domingo, 9 de julho de 2017

Coração partido!



Fim de semana em Trás-os-Montes, alheado destas coisas cibernéticas. Vinha com ideias de voltar a envergar a armadura e de me atirar àqueles que começaram a destruir o ensino básico pelo primeiro ciclo. Mas vou ter de deixar isso para amanhã, pois, ao abrir o computador, após o jantar, tive algumas surpresas que me fizeram chorar! Enfim, um lobo não está habituado a certas coisas!
Tenho estado a responder a alguns e-mails absolutamente inesperados: de alunos meus. Lamentam a minha mais que provável saída da escola e, com as palavras “setas”, dizem-me coisas que me amolecem o coração e, como já disse, me fizeram verter as mais selvagens lágrimas lupinas. Percebem agora os meus prezados colegas por que motivo dedico aos catraios tantas horas do meu tempo livre? Simples: porque os amo e porque me amam! Não há mais nada para além disto!
Tanto me tenho dado aos professores e só tenho levado pontapés. Dos mais próximos, nenhum me disse, em tempo útil, “Fica!”. Nenhum me disse, em tempo útil, “Lamento que te vás embora!” Nenhum! Têm sido os alunos (muitos alunos) a ter esse nobre gesto. Sinto que gostaram realmente de mim! Sinto que levo também o reconhecimento e o respeito dos encarregados de educação! É, no fundo (lamento dizê-lo) o que mais me importa neste momento.
Mas eu, afinal, não sou aquele Lobo Mau que quer reprovar os alunos? Mas eu, afinal, não sou aquele retrógrado que dá secas atrás de secas até matar os jovens de tédio?
Deixo-vos dois testemunhos: o primeiro, de uma aluna com excelentes resultados escolares; o segundo, de um aluno que, embora tenha a transição “garantida”, não fez o suficiente para ter os resultados que estão, com facilidade, ao seu alcance.
Na última semana, por várias vezes, notei que nos olhos da Aluna X, de vez em quando, “perolavam” algumas lagrimitas reprimidas. No último dia, lá acabou por me dizer, repetidas vezes, que tem muita pena que eu me vá embora. Como tive medo de me desmanchar, brinquei com a situação, dizendo-lhe que, com o tempo, verá que isso é bom para os alunos. Sorriu. Escreveu-me um brevíssimo, mas cirúrgico e-mail. Disse-me, em poucas palavras, tudo o que um professor precisa de ouvir.
O segundo testemunho é o seguinte:
«Gostaria de lhe agradecer por tudo o que fez nestes últimos dois anos, tanto por mim como pela turma. Foi um professor que me marcou muito, pois impunha respeito dentro da sala de aula e com um bom ambiente. Por palavras é difícil de explicar. Agradeço por nunca me ter marcado um processo, pois eu sei que o professor reparava em todos os meus comportamentos.
Gostei muito de o conhecer e fez-me crescer muito. Ser seu aluno foi algo marcante! Tenho pena que se mude de escola pois tinha a certeza que vários alunos gostariam que o docente lhes desse aulas.
Peço desculpa por ter faltado a aulas que o senhor nos dava de livre vontade e de graça, demonstrando assim que se importa bastante com os seus alunos! Por isso lhe agradeço!»
Também disse tudo.
Este é apenas um dos meus 75 alunos do nono ano, daqueles que todos os dias (repito: todos os dias) me mimavam com palavras quando chegava à sala. Tive de lhes ralhar muitas vezes, mas nunca me guardaram ressentimento. E sei que eles sabem que comigo sempre foi assim também. Eles sabiam que antes, durante e depois de tudo, fosse em que situação fosse, eu gostava muito deles. Isso foi determinante.
E pronto, encerro com boas lágrimas o meu fim de semana.

4 comentários:

  1. E é com relatos destes que ainda conseguimos ir caminhando.

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  2. Sim, é esse o meu único combustível, presentemente.

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  3. Verdade. Este também é o meu único combustível. Gostei do que li... sem surpresa.
    Beijinhos, Luís Costa!

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  4. Obrigado, Anabela!
    Infelizmente, a nossa fragmentação chegou a este ponto!

    Bjs

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