quinta-feira, 27 de julho de 2017

Gato malhado do ensino



Apesar de ser um tipo solidário, capaz de pôr os interesses do coletivo — das pessoas que amo, ou simplesmente de um/uma colega que, subitamente, precise de ajuda — acima dos meus, sinto-me muitas vezes como aquele gajo que um certo tipo de paternalismo define como má companhia. Já na minha juventude era assim.
Quando era mancebo, dado a namoricos (enfim, um trabalho árduo a que eu nunca virei a cara), os pais das moçoilas sempre me detestaram (não sei porquê). Como sempre fui bom aluno, pacato, cordato… só via explicação para tal atitude no relevante defeito de ser pobre, uma vez que de bonitezas/feiuras eles nada percebiam. Mas… o que é facto é que, invariavelmente, com uma unanimidade digna de uma boa ditadura, não iam com a minha cara. Como amigo da família, tudo bem, mas quando passava à condição de namorado da filha… Não sei que bicho lhes mordia! Ficavam possessos! Passei as passas do Algarve com alguns presunçosos pais de moças bonitas. Dois casos foram autênticas novelas que fizeram, durante anos, as delícias do antigo Facebook rural. 
Atualmente, em contexto radicalmente diferente (profissional), continuo a sentir-me aquele gajo que os papás e as mamãs das escolas veem como má companhia, já não por ser pobre (mau fora!), nem sequer de espírito, mas por ser má influência para o professorado acomodado e obediente. Ou porque alguém, direta ou indiretamente, lhes dá a entender que não sou visto com bons olhos ou porque as pessoas percebem que não lhes sairá a lotaria escolar, se forem vistas muitas vezes comigo, a verdade é que sou, para quase todos os efeitos, como uma autêntica doninha fedorenta. Com o tempo, sou eu mesmo que me afasto das pessoas, para não lhes arranjar problemas. Sei que ninguém ameaça ninguém com maus horários, com servicinhos impróprios para consumo, com turmas de elite, com más vontades e tolerância zero… mas estou convencido de que, no subconsciente da malta, esse bloqueio é ativado (e algo semelhante acontece na blogosfera, não tenho dúvidas).
Há, porém, uma diferença colossal entre as moçoilas do meu passado (que Deus as faça felizes!) e os moçoilos e moçoilas com quem trabalho no presente. As primeiras eram detentoras de uma visão muito diferente da dos papás (porque tinham caráter e bom gosto), e não se deixavam demover nem com ameaças de deserdação; os segundos… já nem sei muito bem o que pensam. A verdade é que, no dizer, vão concordando comigo, mas no fazer... é que são elas! Só fazem o que o papá  (ou a mamã) quer.  
Profissionalmente, já me convenci de que vou ficar encalhado ad eternum, até no escalão em que me encontro.  Sou uma espécie de gato malhado, ou melhor, de lobo malhado do ensino. Tal como no passado... que se lixe!

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