sábado, 15 de julho de 2017

Subitamente


Subitamente, percebemos que as palavras acabadas de dizer eram as últimas. Todas as outras — as que esperavam nas intenções e nas promessas —, apesar dos viçosos estames que traziam, eram absolutamente supérfluas, infecundas e inúteis, porque estão… ou fechados… ou secos... ou pútridos os gineceus.
Subitamente, percebemos que é ao silêncio que devemos entregar todas as palavras por dizer; que é no seu ventre imaculado, nos seus leitos de negrura e solidão, que a eloquência germinará até se fazer pura luz. Afinal, basta contemplar o céu em noite escura e limpa para percebermos que todo o universo é assim.
Subitamente… fica um vazio prematuro, porque as palavras por dizer se ausentaram, por terem percebido, subitamente, que eram a derradeira esperança da razão. 

8 comentários:

  1. Fez-me lembrar a poesia de António Ramos Rosa, não percebo porquê...é assim não é preciso!

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  2. Não entregue tão facilmente as palavras por dizer ao silêncio. Nem à solidão.
    O cansaço é grande, as desilusões também, mas não é bom.

    Não há luz pura.
    Há esperança de razões, trazidas pelas palavras e pelas acções.
    Isto sou eu a tentar convencer-me também a mim.......

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  3. Doravante, só usarei a "armapena" se for forçado a defender-me ou se for necessário intervir a favor daqueles que ensino e educo. Os professores... cada um que se defenda, porque já são crescidinhos. Além disso, costumam morder quem não manda neles.

    Sabe, caro(a) anónimo(a), o que é dado raramente é valorizado. Por isso, vou deixar de me dar. Então dar-me sem que me peçam... para mim será pecado mortal. Deixo para masoquistas ou gente que se detesta.

    Quanto à luz, fisicamente não sei, mas poeticamente é claro que pode ser pura (se for metáfora de "verdade", por exemplo)!

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  4. O silêncio também fala, mesmo que custe perceber.
    Até sempre, Luís.

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    1. O silêncio, Maria José, é o que se impõe quando o ruído impera ou quando descobrimos a vanidade das nossas palavras.

      Os motivos da minha retirada (para a vida) estão bem explícitos nos artigos mais recentes.

      Para os verdadeiros amigos é mesmo um “até sempre”.

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  5. As palavras nunca são vãs, acredite; podem é não produzir exatamente o efeito que queremos.
    Mas eu entendo muito bem esta posição, oh se entendo!
    Boa sorte para a colocação ... e para a "nova" vida. De certa maneira estou curiosa para ver se "aguenta" :-), fico a torcer para que sim.

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    1. Sim, Maria José, é só nesse sentido que digo que são vãs. Percebi o "aguenta". :)

      Obrigado pelos votos!

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