sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Barcelona



Somos todos Charlie (e devemos ser), somos todos Paris (e devemos ser), somos todos Nice, Bruxelas, Barcelona e Madrid (e devemos ser), mas… (temos de admitir) não nos expressamos da mesma forma, nem com a mesma indignação nem… com a mesma dor quando os atentados (ainda que mais frequentes e mais sanguinários) ocorrem em países situados fora do perímetro da dita cultura ocidental: Turquia, Síria, Iraque, Serra Leoa, Libéria, Afeganistão, Índia…
Temos ainda um longo e doloroso caminho a percorrer. É um caminho interior, até às profundezas da alma de cada de nós. É uma cruzada contra todas as nossas corrosivas indiferenças. Temos de conseguir levar a nossa dor para lá das fronteiras do “podia ter sido eu”. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

The bad wolf came back



Só para dizer que acabou a pasmaceira. O blogger mais independente, mais subversivo, mais revolucionário, mais eclético, mais criativo, mais surpreendente, mais provocador, mais viril, mais apaixonante, mais desconcertante, enfim, mais genial (e mais modesto também) reabriu o seu estabelecimento, após uma curta semanita e pico a “ramblar”. Perosucede que tengo pocas ganas de escribir. Ainda assim, cuidem-se os editores da blogosfera docente, porque é por eles que vou começar a malhar. Têm andado a portar-se mal, dizendo coisas sem interesse, rendendo-se ao poder instituído, ao capitalismo, ao egoísmo, ao narcisismo… e até abrindo lojas de baba e reiki bué choninhas. Ai ai ai ai ai!!!

domingo, 6 de agosto de 2017

O lobo vai de férias



O GIF, como é habitual aqui na serra Eramá, foi pensado para a música de fundo. Neste caso, a canção “In the Summertime”, dos Mungo Jerry.

O lobo vai de férias. Uma semanita, para descomprimir e beber outros ares.
Portem-se bem (se puderem)!

sábado, 5 de agosto de 2017

Sou professor contratarado e… feliz!



Bom dia! Eu sou o Ernesto Alegria, nasci em Currais do Meio há quarenta e tal anos, casei há quinze dias e, sinceramente, prefiro ficar anónimo neste artigo, porque… nunca se sabe, não é verdade? Eles estão por todo o lado. Mais vale prevenir do que remediar. Mas… adiante, que se faz tarde.
Comecei a deduzir que seria masoquista, por volta dos dezassete ou dezoito anos, não sei precisar muito bem, quando levei um valente coice do burro do Zé Farrapo. Não, não apanhei choque nenhum. Até gostei! Depois, confirmei que o era (e sou) realmente, quando apanhei o Amâncio, o meu melhor amigo, na praia, a espalhar bronzeador no corpo impoluto da minha namorada, a Adosinda, filha do Toninho Aldra, o merceeiro de Currais. E gostei, pois claro! Então pus-me a pensar e disse cá para os meus botões: «Ernesto, se tu gostaste daquilo e ainda gostaste mais disto, é porque tu és um valente masoquista!» Fiquei muito feliz com esta constatação, que veio no momento mais propício da minha vida: estava na idade de escolher a profissão.
Fui para casa, deitei-me nas lajes da eira e entreguei-me a algumas horas de profunda e sólida meditação. Busca daqui, questiona dali, infere A e deduz B… até que cheguei a uma conclusão que me deixou deveras extasiado: a profissão de professor vestia que nem uma luva nas minhas expectativas de vida. Ter uma carreira em que é possível conciliar o trabalho com o prazer era uma espécie de cereja no cimo do bolo. Só a ideia, tão lúcida e tão iminentemente real, já me conferiu, naquele preciso instante, um certo grau de êxtase. Como não cabia em mim de ansiedade, tratei, logo que pude, de me candidatar a um curso de formação de professores. Dado que sempre fui bom em números, tornei-me professor de Português. Longe estava eu de imaginar que a realidade iria dar uma valente coça aos saborosos frutos da minha prodigiosa imaginação agridoce!
Sou professor contratado há duas dúzias de anos. No início, não achei piada nenhuma ter de andar com a carapaça às costas para todo o lado, porque gostava de sofrer no mesmo sítio durante mais tempo. A monotonia da rotina confere ao prazer masoquista recortes de requinte que só quem experimenta pode valorizar. Contudo, com o tempo, fui-me habituando e até passei a gostar, a gostar mais ainda. Hoje, já não quero outra coisa: sofrer em cidades e vilas diferentes, em escolas diferentes, com diretores diferentes, com colegas e alunos diferentes, nunca se sabendo realmente o que nos espera… É intenso, permanente… “adrenalizante”… É como sofrer tudo de todas as maneiras e ficar a chorar por mais. Professor efetivo? Nem me falem! Do quadro de agrupamento? Vade retro! Parece coisa de bacanal sem dor! O que quero mesmo é ficar assim, nesta constante indefinição, nesta constante ansiedade até à reforma e mais além, para lá dos setentas.
Como disse, dois parágrafos acima, a minha profissão tem-me dado muito mais do que eu, nos meus melhores devaneios, poderia desejar. A dada altura, congelaram a progressão na carreira. Ainda por cima, a crise económica não se fez rogada. Nem queiram imaginar as carradas de prazer que tal facto acrescentou à minha já tão gostosa vida! Devia chamar-lhe “prazimento”, uma vez que só funciona com sofrimento. Mais tarde, descongelam a coisa. Confesso: receei perder alguns bons condimentos do meu quotidiano, mas estava redondamente enganado. A ministra de então alterou os escalões e eu fui por aí abaixo. «Boa, mana!», disse eu, cá para mim, no mais íntimo das minhas vísceras. Os meus colegas andavam furiosos, mas eu, no meu recato interior, rebolava-me de prazer. Além disso, nunca exercitei tanto a matemática, a fazer contas e mais contas ao dinheiro. Era um clímax atrás do outro! Não tinha mãos a medir! E quando eu pensava que já tinha chegado ao sétimo céu, eis que se revela o oitavo: puseram-me a trabalhar mais tempo com o mesmo salário, a dar aulas que não eram letivas, a fazer tarefas de secretaria e de pessoal auxiliar, a guardar putos na cantina… Doses e doses de “prazimento” sem fim! Se dúvidas ainda tivesse quanto à escolha profissional que fizera, elas teriam sido então completamente cilindradas. Nunca me canso de agradecer ao Amâncio aquelas mãos sagradas a percorrerem o curvilíneo lombo da minha Adosindinha!
Finalmente, com o decorrer dos anos, subi na carreira: fui promovido ao nono céu. Os alunos não estudam um corno, deitam todo o tipo de porcarias para o chão da sala, dizem palavrões em todo o lado, e até à minha frente, chamam-me nomes, falam uns com os outros enquanto eu falo para o boneco; os encarregados de educação protestam por tudo e por nada; alguns até batem mesmo (ainda há coisa de dois meses, um me deu uns bons sopapos só porque tirei o telemóvel ao filho); os diretores fazem de mim gato-sapato (e eu adoro!); os coordenadores não ligam nenhuma ao que eu digo (e eu até já falo só para sentir o seu prazeroso desprezo); no fim do ano, como sou setor de Português, desautorizam-me, votando as minhas notas para passaram os alunos que se borrifaram na minha cara (eu até já lhes dou para baixo na avaliação só para poder saborear minuciosamente cada uma dessas democráticas humilhações); depois, os putos cujas notas foram alavancadas portam-se mal no exame e o diretor chama-me à pedra, baixa-me as calças e dá-me tau-tau, por causa da discrepância entre a avaliação interna e a externa (e eu vou às nuvens, pois claro!). AAAAAAAAAAAAAH!
Enfim, não podia ter escolhido melhor profissão. Nunca chegarei ao topo da carreira, nem quero chegar! Nunca serei respeitado, nem quero ser! Reforma?! Quanto mais tarde e mais depauperada, melhor! E se algum dia (vira para lá as fuças, ó Diabo) tiver de pertencer a um quadro, pois que seja o da mona lisa, ou então de um município qualquer. Sou um masoquista convicto e inconsolável! Quero mais e mais e mais e mais… Foi por isso que, há quinze dias, casei com a Adosinda. E adivinhem lá quem foi o padrinho! O Amâncio, pois claro, que agora é diretor da escola TEIP onde eu “sofrensinei” este ano.
Sou professor contratarado e… feliz!

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Grau zero da pedagogia



Ao longo de um, dois ou três anos, um professor vais construindo um discurso coerente, motivador, propiciador do reconhecimento do valor do trabalho diário e do desenvolvimento do sentido de responsabilidade. Os alunos entendem-no, aceitam-no e incorporam-no, porque o consideram claro e congruente com as ações e decisões quotidianas do professor. Consequentemente, os momentos de autoavaliação tornam-se simples e pacíficos. Depois, chega o conselho de turma do último ano do ciclo e, em poucos minutos, todo esse património é delapidado.
Outrora, o expediente da votação de notas em conselho de turma era uma rara exceção, e acionava-se por uma questão de justiça, para que um determinado aluno não fosse prejudicado por fatores não dependentes da sua ação ou inação. Hoje, porém, é muito diferente: as notas são votadas a eito, sem qualquer critério ou fundamento pedagógico, apenas porque há que cumprir as metas “contratualizadas”, porque há que atingir, a todo o custo, o sucesso estatístico pleno, sem qualquer consideração pelo profissionalismo dos colegas, sem qualquer respeito pelo trabalho desenvolvido, sem a devida consciência das repercussões de tais atos administrativos no dia a dia quer dos professores quer dos alunos.
O que é que uma escola ensina aos alunos quando — por influência de quem manda e alienação de quem cumpre — decide rasgar o tecido pedagógico que um professor, meticulosamente, pacientemente e coerentemente, andou a construir ao longo de todo um penoso percurso? O que é que uma escola ensina quando decide, por vias travessas, fazer transitar alunos que, em coerência com todos os critérios definidos e com todos os valores veiculados e aceites, sabiam que não mereciam? Essa escola incute-lhes valores de sentido oposto aos que proclama (currículo oculto, mas poderoso): o desinteresse, a falta de ambição, resignação, a acomodação, a falta de respeito (pelos colegas, pelos professores e pela escola), o absentismo e… a indisciplina. Ensina não apenas os que transitam nestas condições, mas também os restantes, que assim são incentivados a fazerem o mesmo, porque, no final… a pauta não faz justiça ao trabalho de ninguém. Em suma, a escola que procede desta forma não recupera uns e desmotiva outros.
Relativamente aos professores, o que resta dizer é muito triste! Mais de uma década de bombardeamento profissional conduziu o corpo docente a este estado amorfo, alienado, desprovido de consciência crítica, de idoneidade e autoridade pedagógica, de ética, de sentido de defesa intransigente dos interesses imediatos e mediatos dos seus alunos. Nem sei se prefiro acreditar que tal acontece mais por inconsciência ou por demissão. O Diabo que venha e escolha. A verdade é que são muitos os que, cansados de retaliações, se resignaram ou mudaram mesmo de fé. Querem é paz, ainda que de consciência amordaçada. E como, frequentemente, estão em maioria nos conselhos de turma, vão perseguindo e cilindrando o trabalho, a autoridade e a dignidade profissional de quem não se rendeu a este negro vórtice de facilitismo economicista. Já nem sequer se exige um fundamento credível, uma justificação detalhada. É porque sim, porque o sucesso estatístico é o novo dogma avaliativo de todo o trabalho desenvolvido numa escola, e ninguém quer ficar mal na Suprema Avaliação Externa.
Os fins parecem justificar os meios. O sucesso pleno (máxima poupança) tem se ser alcançado a todo o custo. Se tiver de ser através do grau zero da pedagogia e sobre os cadáveres dos professores, paciência! Valores mais baixos se levantam.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Os milagres da senhora DT e do CT, por maioria



Noutros tempos, não muito distantes, quando um conselho de turma decidia votar a nota de um professor (expediente raro e só usado em situações mesmo muito especiais), caía o Carmo e a Trindade. O visado sentia que a sua autoridade e o seu profissionalismo (por vezes, o respeito) tinham sido beliscados. E lá teria as suas razões! Hoje em dia, votar notas não só se tornou moda como já entrou na mais normalíssima das rotinas. Eu diria mesmo que se tornou viral e viciante, a tal ponto que até há professores que votam contra a sua própria nota. Mas o sucesso pleno, tudo justifica, ao sucesso pleno tudo se perdoa. A febre é tanta, que já atingiu outros planetas do sistema solar.
A história que vou contar, não se passou em Portugal, nem na Europa, nem no planeta Terra, aconteceu em Neptuno. Em Neptuno, o sistema educativo é muito parecido com o nosso (refiro-me a Portugal). Acho mesmo que é nesse planeta que os nossos políticos mais visionários se inspiram para sacarem as suas reformas mirabolantes.
Acontece que num belo dia, no final do ano letivo de Neptuno, a DT que ia presidir ao primeiro conselho de turma de um ano terminal, quando atravessava o longo corredor que conduzia à sala de reuniões, foi picada por uma abelha asniática (espécie autóctone), cujo ataque é indolor, mas alucinogénio. As vítimas passam a ouvir e a seguir vozes que fremem constantemente no cérebro. Ora… o corredor foi suficiente para a nossa heroína ouvir tudo o que precisava: “Lembra-te de que é o primeiro conselho de turma. O que acontecer aí fará jurisprudência sobre os restantes. Vota a eito, que o desfecho é perfeito. Não deixes nenhum pupilo para trás. E nada temas, que a mão do Grande Irmão proteger-te-á.”
Passemos a fita à frente. Trsjjjjsjsjsjsjjsjjsjsjsjsjsjjsjs…. O conselho de turma já está nos finalmentes.
— Ora, caros colegas, nem vale a pena estarmos aqui a dirimir argumentos, pois todos sabemos que estes cachopos, apesar de gostarem de botânica, estudaram quase todas as árvores mas não estudaram um carvalho, o que é grave porque se trata da espécie dominante no nosso planeta. Por isso, vamos diretos ao assunto, porque não os queremos novamente aqui para o ano, não é verdade? Então é assim: temos três alunos com quatro negativas e dois com três, sendo que, em todos os casos menos num, as disciplinas de P e de M estão envolvidas. Os primeiros… nada feito, pois teríamos de votar duas notas o que é… indigesto. A não ser que algum colega queira, de livre vontade, subir a sua nota para três.
— Eu subo a nota do Brêtebe — disse, imediatamente o PCN (professor de CN) — e nunsa fala mainisso!
— Eu suvo o nível do Préjece — atacou a PI (professora de I).
— Ora, assim sendo, agora só temos um aluno com quatro. É o Blábláblá, coitado! É fraquinho, todos sabemos, mas estudou a zoologia quase toda, só não estudou um corno e aponta de outro. Vamos traumatizá-lo com uma retenção?
— Eu estou d’acordo co'a DT — acudiu a PFQ (professora de FQ). — Apesar de ter dois à minha disciplina, nota que não altero, porque ele é mesmo muito fraquinho, se for proposta a botação, eu digo já que boto a fabor da alteração.
— Mas o Blábláblá tem quatro negativas, colega! Mesmo que votássemos a tua nota, ele ainda ficava com três, com P e M, que significa chumbo certo no exame.
— Euê estou dispostoê a subirê a minha notaê — apostou o PM (professor de M).
— Então… só precisamos de votar a nota de FQ. Vamos a isso. Levantem lá as mãos… A nota foi alterada com apenas um voto contra: o do PP (professor de P). Assim… já está passado, pois nunca na vida tira 1 no exame de P. Vamos então aos casos dos alunos Juquejuque e Tiroliro. Não adianta votarmos as notas de G, no primeiro caso, nem de F no segundo, porque, se vão a exame com nega a P e M, estão feitos. Por outro lado, não vale a pena votar a nota de M, porque eles são meninos para tirarem 1 no exame e… lá vai tudo quanto a Maria votou. Assim sendo…
— Só nos resta uma saída: boutar a nouta de P — concluiu perspicazmente o PCN. Bamos a isso depressa qu’ou, a seguir, tenho outro conseilho de truma.
Nesse momento, antes que a DT passasse ao ataque, o PP tomou a palavra e explicou por A mais B todas as razões que justificavam a justeza do nível atribuído aos catraios e as implicações que tais votações tinham na credibilidade e na autoridade dos professores…
— Tudo bem, colega, mas já ninguém liga a isso! Agora é assim que se faz. É assim em todo o lado!
— Ó colega, a avaliação não deve de ser encarada  como castigo. Sabe muito bem que a Lei diz que a transição é a regra. A retenção só deve ser usada muito muito muito raramente. Quase nunca, por assim dizer.
— Se nós não botarmos isto, o pedagógico manda pa trás. E mesmo qu'isto passasse no pedagógico, daba logo motibo a um recurso. E todos nós sabemos o qu'a DREN (Direção Regional de Educação de Neptuno) faz aos recursos. Às tantas ainda aparecem por cá os Dalton, os irmãos Metralha, o Labo Mau, o Lord Farquaad, o Diabo da Tasmânia…
— Pois é!!! E depois inda temos que boltar a reunir o CT, mesmo que já estéjamos noutro planeta. Bamos mas é botar a nota e prontos.
— O professor de PP quer dizer algo mais? — quis saber a DT.
— Sim, quero dizer que o céu lá fora está azul e que aqui está um calor que não se aguenta!
— Muito bem! Assim sendo, vamos lá levantar os bracinhos… O Brêtebe já está, com um voto contra. Novamente… O Préjece também está arrumado, com um voto contra. Agora para o Juquejuque… O Juquejuque já passou, com o mesmo voto contra. Agora o Tiroliro… O Tiroliro também já passou, com o habitual voto do contra. Podem até tirar 2 no exame de P que já ninguém os impede de se matricularem no Déci Moano.
— Missão cumprida. Parabéns!!! — Segredou-lhe a abelhinha asniática, com voz de mel.
A DT inchou, inchou, inchou tanto, que… saiu pela janela e ascendeu aos castelinhos brancos das nuvens. Os sobrantes… foram quase todos felizes para o próximo dominó.

Contra Bentos & Marés



Mais logo, conto-vos (à ma manière) a história de uma DT que ficou possessa depois de ter sido picada por uma abelha asniática (perdoem o neologismo).