quarta-feira, 19 de julho de 2017

Carta aberta aos meus alunos do 7.º F



Estimados alunos,
Tal como previa (e como era meu desejo), deixarei de ser professor do quadro da André Soares no final de agosto. Sobre os motivos, não direi nem mais uma palavra, pois estou certo de que os conheceis. Tenho também a convicção de que sabeis que, numa situação de normalidade, jamais vos deixaria “a meio” do caminho (se não fosse esse o vosso desejo) e que tudo faria para vos levar ao melhor porto. Mas… enfim, a vida é assim mesmo: tem circunstâncias que são superiores à nossa vontade e princípios que, depois de adotados e entronizados, reinam em nós, fortalecendo o nosso caráter. Têm, por vezes, um custo elevado, mas são sempre dignificantes e honrosamente diferenciadores.
Sabeis que, por vós, levo o coração (re)partido, pois sois, de mim, a parte que fica. Ainda hesitei, em tempo útil, mas… para além de um eventual recuo me fazer perder o crédito da palavra dada e publicamente afirmada, seria um ato de pretensioso egoísmo: como se admitisse que, sem mim, os vossos amanhãs tivessem de ser escuros. Grande tolice! Na verdade, depois de mim, virá (de certeza) alguém mais competente do que eu, talvez mais jovem do que eu, que saberá cativar-vos e ensinar-vos melhor do que eu. Essa é — dou-vos a minha palavra de honra — a parte que me deixa mais tranquilo. A parte restante, como facilmente depreendereis, é coisa minha: da minha saudade, do afeto, da consciência profissional…
Mas… falemos de coisas mais “substantivas”(em jeito de balanço): o que levo e o que espero ter deixado.
Levo comigo um extraordinário grupo de alunos num tesouro de memórias: a vossa educação, os vossos olhares limpos e transparentes; a vossa entrega, a constante vontade de superação, de fazer sempre melhor, de alcançar os melhores resultados; a vossa necessidade (tão estimulante!) de querer saber os porquês de tudo; as aulas de apresentação dos trabalhos (quase sempre acima das expectativas); a aula em que apareci trajado de palhaço e que acabou por decorrer com “toda” a normalidade, graças ao vosso respeito; o final de aula em que “vesti” a pele de escritor; a derradeira aula, de dramatização (que só aconteceu porque vós fizestes mesmo questão); as aulas de sexta-feira à tarde (“fora da caixa”) e a excelente disposição que aí reinava, apesar do tema ser a gramática; as vossas auras flamejantes, no dia em que me informastes que uma professora tinha acabado de ser barbaramente agredida… Tantas lembranças!
Aprendi muito convosco, fiz muitos materiais pedagógicos para poder corresponder ao vosso estímulo… tornei-me melhor professor. E diverti-me muito na vossa companhia. Alguns momentos de irritação? Talvez — um aqui, outro ali — mas, como a minha capacidade de retenção de recordações já não dá para tudo, vou guardando o melhor (que ocupa imenso espaço).
Quanto ao que espero ter deixado, os conhecimentos ocupam o derradeiro lugar. Não faltará quem vos ensine melhor do que eu. Convosco, é fácil lecionar. Por isso, espero merecer um lugar digno na vossa memória pelo exemplo dos meus atos: pela pontualidade, pela assiduidade, pela entrega à profissão, pela disponibilidade total para os alunos, pelo rigor na preparação das aulas, pela humildade, pelo afeto, pela solidariedade incondicional (quando foi necessário), pela verticalidade, pela integridade… Se deixei pelo menos uma destas sementes em cada um de vós, então… sou um professor realizado. Deixei o melhor que o ensino tem. O resto… está nos manuais.
Quanto ao próximo ano letivo, não preciso de vos dizer absolutamente nada, pois sei que continuareis a dar o vosso melhor, que é efetivamente excelente.
Termino com o obrigatório pedido de desculpas, por divergir do trilho com a peregrinação em curso. Não é bom mudar frequentemente de professor. Todavia, estou convicto de que sabereis compreender e aceitar as minhas razões.
Até sempre, inesquecíveis alunos!
Professor Luís Costa

PS – Esta missava será o último artigo do meu blogue — Eramá — de cuja existência (doravante efémera) só hoje vos dou conhecimento.

4 comentários:

  1. Bonito e sentido. Gostava de fazer parte da tua sala de aula. Tenho a certeza que seria enriquecedor para mim. Beijo enorme, Luís Costa!

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  2. Nesta fotografia pareço muito mais "bonito", Anabela! Não irias gostar, podes crer. "Look around".
    Ser meu colega é algo insuportável.

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    1. Não é verdade, Luís. Fui tua colega e gostei de ser. És assertivo e correto, longe de ser insuportável. Espero que estejas bem. Já agora, em que escola estás? Bjinho Lúcia Rodrigues.

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    2. São os teus bondosos olhos, Lúcia. Obrigado!
      Fui colocado na Mosteiro e Cávado.

      Bjs

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