segunda-feira, 10 de julho de 2017

Retenção proibida


Quem não sabe (ou já não se lembra) que a origem de uma boa fatia do “insucesso acrescentado” está na já vetusta decisão de “proibir” a retenção dos alunos no primeiro ano de escolaridade? A troco de uns não sei quantos traumas, à conta de apoios que nunca chegaram efetivamente, os alunos foram sendo empurrados para a frente. Os professores viram a heterogeneidade das turmas a aumentar, viram as próprias turmas tornarem-se mais numerosas (algumas com diferentes anos de escolaridade), viram a indisciplina, o desmazelo e o desinteresse a crescerem (de modo inversamente proporcional à sua autoridade)… e, finalmente, viram também crescer a pressão para fazerem transitar todos os alunos. Os professores do primeiro ciclo têm sido uns heróis, heróis muitas vezes incompreendidos e sós.
Quem já não se lembra de ter constatado (incontáveis vezes) que os alunos chegam cada vez com mais dificuldades, com mais lacunas e mais indisciplinados ao segundo ciclo, ao terceiro ciclo...? Não, não estou a apontar o dedo a ninguém, estou apenas a apontar o dedo à fonte e a declarar que muitos dos “males” com que hoje nos debatemos são consequência dessa falsa premissa (porque não há dinheiro que a pague): o aluno transita porque será apoiado, para recuperar o seu atraso até ao final do ciclo. É este o embuste. O que acaba por acontecer, na maioria dos casos? Empurrão atrás de empurrão até uma qualquer saída “airosa”. Contrariamente ao que dizem “certos estudos” e o “discurso oficial”, a minha experiência diz-me que quanto mais cedo a retenção acontecer mais profícua ela se torna.
A par deste tabu da retenção no primeiro ano de escolaridade, foram adicionados ao kit do embaratecimento da escola pública (ainda se lembram?) dois conceitos que visavam (e ainda visam) tornar “proibida” a retenção, fazendo crer que, em tais casos, os professores estão a cometer um “autêntico crime”, uma espécie de infanticídio pedagógico: a “dupla retenção” e a “retenção repetida”. Se bem se lembram, a Lei até já permitiu que os conselhos de turma pudessem fazer transitar alunos com quatro, cinco, seis… negativas, sem alteração de nenhuma nota. Bastava indicar na pauta uma determinada alínea de um determinado normativo. Por que motivo cria agora tanta escandaleira o facto de haver diretores que pressionam os conselhos de turma para passarem alunos com quatro ou cinco negativas? Porque as notas são alteradas artificialmente para os alunos passarem? Se é por isto, assino por baixo.
Agora estamos em plena apoteose de todo esse velho processo de eliminação do insucesso sem eliminação das reais dificuldades/atrasos/lacunas dos alunos. Os professores acreditam mesmo que é desta que os tais apoios vão ser suficientes e eficazes?  Os professores acreditam mesmo que é uma flexibilidade qualquer feita com contas de horas retiradas daqui e acrescentadas ali, com falsas transversalidades, como mais trabalho burocrático… que os alunos vão ser efetivamente recuperados? Os professores, que também acompanham as notícias do país, acreditam mesmo que, presentemente e num futuro muito próximo, haverá meios para recuperar efetivamente quase todos ou todos os alunos que transitam com graves lacunas? Acreditam mesmo?
Fez muito bem este Governo em tomar como grande objetivo a universalização do pré-escolar. A minha vénia. Todavia, está a borrar completamente a pintura ao não investir seriamente no primeiro ciclo, relativamente ao qual o sistema precisa de uma fortíssima discriminação positiva: turmas efetivamente diminutas (não mais de quinze alunos no primeiro ano) e apenas um ano de escolaridade em cada sala; mais autoridade aos professores deste nível de ensino; mais responsabilização (a sério) dos encarregados de educação. Não pode haver melhor investimento. O que se gasta “a mais” aqui poupa-se nos níveis seguintes, e obtém-se muito melhores resultados (verdadeiros). Temos de combater precocemente aquilo que mais tarde só pode ser atenuado ou iludido, porque é, na prática, irrecuperável. Todos sabemos isso (creio eu).
Todos saberíamos compreender e todos nos envolveríamos — acredito — num esforço sério (como este) de correção pedagógica do ensino básico e de melhoria efetiva de todo o sistema de ensino. Tudo é muito mais fácil quando os agentes acreditam mesmo. E eu creio de tal forma neste caminho, que aceitaria o congelamento definitivo da minha carreira para ajudar a patrocinar uma tal medida discriminatória. Afinal, não foi o dinheiro que me trouxe para o ensino. Não sou um apóstolo das retenções, mas quero algo que as substitua com vantagem (não na Austrália, em Portugal)!

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