domingo, 2 de julho de 2017

Professores ou sujeitos da passiva?



O que mais me dói na classe docente é o modo como, paulatinamente, nos temos deixado secundarizar, subalternizar e funcionalizar. Na verdade, muito do respeito que dizemos ter-nos sido usurpado resulta deste conformismo doentio, desta inadmissível rendição.
Atualmente, parece que só nós, enquanto classe, é que não somos ouvidos. Seja qual for o assunto, a comunicação social procura imediatamente conhecer a opinião do representante dos pais e encarregados de educação, do representante dos diretores, dos políticos… Só nós ficamos no nosso canto, à espera que os outros decidam, para depois implementarmos. Os sindicatos? Estão demasiado focados (para não dizer “vocacionados”) para questões de ordem contratual, de vencimentos e de progressões, de concursos… E como esta procissão ainda nem sequer saiu do adro…
Exemplo claro do que acabo de afirmar é o que, nos últimos dias, tem sido divulgado e partilhado, nas ditas redes sociais, por alguns conhecidos bloggers ligados ao ensino. Dizem os meus colegas que o fim das retenções é uma inevitabilidade, porque já alguém decidiu e o processo está em marcha irreversível. Logo — dizem eles — o melhor é habituarmo-nos à ideia, aceitar a realidade e tentarmos ser felizes neste novo enquadramento. O tanas, caros colegas! Esta é a posição de quem funciona como uma máquina, não apenas porque executa ordens, mas porque abdica da sua autonomia, da sua consciência, da sua ética, dos seus direitos e deveres. Nós somos pedagogos, caros colegas! E, enquanto pedagogos, temos o direito e o dever de intervir, ativa e construtivamente, em todo o processo decisório. É a nossa ética profissional e os superiores interesses daqueles que ensinamos e educamos que o exigem. E há ainda um outro fator, não menos relevante: a nossa dignidade, a objeção de consciência a que temos direito. Abdicar dela é arruinar toda a nossa autonomia, toda a nossa autoridade. Sem isso, jamais teremos o respeito que almejamos.
Não sou, por princípio, contra um sistema que não reprove os alunos. E também sou a favor da recuperação de todos os alunos. No entanto, dos princípios à realidade vai, na maior parte dos casos, uma enormíssima distância, e um fatal abismo, por vezes. Com a sociedade que temos, com os encarregados de educação que temos, com os alunos que temos, com os políticos que temos, com os meios que temos, com a crise que temos, com o regime de gestão das escolas que temos, com as desconsiderações e faltas de respeito que temos, com o medo que temos… o fim das retenções será uma calamidade. Repito: uma calamidade. Muitos alunos serão enganados, porque acabarão empurrados para a frente, a troco de um qualquer simulacro de aprendizagens essenciais. Muitos, como bem sabemos, enveredarão pelo caminho do desinteresse, da falta de ambição, da preguiça, acabando por desembocar na indisciplina e/ou na violência. Sabemos perfeitamente (já acontece agora) que, para além de não quererem aprender (porque vão transitar sempre), se entreterão a não deixar que outros aprendam. Destes, os que puderem procurarão o ensino privado. Os professores, por seu turno, suportarão “esta poupança”, diariamente, com o seu ego: mais desautorizações, mais humilhações, mais faltas de respeito, mais agressões, mais trabalho escravo e trabalho inglório… É o nosso tutano que vai ser consumido.  
É por isso que nós temos o direito (por nós) e a obrigação (pelos alunos) de sermos voz ativa nas decisões que interfiram diretamente com o processo de ensino e aprendizagem. Ninguém, absolutamente ninguém, nos pode impor nada que implique a nossa desautorização, a nossa perda de dignidade e do respeito dos nossos alunos, encarregados de educação e sociedade em geral. Não podemos lavar as mãos, como Pilatos, nem aceitar o papel de sujeitos da passiva, porque é antagonista da nossa condição. É uma obrigação profissional e um imperativo ético, caros colegas!

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