forma absolutamente incrível em apenas um mês e meio (ou dois, vá lá c’os diabos!). Basta comparar as notas do segundo período com as do terceiro. É cá cada milagre!!! Para quê, portanto, tornar tão fastidiosa a prodigiosa recuperação que os catraios conseguem fazer? Querem desmotivá-los, é?
Pois… tenho cá para mim (saber empírico, só de experiência feito) que os diretores são a grande mola impulsionadora do sucesso. Não vale a pele mexer em mais nada, basta mantê-los, que eles sabem bem como fazer as coisas. Aliás, a ideia dos dois semestres (embora peregrinamente extraterrestre) talvez seja motivada por essa árdua atividade milagreira. Espremer professores não é a pera doce que quase tolos imaginam! Dá muito trabalho e mais chatices ainda!

Eu só concordo com a ideia dos dois semestres, se for non stop, sem férias nem interrupções letivas. Vá lá… ainda aceito os fins de semana, para arrumar a casa e... sabe-se lá o quê!

terça-feira, 25 de julho de 2017

Resolvi não falecer



Ainda há no meu alforge alguns uivos por soltar, e quero soltá-los com rosto e com assinatura. Por outro lado, mantenho aquela sensação (megalómana talvez) de que, sem mim, esta coisa disforme a que sói chamar-se “luta dos professores” (não riam) fica demasiado mole, demasiado frouxa, sensaborona, nem carne nem peixe, nem preto nem branco… E também se dá a estranha coincidência de, na minha ausência (cacofonia voluntária) me acontecerem coisas terríveis, sucedendo algo muito similar à Escola Pública. É verdade (pelo menos a primeira parte)!
Quando desativei o Bravio, o servidor da minha escola começou a discriminar-me. Removeu-me do grupo que recebeu um e-mail muito importante da diretora, cujo objetivo era demover os professores de uma ação de solidário protesto que eu organizara. “Corrigido” o erro, eis que… nesse mesmo dia, horas depois, o raio do servidor voltou a ignorar-me, não me enviando outro e-mail dirigido a todos os que tinham subscrito o abaixo-assinado e no qual eu era visado, ainda que de forma subtil (aconteceu o mesmo com idêntica missiva enviada pelo presidente do conselho geral). Na passada sexta-feira (a mais de um mês do fim do vínculo), precisamente no dia em que me apresentei na escola onde fui colocado, o raio do servidor decidiu (assim, sem mais nem menos), desativar a minha conta de correio institucional. Perdi tudo o que lá tinha, e também fiquei impossibilitado de enviar aos meus colegas, de forma digna, alguns documentos importantes. Tive de andar a pesquisar no meu telemóvel e a pedir favores. Será que o servidor soube que eu fora bem recebido e que me sentira em casa? Será que teve ciúmes? Admito, mas escusava de escacar a louça toda, porra!
A nível nacional... quase a mesma coisa. Alguns bloggers (pegando em bandeiras que me são caras) desataram a falar do medo dos professores e do modo como são facilmente levados, enganados… O que é estranho, muito estranho, é falarem do medo a medo. Assim não se vai a lado nenhum. É preciso determinação, clareza, afirmação, posicionamento inequívoco, caros colegas: “Sou a favor disto!”; “Sou contra aquilo!”… Tibieza e bipolaridade a mais e ousadia e risco a menos. É por isso, só por isso, que outras classes profissionais vão ganhando e nós somos comidos, papados e gozados. Somos a vaca mansa do regime. Aos desistentes que estão nas escolas (a vastíssima maioria) dirigem-se as palavras hesitantes de quem prega. Ninguém liga aos professores, ninguém lhes pede opinião, nem mesmo em assuntos intimamente relacionados com a prática didática. Porquê? Porque no nosso lugar, dentro de nós, já não mora ninguém! Desistimos de ser quem somos para sermos quem os interesses instalados querem que sejamos. É lógico que não nos ouçam nem nos respeitem.
Como se isto não bastasse, certas figuras (negras, digo eu) voltaram à seara. É o caso óbvio do pai dos diretores, novamente acolitado pelos pais dos pais. Quer o ano letivo dividido em dois semestres. Ah ah ah! Enfim, é a visão administrativa, meramente administrativa, pauperrimamente administrativa… própria de quem está de fora. Não admira, pois, que outros forasteiros o apoiem (refiro-me a todos os que não trabalham dentro daquele cubinho mágico). O Lima está tão vidrado nesta nefasta fantasia, que até se esqueceu de que, ainda há dias, propôs ao Ministério do século XXI que não inventasse e que acabasse com os experimentalismos. Só ele é que pode. Mal por mal, prefiro que seja o Ministério a inventar!!! Os seus francoatiradores não têm a pontaria nada afinada.
Enfim, caros colegas (e não só), vim para apresentar reclamação por certas exéquias do meu suposto funeral.  As notícias da minha morte eram manifestamente exageradas.

Algo está para acontecer no ERAMÁ




Logo, começo a explicar. 
Não trarei a paz na bainha!

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Carta aberta aos meus alunos do 7.º F



Estimados alunos,
Tal como previa (e como era meu desejo), deixarei de ser professor do quadro da André Soares no final de agosto. Sobre os motivos, não direi nem mais uma palavra, pois estou certo de que os conheceis. Tenho também a convicção de que sabeis que, numa situação de normalidade, jamais vos deixaria “a meio” do caminho (se não fosse esse o vosso desejo) e que tudo faria para vos levar ao melhor porto. Mas… enfim, a vida é assim mesmo: tem circunstâncias que são superiores à nossa vontade e princípios que, depois de adotados e entronizados, reinam em nós, fortalecendo o nosso caráter. Têm, por vezes, um custo elevado, mas são sempre dignificantes e honrosamente diferenciadores.
Sabeis que, por vós, levo o coração (re)partido, pois sois, de mim, a parte que fica. Ainda hesitei, em tempo útil, mas… para além de um eventual recuo me fazer perder o crédito da palavra dada e publicamente afirmada, seria um ato de pretensioso egoísmo: como se admitisse que, sem mim, os vossos amanhãs tivessem de ser escuros. Grande tolice! Na verdade, depois de mim, virá (de certeza) alguém mais competente do que eu, talvez mais jovem do que eu, que saberá cativar-vos e ensinar-vos melhor do que eu. Essa é — dou-vos a minha palavra de honra — a parte que me deixa mais tranquilo. A parte restante, como facilmente depreendereis, é coisa minha: da minha saudade, do afeto, da consciência profissional…
Mas… falemos de coisas mais “substantivas”(em jeito de balanço): o que levo e o que espero ter deixado.
Levo comigo um extraordinário grupo de alunos num tesouro de memórias: a vossa educação, os vossos olhares limpos e transparentes; a vossa entrega, a constante vontade de superação, de fazer sempre melhor, de alcançar os melhores resultados; a vossa necessidade (tão estimulante!) de querer saber os porquês de tudo; as aulas de apresentação dos trabalhos (quase sempre acima das expectativas); a aula em que apareci trajado de palhaço e que acabou por decorrer com “toda” a normalidade, graças ao vosso respeito; o final de aula em que “vesti” a pele de escritor; a derradeira aula, de dramatização (que só aconteceu porque vós fizestes mesmo questão); as aulas de sexta-feira à tarde (“fora da caixa”) e a excelente disposição que aí reinava, apesar do tema ser a gramática; as vossas auras flamejantes, no dia em que me informastes que uma professora tinha acabado de ser barbaramente agredida… Tantas lembranças!
Aprendi muito convosco, fiz muitos materiais pedagógicos para poder corresponder ao vosso estímulo… tornei-me melhor professor. E diverti-me muito na vossa companhia. Alguns momentos de irritação? Talvez — um aqui, outro ali — mas, como a minha capacidade de retenção de recordações já não dá para tudo, vou guardando o melhor (que ocupa imenso espaço).
Quanto ao que espero ter deixado, os conhecimentos ocupam o derradeiro lugar. Não faltará quem vos ensine melhor do que eu. Convosco, é fácil lecionar. Por isso, espero merecer um lugar digno na vossa memória pelo exemplo dos meus atos: pela pontualidade, pela assiduidade, pela entrega à profissão, pela disponibilidade total para os alunos, pelo rigor na preparação das aulas, pela humildade, pelo afeto, pela solidariedade incondicional (quando foi necessário), pela verticalidade, pela integridade… Se deixei pelo menos uma destas sementes em cada um de vós, então… sou um professor realizado. Deixei o melhor que o ensino tem. O resto… está nos manuais.
Quanto ao próximo ano letivo, não preciso de vos dizer absolutamente nada, pois sei que continuareis a dar o vosso melhor, que é efetivamente excelente.
Termino com o obrigatório pedido de desculpas, por divergir do trilho com a peregrinação em curso. Não é bom mudar frequentemente de professor. Todavia, estou convicto de que sabereis compreender e aceitar as minhas razões.
Até sempre, inesquecíveis alunos!
Professor Luís Costa

PS – Esta missava será o último artigo do meu blogue — Eramá — de cuja existência (doravante efémera) só hoje vos dou conhecimento.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Primeira despedida



Cumprindo o que aqui disse há dias, em linha reta, o encerramento do Eramá (e tudo o que ele representa) está agendado para muito breve. Amanhã publicarei o meu último escrito — dedicado aos meus alunos do 7.º F (os restantes eram de 9.º) — de quem vou ter muitas saudades. Quero que sejam para eles as últimas palpitações deste meu estandarte de palavras, que ficarão por aqui a serenar durante três dias, até as tochas se extinguirem. Faço questão que sejam eles os primeiros a lê-las.
Para ti, leitor, é com agradecimento que visto esta despedida. Foi um prazer saber que te desassosseguei, que te acicatei, que te alertei, que te fiz pensar… e que te fiz rir também (e é tão poderoso o riso!). Não será fácil esta ausência, porque tenho de manter uma luta diária contra os meus genes, que me pedem constantemente o contrário da acomodação. Mas… enfim, é uma peleja que trará um pouco mais de paz ao mundo.  
Até sempre!

domingo, 16 de julho de 2017

Dias de fervorosa fé


Estamos nas vésperas da Roda da Sorte para os docentes (andará amanhã ou na terça-feira, segundo dizem os adivinhos acreditados). Portanto, hoje é dia religioso para muita gente.
Enquanto a quase totalidade dos opositores ao concurso está a rezar ao seu santo de eleição para ficar na Escola A ou na escola B, ou não muito longe de casa ou…  no território nacional, os meus opositores (todos docentes) estão divididos, mas convergentes na sua fé, e rezam por mim (não preciso, portanto, de rezar nem de maçar santos que não tenho). Serão (julgo eu) tantos os que rezam para que eu me “amande” dali para fora como aqueles que rezam para que eu não vá parar ao seu quieto paraíso:”Avé Maria, cheia de graça, levai este senhor convosco…!”; “Pai Nosso, que estais no Céu, sacrificado seja este nome… não venha a voz ao nosso reino…”. Vamos lá ver quem tem o santo mais poderoso. Espero, contudo, que não vençam os poucos que rezam à Comadre Morte e ao Mafarrico (os que me odeiam e os que me amam excessivamente)!
Perceberam agora, confortáveis apreciadores dos meus ditos, por que motivo vou ali e já venho? Acabou-se o prazer de estar a comer uvas doces e frescas, enquanto o miserável gladiador, estupidamente, rebola por nós no tórrido círculo da arena! 

sábado, 15 de julho de 2017

Subitamente


Subitamente, percebemos que as palavras acabadas de dizer eram as últimas. Todas as outras — as que esperavam nas intenções e nas promessas —, apesar dos viçosos estames que traziam, eram absolutamente supérfluas, infecundas e inúteis, porque estão… ou fechados… ou secos... ou pútridos os gineceus.
Subitamente, percebemos que é ao silêncio que devemos entregar todas as palavras por dizer; que é no seu ventre imaculado, nos seus leitos de negrura e solidão, que a eloquência germinará até se fazer pura luz. Afinal, basta contemplar o céu em noite escura e limpa para percebermos que todo o universo é assim.
Subitamente… fica um vazio prematuro, porque as palavras por dizer se ausentaram, por terem percebido, subitamente, que eram a derradeira esperança da razão. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Goodbye, Luís Costa!


A decisão está tomada: vou mudar de vida!
Uma década de luta, demasiadas bofetadas, demasiados pontapés, demasiadas mordidelas daqueles a quem quis dar a mão, demasiadas parcialidades, demasiadas perseguições… cuspidelas, escarradelas e algumas facadas no lado esquerdo das costas, com perfuração profunda. Só não me desgrenham os cabelos porque… não é possível. Para quê? Sim, já parti e regressei muitas vezes (e poucos acreditarão que tal não volte a acontecer), mas… um dia…  
Sei que há bloggers da Educação muito mais úteis ao professorado do que eu, mas poucos poderão dizer que são mais ousados, que combatem mais o medo, que encaram o monstro tão de frente. Não são tão quixotescos nem tão estúpidos! É por isso que sofro muito mais retaliações, granjeio muito mais inimizades, muito mais incompatibilidades… É por isso que me estou a transformar num nómada, enquanto outros, muito mais politicamente corretos, conseguem viver um quotidiano muito mais confortável e cordato.
O que mais me dói — bem lá nas profundezas da alma — são as dentadas daqueles por quem mais me dei, por quem mais me expus, por quem saí do meu castelo seguro e confortável, arriscando tudo, sem necessidade absolutamente nenhuma, sem interesse absolutamente nenhum, sem nenhum desejo de protagonismo, sem nenhum calculismo… apenas por solidariedade, apenas pelo sentido de justiça… por puro amor à classe, ao ensino, a uma das mais nobres missões do Estado. E como dou a cara e atuo só, absolutamente só — lá vem a metáfora do lobo solitário — sou um alvo muito fácil. Ostentar medalhas de parcialidade contra mim, impertinência contra mim, de maldade contra mim, de ostracismo contra mim… dá pontos na caderneta de certas simpatias, atrai certas sinergias e talvez algum bónus.
Se o concurso interno responder favoravelmente à minha (contraditória) vontade de sair da escola onde leciono, aproveitarei, de imediato, essa nau para me fazer a esse “prometido” mar pacífico (uma espécie de Ano Novo, nada mais). Vou às catacumbas, arrumo a armadura e penduro a espada. Se tal não acontecer, ainda haverá 0,1% de possibilidades de continuar por aqui mais um mês e pico (só por não haver premência).
Em qualquer caso, jamais deixarei de ser quem sou, embora deixe, em parte, de ser como sou. Serei a mesmíssima pessoa, mas não me levantarei para dar o peito por ninguém. Até aqui, cansei-me muitas vezes (o que abre a porta a um eventual regresso, após o descanso), mas agora estou efetivamente morto para altruísmos suicidas. No entanto, aqui fica uma certeza (importantíssima): jamais erguerei um dedo contra os meus colegas, nem mesmo contra aqueles que me mordem quando os beijo. É também isso que quero dizer quando digo que não deixarei de ser quem sou.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Verdadeiros contratos de autonomia


Os experimentalismos, os modernismos, os vanguardismos, os “finlandismos” e muitos outros “ismos” são tantos e surgem com uma frequência tão frenética e tão vertiginosa (alucinante, mesmo), que já se justifica a existência de uma reserva pedagógica, para salvaguardar determinados métodos, determinadas experiências, determinadas exigências, determinadas posturas, determinados estilos, determinadas verticalidades, que estão em seríssimo risco de extinção. É que… se a coisa der para o torto (na vida real), convém ter alguns espécimes em viveiro.
Em conformidade com o conteúdo do primeiro parágrafo, vou fazer uma proposta revolucionária a… quem de direito. Aproveitando uma figura que já existe, que é muito cool e está na moda — os contratos de autonomia —, proponho o alargamento deste conceito às escolas que queiram continuar a exigir respeito pelos espaços e pelas pessoas, a só passar quem realmente está preparado, a salvaguardar a autonomia pedagógica dos professores, a levar a sério as faltas de presença e as faltas disciplinares, a votar mais para eleger representantes e menos para alterar notas… Enfim, se é de autonomia que se trata, respeitemos também o próprio conceito. Não acredito em autonomias condicionadas a um catálogo de uma só cor e duas ou três nuances. Seria uma espécie de projeto-piloto ao contrário, mas com idêntico sentido revolucionário.

Sim, podem trincar-me!


Depois não digam que eu só gozo com presidentes, ministros, secretários de Estado, diretores...

Afinal as vacas não voam


Seria divertido, não fora uma espécie de vomitório, analisar comportamentos políticos e institucionais ao longo dos tempos. A direita, que ontem gritava a necessidade de reduzir as “gorduras” do Estado e tesourava sem critério tudo o que era público (Educação e Saúde que o digam) apresenta-se agora a protestar com vigor contra a redução do financiamento dos serviços do Estado. O CDS conservador, pouco dado noutros tempos à justiça dos descamisados, é agora o primeiro a exigir demissões, enquanto a tradicional esquerda radical ajeita a gravata da contenção responsável e abotoa com classe o paletó da responsabilidade de Estado. O Ministério Público, esse decantador enigmaticamente vagaroso de processos que poderiam inspirar J. K. Rowling, acaba de fulminar, um ano depois, três secretários de Estado do PS, que aceitaram da Galp uma viagem rapidinha para ver a bola. Talvez possamos agora admitir que um procurador persistente, algum dia, nos venha garantir que a viagem em jacto privado para o Brasil, mais a semana de férias para si próprio e família, que o então primeiro-ministro Durão Barroso, do PSD, aceitou do empresário João Pereira Coutinho, sempre estiveram ética e legalmente separadas da venda da Quinta da Falagueira, que o Estado fez, uma semana depois, ao irmão do generoso amigo de Durão Barroso.
Perante o caos administrativo que deixou 64 mortos e 200 feridos em Pedrogão-Grande, António Costa não deu respostas. Fez perguntas e foi de férias. O que até agora percebemos é que todos os organismos envolvidos negam responsabilidades.
A bagunça dos exames nacionais mais o grave roubo de armamento pesado nas barbas da tropa de elite remeteram António Costa para uma sonora ausência e apenas lhe apagaram o habitual sorriso trocista. O que até agora percebemos é que o grande negociador é um pequeno chefe quando o contexto é de dificuldades e o éthos é de inimputabilidade.
O que aconteceu em Pedrogão-Grande, o que aconteceu em Tancos e o que aconteceu com os exames nacionais é deplorável e inaceitável. Mas o que até agora percebemos é que, afinal, as vacas não voam.
A ligeireza com que o ministro da Educação tratou a fraude do exame de Português, as orientações para subir notas a eito e passar alunos com cinco negativas num currículo com nove disciplinas (é ler as linhas e as entrelinhas do despacho normativo 1-F/2016) cumprem a espiral de despudor e facilitismo que subjaz às directivas do Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar e alinham com a falência da Administração Pública, reflexo natural de uma austeridade que nunca acabou e foi agravada pelo preenchimento de postos de poder por populistas irresponsáveis. Têm os que capturaram o Ministério da Educação culpa directa dos costumados desmandos do IAVE? Naturalmente que não, porque foram outros os criadores da criatura e vários os padrastos e madrastas que a têm protegido. A culpa de Tiago Brandão Rodrigues e João Costa é a de permitirem a execração sumária que o monstro dedica a quem lhes aponta os erros. A culpa que lhes assiste é a de validarem a apologia da asneira.
Apesar de a Matemática ser universalmente havida como ciência exacta, considera o excelso IAVE que um resultado completamente errado está 75% certo, porque os parênteses (cuja omissão na multiplicação é obviamente um erro grosseiro) são simples formalidade. E o ministro, físico de formação e “pedabobo” de ocasião, diz que a coisa não passa de uma diferença de opinião entre o seu instituto e uma sociedade científica.
E assim vamos a caminho dos exames do século XXI, feitos online, só com perguntas fechadas e dispensa de professores para os corrigir, talvez com as respostas previamente distribuídas aos alunos, para garantir a equidade e a ausência de fraudes selectivas.
Viva o modernismo pedagógico, viva a didáctica sobre skate, viva a avaliação progressista, vivam os governantes empreendedores e os directores submissos, abaixo os professores sérios!
in Público, 12/07/2017



terça-feira, 11 de julho de 2017

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Retenção proibida


Quem não sabe (ou já não se lembra) que a origem de uma boa fatia do “insucesso acrescentado” está na já vetusta decisão de “proibir” a retenção dos alunos no primeiro ano de escolaridade? A troco de uns não sei quantos traumas, à conta de apoios que nunca chegaram efetivamente, os alunos foram sendo empurrados para a frente. Os professores viram a heterogeneidade das turmas a aumentar, viram as próprias turmas tornarem-se mais numerosas (algumas com diferentes anos de escolaridade), viram a indisciplina, o desmazelo e o desinteresse a crescerem (de modo inversamente proporcional à sua autoridade)… e, finalmente, viram também crescer a pressão para fazerem transitar todos os alunos. Os professores do primeiro ciclo têm sido uns heróis, heróis muitas vezes incompreendidos e sós.
Quem já não se lembra de ter constatado (incontáveis vezes) que os alunos chegam cada vez com mais dificuldades, com mais lacunas e mais indisciplinados ao segundo ciclo, ao terceiro ciclo...? Não, não estou a apontar o dedo a ninguém, estou apenas a apontar o dedo à fonte e a declarar que muitos dos “males” com que hoje nos debatemos são consequência dessa falsa premissa (porque não há dinheiro que a pague): o aluno transita porque será apoiado, para recuperar o seu atraso até ao final do ciclo. É este o embuste. O que acaba por acontecer, na maioria dos casos? Empurrão atrás de empurrão até uma qualquer saída “airosa”. Contrariamente ao que dizem “certos estudos” e o “discurso oficial”, a minha experiência diz-me que quanto mais cedo a retenção acontecer mais profícua ela se torna.
A par deste tabu da retenção no primeiro ano de escolaridade, foram adicionados ao kit do embaratecimento da escola pública (ainda se lembram?) dois conceitos que visavam (e ainda visam) tornar “proibida” a retenção, fazendo crer que, em tais casos, os professores estão a cometer um “autêntico crime”, uma espécie de infanticídio pedagógico: a “dupla retenção” e a “retenção repetida”. Se bem se lembram, a Lei até já permitiu que os conselhos de turma pudessem fazer transitar alunos com quatro, cinco, seis… negativas, sem alteração de nenhuma nota. Bastava indicar na pauta uma determinada alínea de um determinado normativo. Por que motivo cria agora tanta escandaleira o facto de haver diretores que pressionam os conselhos de turma para passarem alunos com quatro ou cinco negativas? Porque as notas são alteradas artificialmente para os alunos passarem? Se é por isto, assino por baixo.
Agora estamos em plena apoteose de todo esse velho processo de eliminação do insucesso sem eliminação das reais dificuldades/atrasos/lacunas dos alunos. Os professores acreditam mesmo que é desta que os tais apoios vão ser suficientes e eficazes?  Os professores acreditam mesmo que é uma flexibilidade qualquer feita com contas de horas retiradas daqui e acrescentadas ali, com falsas transversalidades, como mais trabalho burocrático… que os alunos vão ser efetivamente recuperados? Os professores, que também acompanham as notícias do país, acreditam mesmo que, presentemente e num futuro muito próximo, haverá meios para recuperar efetivamente quase todos ou todos os alunos que transitam com graves lacunas? Acreditam mesmo?
Fez muito bem este Governo em tomar como grande objetivo a universalização do pré-escolar. A minha vénia. Todavia, está a borrar completamente a pintura ao não investir seriamente no primeiro ciclo, relativamente ao qual o sistema precisa de uma fortíssima discriminação positiva: turmas efetivamente diminutas (não mais de quinze alunos no primeiro ano) e apenas um ano de escolaridade em cada sala; mais autoridade aos professores deste nível de ensino; mais responsabilização (a sério) dos encarregados de educação. Não pode haver melhor investimento. O que se gasta “a mais” aqui poupa-se nos níveis seguintes, e obtém-se muito melhores resultados (verdadeiros). Temos de combater precocemente aquilo que mais tarde só pode ser atenuado ou iludido, porque é, na prática, irrecuperável. Todos sabemos isso (creio eu).
Todos saberíamos compreender e todos nos envolveríamos — acredito — num esforço sério (como este) de correção pedagógica do ensino básico e de melhoria efetiva de todo o sistema de ensino. Tudo é muito mais fácil quando os agentes acreditam mesmo. E eu creio de tal forma neste caminho, que aceitaria o congelamento definitivo da minha carreira para ajudar a patrocinar uma tal medida discriminatória. Afinal, não foi o dinheiro que me trouxe para o ensino. Não sou um apóstolo das retenções, mas quero algo que as substitua com vantagem (não na Austrália, em Portugal)!

domingo, 9 de julho de 2017

Coração partido!



Fim de semana em Trás-os-Montes, alheado destas coisas cibernéticas. Vinha com ideias de voltar a envergar a armadura e de me atirar àqueles que começaram a destruir o ensino básico pelo primeiro ciclo. Mas vou ter de deixar isso para amanhã, pois, ao abrir o computador, após o jantar, tive algumas surpresas que me fizeram chorar! Enfim, um lobo não está habituado a certas coisas!
Tenho estado a responder a alguns e-mails absolutamente inesperados: de alunos meus. Lamentam a minha mais que provável saída da escola e, com as palavras “setas”, dizem-me coisas que me amolecem o coração e, como já disse, me fizeram verter as mais selvagens lágrimas lupinas. Percebem agora os meus prezados colegas por que motivo dedico aos catraios tantas horas do meu tempo livre? Simples: porque os amo e porque me amam! Não há mais nada para além disto!
Tanto me tenho dado aos professores e só tenho levado pontapés. Dos mais próximos, nenhum me disse, em tempo útil, “Fica!”. Nenhum me disse, em tempo útil, “Lamento que te vás embora!” Nenhum! Têm sido os alunos (muitos alunos) a ter esse nobre gesto. Sinto que gostaram realmente de mim! Sinto que levo também o reconhecimento e o respeito dos encarregados de educação! É, no fundo (lamento dizê-lo) o que mais me importa neste momento.
Mas eu, afinal, não sou aquele Lobo Mau que quer reprovar os alunos? Mas eu, afinal, não sou aquele retrógrado que dá secas atrás de secas até matar os jovens de tédio?
Deixo-vos dois testemunhos: o primeiro, de uma aluna com excelentes resultados escolares; o segundo, de um aluno que, embora tenha a transição “garantida”, não fez o suficiente para ter os resultados que estão, com facilidade, ao seu alcance.
Na última semana, por várias vezes, notei que nos olhos da Aluna X, de vez em quando, “perolavam” algumas lagrimitas reprimidas. No último dia, lá acabou por me dizer, repetidas vezes, que tem muita pena que eu me vá embora. Como tive medo de me desmanchar, brinquei com a situação, dizendo-lhe que, com o tempo, verá que isso é bom para os alunos. Sorriu. Escreveu-me um brevíssimo, mas cirúrgico e-mail. Disse-me, em poucas palavras, tudo o que um professor precisa de ouvir.
O segundo testemunho é o seguinte:
«Gostaria de lhe agradecer por tudo o que fez nestes últimos dois anos, tanto por mim como pela turma. Foi um professor que me marcou muito, pois impunha respeito dentro da sala de aula e com um bom ambiente. Por palavras é difícil de explicar. Agradeço por nunca me ter marcado um processo, pois eu sei que o professor reparava em todos os meus comportamentos.
Gostei muito de o conhecer e fez-me crescer muito. Ser seu aluno foi algo marcante! Tenho pena que se mude de escola pois tinha a certeza que vários alunos gostariam que o docente lhes desse aulas.
Peço desculpa por ter faltado a aulas que o senhor nos dava de livre vontade e de graça, demonstrando assim que se importa bastante com os seus alunos! Por isso lhe agradeço!»
Também disse tudo.
Este é apenas um dos meus 75 alunos do nono ano, daqueles que todos os dias (repito: todos os dias) me mimavam com palavras quando chegava à sala. Tive de lhes ralhar muitas vezes, mas nunca me guardaram ressentimento. E sei que eles sabem que comigo sempre foi assim também. Eles sabiam que antes, durante e depois de tudo, fosse em que situação fosse, eu gostava muito deles. Isso foi determinante.
E pronto, encerro com boas lágrimas o meu fim de semana.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Os modernaços



Nos próximos dias (o que não significa que seja todos os dias) vou contar algumas histórias baseadas em casos reais, alguns vividos na primeira pessoa e outros que me foram narrados. Talvez assim algumas pessoas “vejam” e outras fiquem sem moral para continuarem a negar o que sempre “viram”. Por agora, fico-me por uma óbvia constatação: a da prodigiosa plasticidade dos modernaços.
É curioso como, após a capitulação do professorado no reinado de D. Lurdes, os que mais cedo se vergaram, passando a envergar as vistosas cores do lurdismo e a defender a pertinência das lurdices, são basicamente os mesmos que aderiram, precoce e entusiasticamente, às cratices e às geringoncices. Os mesmos que, ainda no ano passado, eram fervorosos apóstolos dos planos de ação estratégica, ajoelham-se agora aos pés da nova e flexível autonomia. Reter alunos é coisa do passado, mau instinto de maus professores, brasão de uma espécie de Idade Média da pedagogia. Os modernaços aderem a tudo o que vier à rede, porque não querem… parecer certas coisas e sofrer outras.
No entanto, à velha Idade Média da pedagogia está a suceder uma nova Idade Média, com novos anátemas: quem não adere é porque encara a avaliação como castigo, não quer recuperar os alunos, é inimigo dos mais desfavorecidos, não gosta de trabalhar em grupo, de partilhar decisões, talvez porque tenha medo que os outros assistam à sua incompetência, às suas perversas parcialidades… Os adesivados é que são os amiguinhos, os que mais amam os alunos, talvez os mais competentes para o exercício da profissão. Os outros…
É um gigantesco jogo de espelhos e de máscaras o tempo que vivemos. Os que se estão borrifando, os que apenas beijam o seu umbigo são os que vão mais alegres na longa e gorda procissão de anjos. Lá à frente, na cabeça do corso, uma belíssima alegoria da autonomia e da flexibilidade; na cauda, um tosco andor feito de plástico reciclado de utensílios descartáveis.  

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Um banquete de tristeza, por favor!



Repugnante (e insidioso) conceito de autonomia, aquele que é mensurável, quantificável, passível de ser representado numa percentagem de um currículo. É essa a autonomia com que nos iludem? É essa farsa de autonomia que nos cega? Tristes de nós, se não vemos!
Enquanto nos regozijamos com percentagens (ou com mais minutos aqui, menos minutos ali), todas as nossas muralhas, todos os nossos castelos estão a ruir. Os profetas das novas e flexíveis autonomias (e os apóstolos que entre nós espalham a sua palavra) anunciam tempos nus, novos templos onde cada um de perde praticamente todos os baluartes da sua autonomia pedagógica e não vai poder decidir praticamente nada. Tudo nos vai ser imposto, desde a planificação à avaliação, passando, como é óbvio, pelo ato pedagógico por excelência. Aos parvos, dizem que é partilha, articulação, mas não passa de esmagamento profissional. É o fim (absoluto) dos pedagogos, o limiar de uma nova era: a do operariado letivo.
Hoje estou especialmente triste! Mas o que mais me entristece não é ver prosperar os extraterrestres que nos controlam, que nos exploram e exaurem a Escola Pública; o que mais me entristece é ver tanta penumbra, tanta cegueira e tamanha rendição entre aqueles que deveriam ser luz e dar luz. 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Ter de



Em tempos de auspiciosa flexibilização, é muito estranha a proliferação de títulos que contêm a expressão "ter de": "as escolas vão ter de", "os professores vão ter de"... Só não vejo nada (absolutamente nada) do género "os alunos vão ter de" e "os pais vão ter de".
É fácil de ver para que lado torce a flexibilidade e quem vai ter de torcer (ainda mais). Mas é inútil ver, porque a moda e o medo tudo arrastam. A voragem parece cega  e inexorável.